A Poesia e o Poeta

O duelo entre a criatura e o criador

O pai e o filho
A mãe e a criança
O mestre e o discípulo
A verdade e a esperança

Coerência verbal das ações escritas
És indecifrável
Nasce com a espontaneidade de uma respiração
Sopro celeste 
Atinge um na multidão

Se encaram num duelo incessante
A folha e os olhos
A caneta e as letras
O sentimento e as palavras
As ideias firmes e as cambaleantes

É o encontro da água com o oxigênio
Do segredo com o mistério
A capacidade de desembaralhar
Em singelo movimento, de única letra
Transformando o ar em mar

A dúvida
Que ao consumir a pele de um ser indeciso
Mastigando seus mais profundos pensamentos
Salivados entre o molar e o ciso
Possibilita o ranger de novas portas
Abrindo páginas ainda desconhecidas
Estendendo suas internas hortas

Se esparrama no papel
Essa composição abstrata
Aquilo que há de mais cruel
A concepção que maltrata
Expondo o que é infiel
Na noção mais insensata
Colocando no papel de réu
Quem poetiza de forma ingrata

Aprendiz sempre sou
Sempre fui, sempre serei
Ao deparar-me com a possibilidade de criar
Já avistei-me como rei
Mas quanta ignorância!
Se as palavras não são minhas
A ordenação também não é
Com o poder, vem a ganância
De andar além do próprio pé

Sou súdito do tempo que me leva
Vendo-me no mesmo lugar daquilo que escrevo
Instrumento e mensagem
Receptor e mensageiro
Que ao longo dessa viagem
É sempre o último
E o primeiro.