“Quem tava lá?”

Analisando o som mais inesperado do Rap Nacional em 2016

A essa altura, todos que acompanham minimamente o cenário do rap nacional já pelo menos ouviram falar de “Quem Tava Lá?”. 
Lançado no dia 19 de agosto de 2016, com a frase “Uma nova página do Rap Nacional” escrita na descrição do vídeo, o novo som do Costa Gold chegou como a maior surpresa do ano. Não pelo fato de ter sido anunciado e lançado de imediato já com um clipe. Muito menos pela participação do Luccas Carlos, que já esteve em algumas outras músicas do Costa, mas sim pela presença do Marechal.

Um dos grandes nomes do hip-hop no Brasil, ou pelo menos no Rio de Janeiro, MC Marechal já tem alguns anos de caminhada no rap, e até hoje nenhum disco lançado. Mas isso pouco importa, pois o seu trabalho dentro da música e das comunidades já é mais significante do que de muitos outros artistas consagrados nacionalmente.

Mas enfim, vamos ao clipe.

A música se concentra num conflito vivido pela maioria dos rappers nacionais. Iniciando suas carreiras com dificuldades econômicas e pouco apoio de amigos e família, passam a se ver cercados por esses — e muitos outros — após alcançarem a fama e o dinheiro que tanto cobiçaram. 
O vídeo começa com Luccas Carlos expondo sua visão bem particular dessa questão, enquanto ele e o Costa Gold saem de uma van para mijar na rua. Vale apontar a baita evolução dele, sua voz e seu R&B flow são sensacionais e encaixam super bem no beat do Lotto.

Então escuta o som e aproveita a viagem
Só não vai achando que é só massagem…”

Em seguida a van para num posto e agora quem canta é o Nog , com sua voz tão característica ele começa a rimar sobre questões bem atuais no rap nacional, criticando em especial àqueles que tentam imitá-lo.

“Agora eu entendi que a moda agora é isso aqui
Querem saber até que escola atendi”

Chega então a parte do Predella, com seu flow incrível, tratando um pouco da história do Costa e de como eles já cresceram até os dias de hoje. No que falta de modéstia na sua letra, sobra de crítica (mais uma vez) ao Terceira Safra.

“E o phill insiste em falar do costa na internet
Enquanto minha entrevista tem mais views
Que todos seus discos de rap
Sem facebook ou instanerd
A rua é só pra homem. ô, moleque
Nem começou o ano e já lançamos 20 track”

Não demora muito e então… surge a voz do Marechal.

Um só, neguin
Vagabundo não esperava essa não
Vamos voltar a realidade
Costa gold

Realmente, ninguém esperava isso do Marechal. 
Muito daquilo que ele tanto critica pode se representar em grupos como o Costa Gold: Uma vida repleta de avareza, usando e abusando de drogas e mulheres, atingindo lucros altíssimos com músicas de mensagens duvidosas…
Mas antes de criticar sua participação, prestemos atenção no clipe e no que ele tá nos dizendo.

Marechal entra na música com uma flipada absurda, que chega quase a ocultar o talento exposto pelo Costa nos versos anteriores. A partir daí começa a contar sua trajetória no rap, passando por poucas e boas pra conseguir arranjar alguns centavos.

“Era dj e porteiro lá
Virava os rolê mais sujo
Até que acenderam a luz e mandaram eu parar
“bora, marecha? tenho que fechar o bar!”
Quem que vomitou no banheiro tinha que lavar
Depois disso ainda sem dormir partia
Pra praia entregar flyer, rapá”

Andando a pé. Sozinho. Descalço. Com um caderno na mão.

Quer conhecer o Marechal? Presta bem atenção no que ele canta nessa música, boa parte de seus sons e projetos tão citados ali.

“Viagem: 2008
2009: Rimanescência, imagens
2010: A guerra, neguin
2011: Griot
Som consagrou o que chamo de rap de mensagem
Meu respeito é pela coerência entre
O que eu escrevo e o que eu sou”

Em suma, o Marechal dá uma aula. Com direito a outra verso flipado (“Respeita o pai, carai!”), ele basicamente narra todo seu caminho na estrada do rap, e insere ali no meio muito de sua filosofia de vida.
Não preciso nem dizer que roubou a música pra ele né?

“Talento e mídia? (han)
Cada um mostra o que tem na linha
Mc marechal, um só caminho
Só vou parar porque a porra
Da música não é minha
Fui”

No fim do clipe a gente descobre que ele tá caminhando no sentido contrário ao da van do Costa Gold. Não dá pra ficar mais simbólico que isso. 
Ao se depararem com ele, todos saem da mesma e passam a andar ao seu lado. Acho difícil que isso manifeste uma real mudança no som do Costa no momento, até porque Predella, Nog e DJ Cidy são bem jovens e realmente vivem boa parte daquilo que escrevem nas letras. E por mais que certas ideias que passam sejam perigosas, e muitas vezes ofensivas, são sinceras mediante a realidade que eles têm vivido.

Mas ainda assim, esse clipe demonstra que apesar das enormes diferenças na forma de viver o rap, o Costa Gold, Pedro Lotto e Luccas Carlos reconhecem a importância do Marechal. Não só isso, mas admitem a influência e admiração pelo mesmo, que se mantém fiel ao seu propósito.

Cada vez mais perto de lançar seu primeiro CD — assim espero — é importante que o Marechal alcance um novo público que ainda desconhece suas músicas. Se colocando ao lado de rapazes mais novos, mas que já possuem um público imenso, ele abre as portas de um rap mais consciente para esse público, e demonstra que apesar de tudo, realmente só existe um tipo de MC: o ‘Foda-se o ego e vamos nos unir!’

um só…

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