“Não precisa vir na hora, mas de dentro”

Apesar das aspas aí em cima, a frase é minha, de uma conversa de fim de tarde de anteontem que eu tive com uma dessas amigas que fazem parte da nossa família existencial. Sabe? Aquelas pessoas que nem fazem parte do nosso cotidiano de fato, mas com quem sempre podemos ter boas conversas e encontros com aquilo que faz sentido lá dentro da gente? E na verdade esse texto é sobre uma outra conversa, com outra amiga, da manhã do mesmo dia, sobre um tema comum às duas conversas: Frequência afetiva, a demora — ou o tempo das coisas lidas diante da nossa óptica distorcida, mimada e imatura — para respostas de internet e, principalmente, sobre aqueles conceitos e ideias óbvias internamente mas que se a gente não põe pra fora, na luz do mundo, correm o risco de morrer com a gente, com obviedade e tudo.

Tudo começou um dia antes, com a leitura de um texto muito bacana da Laura Pires e o resgate de um tema que sempre me tocou muito dentro desses meus 29 anos e meio de existência geminiana: Frequência afetiva — ou mais precisamente a dificuldade em lidar com a dificuldade dos outros com a dilatação da mesma. E a conversa de hoje cedo foi com uma amiga aquariana — e vocês podem imaginar como deve ser a frequência afetiva de uma amizade entre gêmeos e aquário e pasmem: a relação se sustenta, muito bem, obrigado e é uma das amizades com quem eu mais tenho encontros importantes e significativos, mesmo quando ficamos 3 meses, ou 6, sem conversar — sobre isso: a importância da compreensão da frequência afetiva do outro e que a resposta não imediata depende de diversos fatores que ultrapassam muito e tranquilamente a linearidade rasa do “não me respondeu na hora porque eu não sou importante o suficiente”.

E do que depende então, não é mesmo? Na real, como quase tudo na vida, depende de coisa pra dar com pau, mas uma em especial sempre foi muito clara pra mim — eis a coisa óbvia da qual eu queria falar: Algo que eu chamo de “Faixa de Frequência”. O termo surgiu quando essa minha amiga, falando sobre as próprias demoras, traduziu algo que eu também sinto quando demoro para responder algumas mensagens [porque, claro, às vezes eu só esqueço mesmo]: É preciso estar presente e “no clima” para dar uma resposta decente para a pessoa que nos manda a mensagem. Algo que faça sentido para ela e para a relação. E eu sempre senti que as relações possuem uma espécie de tom predominante, algo como uma cor ou cheiro característico, exclusivo de cada uma delas. A isso eu chamo de “Faixa de Frequência”. Porque é como se fosse a frequência na qual aquela relação vibra. E este um dos principais motivos de muitas das minhas demoras para responder. Porque pra mim é extremamente importante que uma resposta seja dada dentro dessa faixa de frequência adequada para aquela relação, para aquela pessoa e para aquela mensagem. Mas a questão é que a mensagem chega pra gente no tempo de quem a emite, não necessariamente no tempo de quem a recebe. E não apenas por falta de tempo ou ocupações demais, às vezes a mensagem chega quando eu estou tranquilamente passeando por livros, textos e afins deitado na rede da minha casa no final do dia, mas se naquele instante eu não estou na faixa de frequência daquela relação, eu espero para responder. Às vezes a própria mensagem te coloca no tom da relação, mas às vezes estamos tão imersos em outras faixas, por demandas outras — e são sempre tantas e cada vez maiores conforme a gente caminha vida adulta adentro — que não damos conta de responder naquele momento. Diante dessa situação, fica pra mim uma escolha bem simples: responder na hora, independente do clima em que se está e correndo o risco de dar uma resposta cujo tom faça pouco sentido para a natureza daquela relação em especial podendo ser até ofensiva dentro desse contexto; ou aguardar que eu retorne à faixa de frequência daquela relação. Porque a gente transita constante — nessa era da informação e do mundo digital, etc e tal — e freneticamente entre faixas de frequência das mais diversas, o que torna um tanto ingênuo — ou mimado, na real — esperar que as pessoas sempre estejam no mesmo clima que a gente porque a gente quer ou por não saber lidar com a frustração do nosso imediatismo egoísta que não considera o contexto da pessoa que está recebendo a mensagem naquele momento. E é claro, não estou dizendo que se eu estiver de boa deitado na minha rede sem fazer nada e alguém me manda uma mensagem sobre a morte de um ente querido ou algo dessa gravidade eu não vou responder na hora por não estar na faixa de frequência da relação. A questão não é essa, estou falando sobre coisas não urgentes — o que me lembra também esse texto SENSACIONAL da Eliane Brum — e existe uma diferença brutal entre “urgente” e “importante”, mas isso é pano pra outras mangas. Deixa eu terminar essa aqui…

E diante de tudo isso, o que fica pra mim de muito claro — e sempre foi — é que ao contrário desse imediatismo digital infantil propagado pelo satus quo da era da comunicação digital— e sempre que eu vejo o assunto do sofrimento pela espera da mensagem eu fico imaginando aquela criança em fase pré alfabética que chora e se desespera como se o mundo fosse acabar quando a mãe vai ali no outro cômodo resolver qualquer coisa e para a criança rola aquele medo mortal de abandono definitivo… seria engraçado se esse mesmo padrão de expectativa e resposta afetiva não estivesse vindo de pessoas com 20, 30 anos e com ensino superior, inglês, informática e excel — a demora para responder pode muito bem — e é para mim e para diversas pessoas — uma forma muito importante de cuidado com a importância da relação. E estamos nesse mundo louco em que “responder na hora” se tornou mais importante do que responder de uma forma significativa, como se fosse mais importante dar um check na tarefa “responder mensagem de x”, meio que para se livrar dela, do que dar a essa resposta o tempo necessário para que ela seja cultivada e cumpra o papel que a comunicação nas relações deve ter: de uma forma muito importante de investimento de energia relacional e afeto. Mas “não importa se a comida vai ser boa ou não, tem que ficar pronta no tempo do meu carro passar pelo corredorzinho do drive thru” — capiche?

É aquele velho clichê dos “valores mudados da nossa era”. Mas essa reflexão toda me faz sempre pensar sobre o quanto nos perdemos no nosso imediatismo e nos tornamos extremamente ausentes com frequências afetivas estreitas que se preocupa em produzir sempre, independente da qualidade das respostas. Onde está a nossa noção da relação do tempo na importância das coisas? Quando vamos deixar esse hábito imaturo de não parar para sair do nosso próprio umbigo e entender a complexidade e a profundidade dos contextos, que vão para muito além da nossa ansiedade e da nossa carência mal resolvidas e que despejamos no outro? E me preocupa o quanto as pessoas estão despreparadas para compreender as relações para além da superficialidade tão facilmente evocada na nossa era do frenesi digital. A vida fora das telinhas e black mirrors continua existindo no seu tempo e demandando o seu tempo. E eu me pergunto quando é que vamos enfim prestar nosso respeito ao tempo das coisas?

Esse nosso imediatismo está nos impedindo de ter o tempo necessário para compreender certas profundidades e complexidades das pessoas e das relações. E isto pode ser extremamente fatal para os nossos relacionamentos, muito mais do que um “azul-azul” que não é respondido no tempo da nossa ansiedade.