Reflexões sobre um dia Venusiano

By Kitah Soares

Numa manhã de caminhada pelas praias de Jericoacoara ia pensando sobre a lei da atração… Somos capazes mesmo de um dia atrair o melhor do que conscientemente queremos para nossas vidas? Falo conscientemente, porque inconscientemente atraímos muitas coisas que nem sabemos que queremos, coisas boas e coisas ruins. Mas, conscientemente, coisas do tipo, amar e ser amada por alguém especial, realizar com tranqüilidade o trabalho que gostamos, viajar e conhecer lugares especiais, viver num cantinho bonito, harmônico, experimentar prazeres sem culpa, acompanhar a realização dos filhos, ver o desenvolvimento dos netos… Coisas que a maioria das pessoas que transitam por mim também querem, e que o mero querer, não tem sido suficiente para alcançar tudo isso. Em geral o que acontece é que temos uma coisa e não temos outra, ou para termos uma coisa negligenciamos outras tantas, e por aí vai… Afinal, a lei da atração pode funcionar ao nosso favor?

Pedra Furada, Jericoacoara-Ce

Jeri é um lugar que realmente me permite entrar em contato comigo de forma diferente. Os momentos de silêncio aqui são preciosos, riquíssimos, criativos, mas muito relaxantes. Fico mais feminina, me redescubro, sinto mais a minha alma, percebo meu corpo, reconheço minha sensualidade, sinto mais tesão, por mim, pela vida, me tranquilizo… Faço planos…

Depois das reflexões durante a caminhada, pensando nos parceiros que fizeram parte da minha vida até aqui, retornei para casa da amiga onde estava hospedada nessa temporada, com a necessidade de formatar um novo pensamento-desejo pelo alguém que gostaria que estivesse comigo agora. Já que posso mesmo atrair conscientemente o que quero, resolvi criar uma nova crença, a de que não queria mais rotular a pessoa… Nem preto, nem branco, homem, mulher, mais inteligente ou menos intelectual ou emocional… assim, assado, daqui, dali ou de qualquer lugar… Como em geral faço. Pensei que apenas seria legal uma pessoa! Alguém que simplesmente olhasse, visse, sentisse e quisesse.

Tô aqui com dw (denzel washington, o gato preto da minha amiga) deitado nas minhas pernas. Esse gato foi interessante para mim agora… Me fez ver que existem “gatos” que podem estar querendo ser tão chameguentos e atenciosos quanto ele tem sido comigo. Várias amigas minhas têm gatos e eu frequentemente fujo deles. Não sou muito chegada ao aconchego dos felinos.

com denzel waschington (dw)

Lembrei de algo que numa conversa outro dia uma amiga falou, sobre o gato representar a energia yin, o feminino, a sensualidade. Percebi que por uma série de fatores não tenho estado tão receptiva a outras possibilidades de chamegos felinos. Mas tenho pouco a pouco cedido aos encantos de dw. Já me preocupo até com a comida dele. Noutro dia fui jantar e trouxe uma sobra de filé de peixe que ele adorou. É interessante que dw é um negão, é instintivamente carinhoso, mas não é bonito. É até manco e nada fotogênico. O maior encanto dele é que com seu jeitinho sedutoramente impositivo, vai conquistado corações. O legal também é que pronunciar o seu nome funciona quase que como um “mantra”, pois nos leva a pensar naquele black lindo e gostosíssimo das telas do cinema… Aiii Denzel Washington!!! Mas pensei também ao prestar atenção no andar manco de dw, que o negão Denzel estrela, deve ter seus defeitos também, como todos nós mortais. Os principais pra mim: ser um lindo distante, ser casado com uma mulher tão gata quanto ele e, o pior de todos, não saber que eu existo, não me olhar e não me ver. Im-per-do-á-vel!

