A cada 18h uma mulher é abusada em casas noturnas da capital
Desde 2012, a capital gaúcha já registra 1.236 casos de violência sexual contra a mulher. Representando 13,71% da população feminina presente. E o abuso sexual velado em casas noturnas trás números chocantes, que mostram a falta de segurança da mulher dentro do estabelecimento.
Por: Kizzy Morais
Silencioso, constante e repugnante. De acordo com indicadores da Secretaria da Segurança Pública do Rio Grande do Sul, o abuso sexual é a quarta forma de violência contra a mulher mais frequente em Porto Alegre no ano de 2017, levando em conta as denúncias que se encaixam na Lei Maria da Penha (Lei nº 11.340/2006). Em apenas seis anos, a capital já registra um total de 1.236 casos. Representando 13,71% da população feminina presente.
O bairro Cidade Baixa, considerado o coração boêmio e cultural de Porto Alegre, é conhecido pelo alto fluxo de pessoas. Suas ruas carregam histórias e as populares casas noturnas são um convite à noite gaúcha. No entanto por trás das paredes e da boa música se esconde um lado obscuro.
Conforme levantamento do 9º Batalhão de Polícia Militar, são registradas por semana em média 10 ocorrências de abusos sexuais em casas noturnas, sendo assim 40 mulheres sofrem algum tipo de abuso por mês. Os números assustam e os relatos mais ainda.
A jovem universitária de 22 anos, que prefere não ter sua identidade revelada, conta que estava acostumada a frequentar a casa noturna onde foi abusada e aquela seria apenas mais uma noite de diversão com os amigos. Mas seus planos foram brutalmente interrompidos.
Um beijo no início da noite foi o suficiente para trazer a ideia de que o abusador poderia ir mais longe. E mesmo sem o consentimento da vítima, algumas horas depois, ele entrou na pista de dança, a agarrou e jogou contra a parede gelada. Enquanto seus pedidos de socorro eram abafados pelo som alto, ele abria o zíper da calça e a obrigava a fazer movimentos sexuais com as mãos.
Segundo a psicóloga Laura Goulart, especialista em Terapia Cognitiva Comportamental, estudos afirmam que há uma forte relação entre o abusador e seus traumas antigos. Com isso ele desenvolve o pensamento de que o outro é responsável apenas por lhe satisfazer e a criação do sentimento de empatia é bloqueado. “O prazer está no medo, no pavor, no não poder” completa Laura.
Na intenção de apagar aquela noite de sua memória, a vítima optou por ir embora, sem nem imaginar que o terror estava apenas começando. Com o passar dos dias a jovem foi alertada de que, supostamente, haveria fotos de cunho sexual com sua imagem circulando em um aplicativo de mensagens instantâneas.
As fotos mostrariam o abusador com arranhões e marcas pelo corpo que comprovariam a noite de sexo entre os dois, mas a verdadeira história não era essa.
Decidida a denunciar, a jovem usou a hashtag #MeuAmigoOculto em uma plataforma digital. A campanha criada em 2015 se tornou um viral nas redes sociais, denunciando situações de machismo enfrentadas por mulheres no dia a dia e acontecimentos que por medo ou vergonha não foram levadas ao conhecimento da justiça. Segundo a vítima, a denúncia virtual chegou ao abusador e a casa noturna, que foi extremamente apática ao assunto.
De acordo com Thais Kapp, diretora executiva da Associação Brasileira de Bares e Restaurantes do Rio Grande do Sul, uma das regras do setor, principalmente como casa noturna é a equipe não agir quando se presencia uma situação de desconforto, “Pode ser a cena mas abusiva possível, não tenho como saber a menos que tu me diga.
“Se a pessoa avisou, a casa reage na hora, ela não quer problemas”. Thais conta que já presenciou casos em que empresários tiveram complicações por interferir, acreditar que estava acontecendo um abuso e a vítima se ofender.
Para a diretora executiva, a criação de uma política pública orientativa de convivência diminuiria o número de casos, já que se uma lei for imposta o setor sempre será contra “Tu debruça sobre uma empresa um compromisso que é público, nós não temos que fiscalizar se está acontecendo um abuso sexual”.
Amedrontada e envergonhada, a garota passou a temer sair de casa e o pânico havia se instalado. “Procurei ajuda com uma psicóloga que me encaminhou para um psiquiatra, comecei a me tratar com remédio para depressão, ansiedade e também para insônia. Eu tinha pesadelos constantes com o acontecimento”, lembra.
