AS CARTAS QUE NUNCA CHEGARAM


CENA 01 -- PRIMEIRO ATO -- O QUARTO

Alex entra no quarto, fecha a porta e fica espiando pela fechadura.
Sente o silêncio do vazio e o aconchego do escuro.
Não há ninguém na casa, além de seus pensamentos e seu medo.
Vagarosamente, vai até a janela e olha por entre a cortina e a luz do poste do outro lado da rua.
Sem muito pensar, Alex se afasta, pega uma caneta e seu pequeno caderninho de anotações.
E assim, começa sua história...

SEGUNDO ATO -- MEMÓRIAS

Antes de começar a esboçar um conto, rabisca nuvens e estrelas, enquanto deixa lágrimas caírem sobre o papel, em forma de inspiração e tristeza.
Lembra-se daquele dia no parque aberto, daquele banco de madeira envelhecida e clara.
O cheiro das árvores, também lhe ajudam a criar sua nova história.
Deita na cama e esparrama pelo lençol, alguns de seus antigos versos.
Agora, começa a escrever...

CENA 02 -- PRIMEIRO ATO -- A HISTÓRIA

"Quando criança, o belo e gracioso do mundo não é julgado, é apenas apreciado!
Todas as crianças olham com olhar puro, menos Ela, acho que Ela sempre teve malícia no olhar!
O nome dela é Alice, é apanhadora de frutas. Na verdade, só colhe maçãs pela manhã. Ah! Às vezes colhe uva, mas não estamos em época.
Alice está pra completar 18 anos, mas já anda dizendo por ai, que é maior de idade. E todo mundo acredita, porque de fato Alice parece ser mais velha.
Tão branca, macia, mas tão arisca! Todo mundo tem medo Dela, menos Eu, é claro!
Não tenho medo, porque a realidade é outra. Amo Alice!
Posso até dizer, que existe sim, um certo receio. Mas não de Alice e sim do amor que sinto por Ela.
Até mesmo, porque não acredito que seja amor! Nunca vivi um amor, nem sei dizer, mas tenho um amigo que diz, que isso que carrego comigo, só pode ser amor. Então, que seja!
Só sei que enquanto Alice viver, creio que em mim, essa dor e euforia vão permanecer até meus últimos dias de vida, fincados no peito!
Ontem estive na lavoura, levei meu violino e minha pequena harpa.
Alice não sabe tocar, mas sempre foi curiosa e metida a sabidona, toda vez que apareço com a harpa, Ela quer brincar de música.
Pois bem, enquanto Ela surgia de longe, com sua cesta bordada cheia de maçãs, Eu limpava meu violino com minha cera especial.
Olhava pra Ela e via uma menina grande! Sei o quanto Ela sofre, mas esconde e por isso, finjo não saber!
Também sofro, mas é coisa minha, então estamos bem assim, não precisamos de mais desconforto, além do que já temos.
Alice sentou ao meu lado e sorriu. Agora sou mais feliz, por conta daquele sorriso de ontem!
Comemos maçãs avermelhadas antes do almoço, o som do violino já estava rolando e Ela acariciava a harpa, como se fosse suas maçãs..."

CENA 03 -- PRIMEIRO ATO -- A JANELA

Alex interrompe sua história, depois de ouvir um barulho na janela.
Se assusta e corre pra ver o que há lá fora.
Não há nada, além do vento e de mais histórias...
Se abaixa próximo a cama, pra alcançar um chinelo. Encontra uma carta, aquela que nunca enviou...

SEGUNDO ATO -- A CARTA

Há um certo tempo, Alex escreveu uma carta, cujo o intuito era se desculpar. E ao mesmo tempo, queria demonstrar afeto!
A carta era destinada a Alice, como já era de se imaginar! Porém, toda a coragem e confiança pra enviar o seu sentimento em forma de papel, se desfez com o passar do vento, já que o desejo expresso em seu olhar, talvez não fosse o mesmo do coração...

CENA 04 -- PRIMEIRO ATO -- A HISTÓRIA

"Depois de brincarmos de música e de muitas risadas acariciadas ao ego, pegamos a estrada de volta pra casa. 
Alice e Eu somos jovens, temos sonhos, crenças e fé. Mas ultimamente, a gente anda meio distante de Deus, sem muitas perspectivas. Talvez seja coisa da idade, ou ainda, estamos descobrindo que somos um misto de desejos e podemos tudo! 
Podemos crer e devemos desconfiar!
Chegamos até a porta da casa de Alice, sempre deixo Ela na porta, porque ajudo-a com a cesta de maçãs. O dia estava lindo ontem e nós, com aquela estranha sensação!

Não se sabe ao certo, o que acontece no caminho que corta a mente e o coração.
É de se prever, que milhões de sensores aflitos, fiquem confusos e se esbarram o tempo todo!
Pode ser isso, ou a explicação, é que o coração não sabe carregar sozinho, o peso de se amar alguém.

