A linguagem, o BBB e as nossas manias
Tortuosos são os caminhos da língua. Espera um pouquinho, ficou meio pornográfico. Deixa eu começar de novo. É curioso o que o tempo e o uso fazem com alguns termos. “Kafkiano”, por exemplo, já perdeu qualquer contato com a literatura que lhe deu origem e é usado por gente que nem sabe quem foi Kafka — o que não deixa de ser meio kafkiano. “Relaxado” não quer mais dizer relapso ou descuidado como no tempo em que me criticavam por não arrumar meu quarto. Hoje esse termo se refere a quem, para usar outro termo igualmente alterado, “está relax”, descontraído, numa boa, tomando seu drinque com guarda-chuvinha como se nada estivesse acontecendo. Etc. etc.
Fiz esse breve adendo para falar sobre o Big Brother — aquele programa de TV que, imagino, tenha sido inspirado no livro 1984, de Orwell. Na obra, habitantes de um futuro distópico vivem sob vigilância permanente de um poder totalitário e são constantemente lembrados que “o Grande irmão está vendo você”. Obviamente o Big Brother de Orwell não queria ver ninguém se amando, pois o sexo era proibido, e seu controle absoluto sobre as pessoas era o principal terror do “paraíso” previsto para a humanidade, um olho implacável da moral dominante do qual era inútil tentar escapar.
Corta para 2015. No Brasil, este outro falso paraíso, tem gente brigando para se expor diante do olho implacável e o que o Big Brother daqui, o grande público, mais quer ver é cenas de sexo. A câmera indiscreta a serviço de uma ideia obsessiva de organização social deu lugar a uma obsessão maior, a vontade universal de saber o que se passa na casa do vizinho. Não sei se houve ironia intencional (dos holandeses, é isso?) na escolha do nome do programa, mas ela é clara: 1984 já passou e o tirânico Big Brother do Orwell, felizmente, não veio, mas a sua ideia de câmeras bisbilhoteiras[1] era ótima. E elas servem a outra ditadura, que também nos manipula e tiraniza: a ditadura da desconversa. Pois se o Irmão Grande agora é o público, as câmeras reveladoras não se voltaram para o poder, voltaram-se para gente como nós, se expondo e fofocando por dinheiro. O controle, infelizmente, é o mesmo. Só não “vê” quem não quer!
[1] Bisbilhotar” vem do italiano bisbigliare, ou “parlare sommessamente, dire sottovoce, mormorare, sussurare” e, portanto, é outra palavra que se desviou no caminho.