Peixe com Pimenta Rosa, by Silvinha Lima Verde

Passei o resto do dia meditando na organização das coisas da casa e curtindo me doar fazendo esse carinho de cuidar desse aconchego de lugar da minha amiga. Enquanto isso ela fazia o carinho dela na cozinha, preparando uma receita libriana que eu pedi — “Peixe com Pimenta Rosa”. Ficou lindo e delicioso, como tudo que ela faz com amor. Depois foi pra loja onde trabalha e eu fiquei aqui novamente em silêncio, preparando o roteiro de um trabalho com um grupo de mulheres que aconteceria no dia seguinte. Uma sensação de que não estava nem alegre, nem triste. Um tanto melancólica apenas, solitária, de repente sentindo falta… Lua Nova em Virgem, bem na minha casa II… Carências e desejos vieram à tona… À noite, me arrumei e resolvi sair, caminhar um pouco…

Saindo de casa, novamente o pensamento: Será que somos mesmo capazes de nos programar para atrair conscientemente o que queremos? Será que um dia vai ser possível que nos libertemos de tantos padrões que aprisionam e nos fazem sabotar tantas coisas legais da vida? Tanta gente bem intencionada, coração bom e com tantas carências… Tem horas que é sacal saber tudo isso e não conseguir mudar o essencial…

Rodei, rodei e cheguei na loja da minha amiga. É sempre tão bom chegar lá!!! Sentei e pedi um café na lanchonete vizinha. Quando estava tomando o café entrou um cara procurando um fósforo pra acender seu cigarro. Elogiou a iluminação da loja, disse que estava linda, que tudo estava perfeito. Fiquei feliz por minha amiga. De repente ele me olhou, estendeu a mão, me cumprimentou com reverência e disse que eu era uma “negra muito bonita”. Segurando ainda na minha mão falou estar encantado, que minha presença estava dando muita satisfação a ele… e blá, blá, blá… Cheguei a dizer que estava me deixando sem graça, tímida. Ele sentou, esqueceu o cigarro e eu perguntei se gostaria de tomar um café. Agradeceu e aceitou.

Começou a conversa comigo se dizendo um homem quântico. De repente, percebi que todas as pessoas que estavam perto, se afastaram de nós. Mas eu fiquei totalmente concentrada naquele sujeito interessante ali na minha frente. Falou dos seus conhecimentos sobre a teoria da física quântica — “é a junção entre a física e a espiritualidade já que a ciência descobriu que muitas coisas não podiam ser respondidas somente com a razão”. Citou o filme/documentário “O Segredo”, falou da parte que mostra a experiência dos sentimentos com as moléculas de água e disse: “Podemos atrair o que queremos com o nosso pensamento”.

Que sincronia!!! Ri discretamente, lembrando dos meus próprios questionamentos sobre isso durante todo o dia. Continuei silenciosa, só ouvindo atentamente cada palavra que ele expressava.

Enquanto falava comecei a percorrer sutilmente com o olhar ele todo. Um homem bonito, sem dúvida, mas bastante descuidado. Barba por fazer, belos dentes, porém amarelados, cabelo sem brilho, roupas sujas, jeito meio “hipponga” ultrapassado, com uma bolsa de couro atravessando o corpo. Pareceu meio grog, talvez droga ou álcool. Sem dúvida muito inteligente, articulava com conhecimento pensamentos e palavras. O cigarro entre os dedos permanecia apagado, pois ninguém tinha fósforos ali.

Oxum

No meio da conversa ele parava, me olhava nos olhos, me fazia mais um elogio. Perguntou se eu tinha vindo direto de Cabo Verde e eu respondi brincando que não, que eu tinha vindo direto de Fortaleza. Ele rebateu dizendo que não, que eu tinha vindo da África. Começou a falar dos meus ancestrais, dos escravos e da sua experiência de anos convividos com pais e mães de santo em uma Casa de Candomblé. Disse que eu devia ser filha de Oxum e que nunca tinha namorado uma mulher negra. Vi claramente que estava tentando me encantar ou cantar, e confesso, também que eu estava ficando encantada com aquela maluqueira. Acho que não por ele propriamente, mas por todas as sincronias que enquanto falava, eu ia fazendo na minha cabeça, sem deixar de prestar atenção em cada palavrinha que dizia.

Conectada com ele, mas ouvindo a minha cabeça que não parava de questionar: Que tipo de energia devia existir em mim que estava atraindo aquela situação? Essa pessoa?

Astrologicamente estava com um trânsito do Sol em conjunção com a minha Vênus em Libra, algo que sinaliza um momento social, sublime de amor, prazer e harmonia. Ainda mais que a Vênus transitando no céu também fazia um sextil com o meu Sol em Libra, reforçando ainda mais essa tendência. Mas ai eu pensava: É isso ai que a deusa Vênus, a “Madrinha do Céu”, estava reservando pra mim? Meu Deus!!! O que é afinal que existe dentro de mim? Saturno em Virgem, num stellium, completando a festa na minha casa II e eu, toda limpinha e cheirosa, diante daquele homem… lindo e sujo. Só posso achar que é algo para eu decifrar… Um encontro de amor é que não pode ser.