Soltei a minha mão do lado esquerdo da cesta, peguei minha harpa que Alice carregava nos ombros. Nos despedimos com um longo abraço, que é de costume, mas inovei, com um beijo tímido na bochecha rosada Dela."

CENA 05 -- PRIMEIRO ATO -- A PORTA

Agora alguém bate na porta. Alex sabe que seus pais estão na cidade e vão demorar. E sabe, que a essa hora da noite, não é natural receber visitas. 
Com um andar desajeitado e os pés descalços, vai até o corredor que leva a entrada da casa. A porta fria e olhando assim, meio distante, chega a assustar! Espera alguns instantes e novamente ouve batidos.
Não diz nada, tem medo de ser um malfeitor. De repente, escuta passos se distanciando de sua propriedade, os cachorros latiram, mas já se silenciaram também. Pronto, Alex fica a sós com a solidão novamente!

SEGUNDO ATO -- A CARTA DE ALICE

Subindo as escadas, Alex pensa intensamente na carta que nunca enviou à Alice.
É um arrependimento, uma dor no peito, coisa estranha sem nome, mas com endereço.
Pensa também, em quem poderia ser na porta de sua casa, mas evita pensar, não quer sentir medo, nem se desesperar.
Alex volta a escrever...

CENA 06 -- PRIMEIRO ATO -- A HISTÓRIA

"Depois do beijo, fiquei sem graça e andei rapidamente em direção oposta à Alice. Ela por sua vez, me gritou, pedindo pra Eu voltar. Inventei uma desculpa, disse que precisava levar pães pra minha mãe colocar na sopa e já havia me atrasado muito!
Alice se conformou, entrou em sua casa, enquanto Eu chorava em silêncio, sem saber o real motivo de todo aquele desconforto.
No caminho pra minha casa, encontrei o Júlio, aquele meu amigo que diz que esse meu sentimento, só pode ser amor! 
Júlio e Eu fomos conversando, não comentei nada sobre Alice, mas Ele perguntou. Queria saber o que a gente tem vivido e Eu sempre com descrição, disse que nada demais, o de sempre!
Claro que Ele não acreditou, não é bobo! Mas relutei, mantive a minha versão e nos despedimos.
Antes de chegar em casa, decidi parar naquele banco, que fica embaixo da minha árvore predileta!

É lá que meus mais lindos poemas ganham vida e que meus sonhos, tomam formas.

Pensei, pensei muito em mim, na Alice, na vida..."

CENA 07 -- PRIMEIRO ATO -- OS PAIS

Os pais de Alex chegaram da cidade. Já é tarde, passa das dez horas. 
Alex e sua família moram em uma pequena província da Itália. Seus pais vivem da agricultura, assim como os pais de Alice. Porém, a família de Alice não possui terras e presta serviços pra outras famílias, por isso Alice trabalha colhendo frutas, assim, pode ajudar no sustento da casa.
Alex corre pra abraçar a mãe, é uma relação bonita de se ver. Já o pai, não permite tamanha intimidade e evita proximidade.
A mãe de Alex diz estar cansada e logo se deita, enquanto o pai, trata de negócios na cozinha.
Alex volta ao quarto e continua a escrever...

CENA 08 -- PRIMEIRO ATO -- A HISTÓRIA

"Diante de tanta coisa na cabeça, resolvi que iria atrás de Alice. Precisava arrumar coragem e sem desculpas, dizer que sinto algo que não posso rotular, mas é muito sincero e puro!
Pensei que depois do almoço, poderia correr até a porta de Alice e dizer que a desejo, que não sei o motivo e nem como, mas que a quero!
E assim o fiz!
Corri pra casa, almocei, me banhei e vesti minha roupa predileta!
Aquela camisa com inúmeros retalhos e minha bermuda xadrez.
Peguei a harpa e o violino, afinal, seria uma bela dupla!
Cheguei à casa de Alice, era como se Ela me esperasse. Logo sorriu e veio até minha direção.
Conversamos um pouco ali mesmo e fomos seguindo até as árvores do parque aberto.
Alice é esperta, sentiu que havia algo de diferente em mim e logo veio me perguntar o que era.
Não soube responder, mas sei que a fritei com os olhos e senti o coração na boca, por longos minutos.
Comecei a tocar o violino, na esperança que Ela pegasse a harpa e brincasse comigo. 
Pra minha surpresa, Alice segurou minha mão, se aproximou do meu rosto e me beijou, como se fosse o último beijo de sua vida..."

SEGUNDO ATO -- O VENTO

Alex se assusta novamente, já são quase meia noite e agora o vento sopra como o cantar de um pássaro.
Faz muito frio e seus pés estão gelados. Coloca uma meia 3/4 e arrasta mais um cobertor pra cama. Já pode voltar a escrever.

CENA 09 -- PRIMEIRO ATO -- A HISTÓRIA

"O mundo parou! Agora era só Alice, Eu e as árvores dançando pra nós. Felizes, ao som de violinos tocados pelos pássaros e da harpa, tocada pelo vento.
Fiquei feliz, irradiante! Alice estava bem, mas não muito eufórica. Era como se fosse só um beijo. E na verdade era. Mas dentro de mim, ouvi sinos, lágrimas e histórias..."

