O Sentimento de injustiça

Johannes Grützke (German, b. 1937), Der schulhof [The Schoolyard], 1980. Oil on canvas, 181.61 x 183.52 cm

sai da tua infância, amigo, desperta

Rousseau

há já revolta quando se imagina que pode haver revolta

Retz

O moderno é em tal ordem inédito que à salvação do homem que o vive se vê acrescida a pergunta: salvar-me de quê? A salvação consiste, pois, em atribuir uma causalidade ao movimento furtivo.

O que me empurra para a salvação é, antes de tudo, indefinido. E é precisamente deste referente que me procuro esquivar. Diz Anaximandro de Mileto que “a existência do indefinido deve-se à oposição entre os elementos.” Para o pré-socrático, discípulo de Tales, o indefinido tomou o nome de apeiron — “fonte da geração das coisas que existem, em que se verifica também a destruição segundo a necessidade” — e foi à época tido como um avanço em comparação com a ideia de que da água descendem todas as coisas.

O indefinido é o ponto de nascimento e de morte. E estes mundos sucessivos — o ar nasce e o fogo morre, o duro nasce e o frágil morre e vice-versa — são a expressão de uma injustiça. Diz Anaximandro:

“Poderemos nós acreditar, de facto, que o Indefinido, sendo divino, pratica uma injustiça contra os seus próprios produtos, e tem de os recompensar?”

O Indefinido retoma a justiça. É a vontade de justiça, em jeito de silogismo, que propõe a salvação daquele que vive o moderno.

One clap, two clap, three clap, forty?

By clapping more or less, you can signal to us which stories really stand out.