Espelhos quebrados

O ser-humano e seu eterno embate com o desconhecido

Um dia, numa terra estranha, grandiosas estruturas de madeira atravessavam as águas cristalinas que cercavam densas matas. Seres vestidos com suntuosas roupas, carregando consigo materiais indescritíveis, de funções inexplicáveis, saíam aos poucos dali de dentro, pisando na areia com a mesma desconfiança que uma onça demonstra quando perto d’água.

Do outro lado, animais belíssimos das mais variadas cores fogem assustados com tais embarcações, enquanto hominídeos de pele mais morena saem do meio das matas, apontando suas lanças e flechas para os recém chegados.

Se de um lado os homens se sentiam descobridores de um novo universo, o qual deveriam explorar e transformar parte do seu, do outro haviam homens se sentindo invadidos por uma população extra-terrestre, exatamente por considerarem aquela gigante ilha que habitavam o único espaço existente na Terra, ou pelo menos o qual foi destinado à sua tribo preservar.

Não me refiro à nenhum confronto originado de uma ficção científica, apenas à chegada das grandes navegações portuguesas às terras tupiniquins. Mais do que um confronto ideológico ou cultural, mas um choque total de compreensões e perspectivas de mundo. Do dia para a noite eles descobriam que além dos mares havia muito mais a se conhecer do que suas fontes de suprimento, fosse esse fisiológico, por via dos peixes, ou então financeiro, por meio das Índias.

A realidade é aquilo que cada um é capaz de ver, seja de forma isolada e alienada dentro da caverna de Platão, onde não se há uma verdadeira visão daquilo que existe, ou até mesmo em um cotidiano onde todo o tipo de informação está constantemente a nossa disposição. Como que um pequeno curumim, que mal conhecia sua tribo, que dirá suas rivais, poderia imaginar a repentina chegada de homens brancos, barbudos, falando línguas estranhas pelo mar? Não só isso, mas oferecendo-lhes jóias, vestimentas e até um aparato tecnológico extremamente avançado, que ao ser observado proporcionaria a grande engenhosidade de visualizar a si próprio. 
Sim, o espelho. Me pergunto ainda hoje o que foi a transformação no pensamento e na visão de mundo de todos os envolvidos nesse processo.

E essa história já havia acontecido antes. Imagine só a primeira vez que um europeu chegou à África e encontrou ali um bicho de pernas enormes, coloração amarela, pintas marrons, com um pescoço colossal e um rosto similar ao de um cavalo. Mas é óbvio que isso só poderia ser um monstro assustador prestes a devorar tudo a sua frente. Ou pior, um grande animal de quatro patas, com um chifre gigantesco na frente de sua cabeça, correndo em uma velocidade inimaginável para seu tamanho, em enormes campos áridos desconhecidos. Eu, particularmente, voltaria correndo à Europa sem pensar duas vezes.

A coragem e determinação dos desbravadores em nossa história é algo que admiro veemente, pois pensando nisso tudo, coisas banais como a expressão “matar um leão por dia” soam ridículas. Enquanto usamos ela como metáfora para a peleja diária que estamos sujeitos a enfrentar, essa mesma frase poderia um dia ter sido aplicada de forma literal ao cotidiano de um guerreiro africano, séculos atrás.

Não sei se hipocrisia ou apenas estranhamento, mas o fato de estar aqui, sentado confortavelmente em um apartamento distante de qualquer um desses animais, pensando e escrevendo sobre tais acontecimentos, demonstra a discrepância comportamental que um curto período de tempo histórico proporciona.

Curto período de tempo sim, pois me refiro a acontecimentos de nem mil anos atrás, agora imagine só o tanto de embates com o desconhecido e mudanças causadas por isso que já aconteceram na história da Terra. Somos só um grãozinho, que por brincar com um boneco de girafa quando criança, e ouvir falar de pirâmides encontradas do outro lado do globo, nos sentimos conhecedores de alguma coisa. Mas tudo aquilo que conhecemos não passa de um singelo ponto de vista. Não vemos o mundo através de uma porta ou janela, e sim de um espelho. Tudo ao nosso redor está em função de nossa perspectiva, da proximidade ou distância que observamos cada situação e como visualizamos a nós mesmos dentro disso tudo. Dentro da vastidão do espaço e do tempo, ainda existem imensos universos particulares prontos a serem desbravados dentro das singularidades de cada um.

E se ainda assim você realmente achar que tudo aquilo que nos falta explorar se encontra apenas além desse planeta, bom… lembre-se que não conhecemos nem 5% do mar.

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