Ele era um libriano do dia 7 de outubro. Olhava tão fixamente pra ele que num determinado momento parecia que nós dois não estávamos ali. Era como se ele fosse a externalização de algo que saia de dentro de mim pra falar diretamente comigo. Pois tudo que dizia respondia ao meu Eu, inclusive dizer que eu devia ser filha de Oxum, pois eu sou filha de Oxum mesmo e estava em dúvida quanto a roupa que iria vestir na festa à fantasia de uma amiga. Imediatamente decidi: “Vou de Oxum”. Muito louco aquilo tudo!!!

Ele era incisivo nas palavras. Falava firme parecendo alguém que carrega dentro de si também muita raiva e agressividade. Resolvi lançar para ele ou para “o algo meu externalizado?” o questionamento que me acompanhou ao longo do dia: “Você (frisei bem o você) consegue atrair o que você quer?

Nessa hora minha amiga que tinha reaparecido, estava sentada no sofá da sua loja, prestando atenção a nossa conversa. Ele então me respondeu: “Você (frisando também o você e apontando com o dedão para mim) pode atrair tudo que você deseja com o seu pensamento”. (O que era aquilo? o meu Eu Externalizado respondendo para mim?) Eu então respondi: “Ok! Conheço “O Segredo”, e a teoria da Lei da Atração, e muitas outras coisas que falam sobre isso da mesma forma, acredito na Lei de Causa e Efeito, mas o que quero saber é se VOCÊ tem atraído o que deseja?” Minha pergunta era principalmente porque não podia conceber que uma pessoa que se apresentava no estado que ele se encontrava ali, todo mal-amanhado, ávido por um cigarro aceso, parecendo alcoolizado e com aquela cara tão sofrida, desejava aquilo do Universo. O que ele fazia com tudo isso que sabia? Cheio de teoria, inteligência, falando do Einstein, do Deepack Chopra e tal… e parecendo um caco humano. Perdido, fugitivo de si mesmo! (lembrei mais uma vez da energia netuniana que identifico aqui em Jeri, algo belo e ao mesmo tempo caótico).

Eu não piscava o olho olhando para ele. Como se estivesse a identificar algo muito familiar naquele homem.

Ele me respondeu que a Lei da Atração funcionava, que tudo que pensava e queria acontecia de forma quase mágica na vida dele. Disse que pensou numa casa em Jijoca e que a casa se materializou. Que mora num lugar lindo, bem perto da lagoa do Paraíso. “A Lei da Atração funciona, sim. Acontece comigo a toda hora, eu chego brinco com isso!”, dizia ele.

De repente começou a falar da sua carência de uma mulher. De uma mulher que o pegasse, que fizesse carinho. Seus olhos se encheram de lágrimas e ele chorou, limpando discretamente. Isso me tocou profundamente. Senti que estava sofrendo! Continuou a falar, disse que precisava muito da energia feminina na sua vida, que se sentia só. Sabia da necessidade do equilíbrio entre o yin e o yang e reconhecia que ele estava desequilibrado por não ter uma “fêmea”. Falou emocionado que quando estava amando criava com vontade. Disse que precisava de uma mulher, pois já faziam oito anos que não tinha ninguém. Fiquei com pena dele (ou de mim?), mais uma vez me identifiquei com a dor. Disse ser um artista, que já tinha feito muito sucesso, teve loja, status, dinheiro. Disse que quando tinha dinheiro dava para a “ralé”. Que a burguesia de Jeri queria ele por perto, mas que não curtia os socialites. Gostava dos “loucos” e marginalizados. Tremi… Reconhecia que por isso não tinha nada, mas que não se arrependia.

Arcano O — Tarô — O Louco

Lembrei do Arcano 0 do Tarô, O Louco. Falei para ele que os Loucos são interessantes, são verdadeiros, não têm censuras, falam e expressam o que pensam e sentem mais porque são livres e que isso era muito bom também.

