Análisé(rie) — Black Mirror 3x01 — Queda livre

Black Mirror é uma séria estruturada em antologias que faz um exercício de imaginação quanto ao futuro (não tão distante) onde a tecnologia é usada como meio para mostrar aspectos humanos. As distopias seguem um padrão. Existe uma tecnologia já estabelecida e o drama se faz quando existe algum choque com essa questão tão cotidiana. Um exercício de imaginação que pode ser usado nos dias de hoje perfeitamente e dialogar com as facetas do homem contemporâneo. A série chega em sua terceira temporada pela Netflix e dessa vez com seis episódios.

A história se dá em uma sociedade que é permeada por uma rede social. Nessa rede social as pessoas postam sobre sua vida e recebem nota por isso, essa nota possibilita serviços específicos como alugar determinados carros, entrar em determinados locais e até ganhar descontos em imóveis. Lacie Pound é a personagem acompanhada na narrativa.

Lacie tem o constante desejo de se integrar ao alto grau social, em outras palavras, ser uma pessoa nota 4,5. Para isso customiza uma vida para que assim, possa ter uma avaliação mais aproveitável. Come comidas que não gosta, é excessivamente agradável com as pessoas que interage. Não vive em função de si, apenas dos outros. Dos desconhecidos que também buscam um pouco de estimulo, uma massagem sem toque que acontece a cada segundo da vida. Existe a exaltação da felicidade, uma busca incessante por ser interessante. Postasse o que come, o que faz no tempo livre, sempre tendo sorrisos e frases positivas. A vida parece adquirir um caráter artificial, como se as pessoas fossem de plástico.

Pessoas que mal conseguem conversar, pois, já sabem o que o outro fez pela rede social. O que existe quase sempre entre os conhecidos/amigos é o comentário sobre o que se postou, tornando algumas cenas (a do elevador, no caso) constrangedoras pelo silêncio que causa. As pessoas que tem notas baixas recebem um estigma. Pouco confiáveis, sempre parecem estar associadas a más ações ou uma culpa justificada. Até o valor das avaliações dos mais bem avaliados geram mais pontos. A punição realizada pela polícia é a retirada da quantidade de notas e o aumento dos julgamentos negativos.

A narrativa demonstra decadência da personagem. O que seria a fragilidade da imagem pública liquefeita. E que basta um dia ruim para que ela chegue a níveis baixíssimos. Não existe tolerância a sinceridade e nem a expressão autêntica. No entanto existem as pessoas que deixaram de se importar com o sistema, e mesmo com notas baixas exercem seu poder, o poder de ser elas mesmas. Em certo momento da trama onde uma amiga de infância a chama para ser madrinha de casamento e, depois de Lacie ter chegado a notas baixíssimas, é expulsa. A personagem diz que mesmo com nota baixa ainda seria o mesmo discurso, ainda seria ela mesma. Porém, para o resto das pessoas, não teria validade alguma. Sua nota está inteiramente ligada a quem ela é como ser humano, como qualidade existencial. E ela descobre tarde demais que não é a nota que a define, que agradar os outros é tão vazio e aprisionador que a fez esquecer de quem era. O culto a estética a afasta de si e dos outros. E, no final quando é presa e lhe é tirado o aparelho (a rede social), mesmo presa ela tem o olhar de quem se libertou. E lá, encarcerada, ela troca insultos com um outro homem que também está preso. Agora é ela mesmo falando tudo que não pode. Ela nunca teve tanta liberdade na vida quanto naquela prisão.

Uma grande metáfora para o que é hoje o Facebook e o que ele acarreta. A felicidade extrema, a performance e sempre a busca de que se é merecedor do apreço dos amigos/conhecidos. Um grande vencedor. Likes é o que muita gente procura e é também, o que faz muitas pessoas se perderem.

-Fish

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