SEGUNDO ATO -- O SONHO

Alex acabou pegando no sono enquanto escrevia. Durante a noite, sonhou com Alice e sua história.
No sonho, Alice estava linda, com um belo vestido bordado, cabelos soltos e muitas maçãs a sua volta.
Mas Alex não conseguia se aproximar, havia uma ponte entre as duas vidas e um rio enfurecido, que cortava o campo esverdeado no qual separava as suas histórias.
De repente, um lobo feroz se aproveitou de um descuido de Alice e avançou sobre suas vestes.
Alex chorava muito, não podia fazer nada, não podia correr, nem gritar, afinal, era sonho!
Alice estava sendo morta. Perdendo sua beleza, suas maçãs e suas poesias...

CENA 10 -- PRIMEIRO ATO -- O AMANHECER

Depois do pesadelo, Alex acorda e com o medo no olhar, corre pra lavar o rosto, na esperança de rever Alice.
Veste sua roupa, arruma o cabelo, encontra seu caderno de anotações com sua história e antes de sair ao encontro de sua amada, resolve terminar seu conto...

SEGUNDO ATO -- A HISTÓRIA

"Aquele beijo foi um sinal. Agora posso entregar aquela antiga carta, sem medo. Vou dizer tudo o que sinto. Ficamos com vergonha, voltamos pra casa e deixamos pra conversar depois.
Só que não nos vimos ainda, sei que assim que nos encontrarmos, será lindo! 
Pegaremos mais maçãs, tocaremos nossas músicas e viveremos mais histórias.
Agora sei, que o sentimento que trago no peito, é de fato amor.
Que seja eterno, até o fim de nossas poesias."

CENA 11 -- PRIMEIRO ATO -- CASA DE ALICE

Alex se encoraja, pega a carta que escreveu há tempos e coloca na bolsa, junto a sua nova história, que resolveu mostrar a Júlio.
No caminho, percebe uma movimentação estranha. Olhares tortos em sua direção, mas ninguém explica nada! De longe, avista Júlio, que chorando diz que precisam conversar.
Alex não entende nada, mas segue o amigo. 
Vão até o mesmo banco inspirador e Júlio desaba a chorar. Alex pergunta o que houve e escuta a pior notícia de sua vida: Alice está morta!

SEGUNDO ATO -- MORTE DE ALICE

Alex não consegue assimilar as palavras que Júlio acaba de dizer. Não sabe se chora, se corre pra conferir o fato, se quer morrer junto.
Júlio continua a falar e diz que Alice deixou uma carta pra Alex. 
Diz que a mãe de Alice encontrou a filha enrolada em uma coberta na varanda de casa, com a carta na mão.
Supõe-se que Alice foi ao encontro de Alex durante a noite do dia anterior, ou seja, poderia ser Alice batendo na porta de Alex, durante a noite solitária e fria daquela história.
Alex está aos prantos, mas pede pra ler a carta, antes de ver o corpo de Alice.
Sendo assim, começa a ler...

CENA 12 -- PRIMEIRO ATO -- A CARTA DE ALEX

"Querida Alex, estou escrevendo, porque creio que por meio das palavras rascunhadas no papel, é mais fácil expressar meus sentimentos, que apertam meu peito e espremem meus olhos.
O que desejo lhe dizer, está além do que a boca pode decretar.
Hoje, entendo que nossa amizade, é muito mais do que algumas caminhadas no parque, músicas tocadas ao vento, ou maçãs em minha cesta desgastada pelo tempo.
Nossa amizade é amor. Ainda que não saibamos ao certo como, ou porque.
Mas sabemos que somos duas mulheres e que em meio as nossas lavouras, um caso entre amantes do mesmo sexo, jamais seria aceito e sofreríamos demais com tudo isso!
Quero que saiba, que amo você e que por desejar tanto o seu bem, estou indo embora!
Vou pra cidade, tentar a vida por lá e ganhar dinheiro pra ajudar meus pais.
Fique bem, como você sempre está.
Guarde em seu coração, nossa lembrança! E os vestígios do beijo que roubei.
Lembre-se de mim, como a maçã colhida pela manhã, ou ainda, como aquela árvore, que costuma dançar pra nós e que de acordo com o vento, sopra em várias direções.
Com carinho, Alice."

SEGUNDO ATO -- DESPEDIDA

Praticamente estirada aos braços de Júlio, Alex segue em direção a casa de Alice.
Ao avistar o caixão, mal consegue respirar.
Segurando as duas cartas em uma de suas mãos, aproxima-se do corpo frio de sua amada. Escolhe a carta que escreveu pra Alice e entrelaça em sua vestimenta. Que por sinal, é aquele vestido branco, o de seu sonho.
Pede perdão baixinho, por ter sido fraca e por ter lhe faltado coragem.
Beija o rosto de Alice e diz em voz alta, o quanto a ama!