Identifiquei naquele homem a dor de quem vive na sombra libriana. Lembrei do Nietzsche que também era um libriano sombrio, inteligente, que vivia sujo, mal cheiroso e se fazia feio, mas ao mesmo tempo, cheio de desejo e vontade de amor. O que o meu interlocutor de verdade quer e precisa é ter alguém, mas parece que a dor que carrega na alma é tão grande e profunda que ele vai para a outra polaridade, para a raiva e a agressividade do outro lado da polaridade (Áries), quando o que Libra quer é a beleza, a doçura, a arte, a harmonia, tudo que também tem nele sem estar ainda potencializado positivamente. Não perguntei a idade dele, mas pela aparência, pode ser um dos filhos de Saturno em Peixes… Não sei… Mas é facilmente perceptível a energia pisciana escapista que ele emana.

Agradeceu pela gentileza de ouvi-lo e novamente pelo café (sem açúcar, como o meu).

Permaneci ainda olhando para ele como se algo em mim pedisse para que não fosse embora ainda. Pensava que naquele dia eu pedi ao Universo uma pessoa e a noite surge o “Bernardo”. Encarei de frente aquele cara como se estivesse olhando mesmo para mim. Sentia que de alguma forma ele era o masculino que vivia dentro de mim mal resolvido, um lado meu que muitas vezes sentia como machucado, louco, desordenado, inteligente, mas pouco prático. Cheio de talento e criatividade, mas oscilante como uma balança dentro d’água, sem autoconfiança suficiente para realizar e ser o que quer. Era como se ele revelasse ali muitas das minhas dores, frustrações, medos, sensação de fracasso. Ele alcoólatra e fumante, eu muitas vezes perdida nas minhas idéias e “overdose” de insights, que as vezes cansam também. Senti como se nós dois andássemos por estradas semelhantes.

Ele saiu, foi finalmente acender o cigarro dele. Quando se afastou todas as pessoas que estavam na loja antes, reapareceram querendo saber se ele já tinha ido embora, porque diziam não ter saco para a energia dele, que era autodestrutiva (cada um com seus medos de ver as próprias sombras). Senti nisso também o preconceito com o diferente e procurei ver um pouco além do que ele aparentava. Isso foi tão bom para mim que acabei considerando mais tarde que aquele pode ter sido um dos presentes que ganhei desse aspecto Vênus-Sol. Posso dizer que tive uma “experiência fora do corpo”. Consegui no essencial que aquele andarilho trouxe, me enxergar. A mulherada tinha que sair dali mesmo e me deixar sozinha com ele, pois, isso era só com nós dois. Foi assim que me senti ali: Eu e Ele — Ele e Eu-Comigo.

Esse cara aparentemente “Louco” era um homem raro, um “macho” que pensa e sente. Imaginei como ele seria bonitão de banho tomado, cheiroso, sem fumar, sem beber, conversando como um físico-quântico e me desejando, como senti nas suas palavras, no seu olhar, na sua sede de toque. Um parceiro que nessas condições eu tranquilamente encararia.

Então porque surge um “ser” desse, do jeito que eu não pedi a Deus? Se atraímos o que queremos com a força do nosso querer sentido e da intenção pensada, o meu masculino interior deve estar mesmo um caco.

Ao final ele queria saber como manter contato comigo de novo, disse que queria me ver. Eu respondi que estaria por ai… Que se a Lei da Atração continuasse funcionando e estivéssemos na mesma sintonia daquele momento, um outro encontro naturalmente aconteceria, sem que precisássemos marcar nada.

Não foi por acaso certamente que surgimos um diante do outro. Entendi que ele veio para que eu visse na prática que podemos atrair sim, consciente ou inconscientemente o que queremos, o que pedimos ou a energia com a qual insistimos em nos identificar. Pedi alguém sem rótulos, nem branco nem preto, nem homem nem mulher, nem mais nem menos inteligente, um ser de qualquer lugar — Uma pessoa que me olhasse e que me visse. E ele estava ali…

Ia pegar a Jardineira das 22h para Jijoca e se despediu me pedindo permissão para beijar minha mão. Perguntei se poderia tirar uma foto dele, disse que tudo bem. Mas teve receio de olhar diretamente para a câmara. Dei minha mão para ele beijar e nos despedimos!

Alguem que chegou e levantou o espelho

Voltei para casa agradecida e com mais reflexões do que quando saí, acreditando mais do que nunca na Lei das Polaridades. Feliz pela minha consciência, mas um pouco triste porque tanta lucidez não tem me feito feliz como eu sei, que conscientemente quero e mereço ser. Vi em “Bernardo” um espelho levantado na minha frente… O legal foi não ter tido medo de olhar.

o espelho
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