Hoje a jovem ainda não se sente confortável em sair sozinha e afirma que seleciona os locais que irá frequentar, evitando casas com cobrança diferenciada de valores entre os sexos. A prática que foi debatida no segundo semestre de 2017, chegou a ser considerada ilegal pela Secretaria Nacional do Consumidor, órgão subordinado ao Ministério da Justiça e Segurança Pública, mas durou apenas um mês.
No documento do SENACON consta que o uso dessa política a mulher é vista como um objeto de marketing para atrair o maior número de homens em uma prática de comércio abusiva. Entretanto, conforme Thaís, a distinção de valores não é feita por gêneros, e sim pela diferença de consumo e despesas.
O único aspecto em que a mulher gera mais prejuízo para qualquer estabelecimento é em relação a higiene no banheiro. E por isso a prática não é considerada um incentivo a objetificação da mulher. “Comprovadamente é pelo custo operacional, a mulher é um público que interessa mais a casa“.
Para Gisele Almeida, 42 anos, que faz a segurança de diversas casas noturnas da capital, conta já ter ajudado diversas meninas em situações desconfortáveis “Eu reconheço o medo no olhar delas, são 10 anos nesse ramo, precisava entender os sinais. É meu dever proteger elas como profissional, mãe e mulher!” afirma.
O receio de ir a festas devido o atual cenário de insegurança vivido pelas mulheres é visível e recorrente. Por isso ter uma equipe do sexo feminino no estabelecimento ou durante a revista é evitar qualquer forma de abuso, tornando o ambiente mais seguro. Ou em casos em que infelizmente o ato é concretizado, ser um ponto de apoio para a vítima, reforça a segurança.
“Eu tentei empurrar ele mas ele pegou minha mão e colocou no pênis dele”, desabafa vítima.
Unipautas: No dia do abuso com quem tu estava?
Vítima: Eu estava com três amigas, a gente frequentava bastante a casa na época, porque conheciamos quase todos os DJs e produtores de lá.
Unipautas: Tu conhecia o abusador?
Vítima: Eu conheci ele uns dois meses antes, numa festa de Halloween. Ele era amigo do meu ex e de outro cara que eu tinha ficado no dia que nos conhecemos. Ele tinha recém terminado um namoro e estava dando em cima de uma amiga minha, mas no fim eles não tiveram nada.
Unipautas: Depois disso, vocês tiveram algum tipo de contato?
Vítima: Sim. Ele mandava nudes sem que fosse solicitado e sem avisar, fazia isso em horário comercial enquanto ele estava no meio do trabalho inclusive. Mandava a mesma nude pra mim e para todas as minhas amigas. A gente ria da falta de noção dele, mas eu nunca pensei que o comportamento dele era de abuso mesmo.
Unipautas: E no dia do abuso, ele tentou conversar contigo?
Vítima: Ele perguntou se eu estaria na festa e eu disse que sim. Falou que estava muito afim de mim e sugeriu que a gente fosse pro motel depois da festa. Eu disse que não, que era dia de semana e que tinha que trabalhar no dia seguinte. Fui tentando ser simpática ao dar um fora nele porque tínhamos vários amigos em comum e frequentávamos os mesmos lugares.
Unipautas: Já na festa, como foi o encontro de vocês?
Vítima: A gente se falou normalmente, até acabamos nos beijando, mas ele tentou passar disso e tocou de novo no assunto do motel e eu disse que nao queria mesmo. Ainda disse pra ele que tinha certeza que ele tinha mais alguém pra pegar naquela festa além de mim e que então era melhor ele ficar com outras meninas e a gente ficar só na amizade.
Unipautas: Mas ele tentou novamente, certo. Por mais complicado que seja, tu consegue nos contar como foi o abuso.
Vítima: Sim (voz embargada). Passou algumas horas, ele sumiu, não tentou mais nada, achei que tinha entendido o recado. Enquanto duas amigas estavam no fumódromo eu e a terceira amiga estávamos dançando, ele entrou na pista e simplesmente me agarrou, me jogou na parede e enquanto eu dizia pra ele que não queria ele foi abrindo as calças. Colocou o pênis para fora e enquanto eu dizia não ele ficava me segurando contra a parede. Eu tenho 1,60m e pesava 55kg. Ele é alto e bem mais forte que eu. Eu não conseguia sair dali e nem encontrar minha amiga por trás dele. Eu tentei empurrar ele mas ele pegou minha mão e colocou no pênis dele, ficou segurando ali e tentando fazer com que eu fizesse movimentos. Tudo isso enquanto eu dizia “nao” várias vezes pedindo pra ele me soltar. Eu consegui empurrar ele o suficiente pra ver minha amiga e enquanto ele continuava me pressionando eu consegui empurrar ele mais uma vez e sai correndo, minha amiga me tirou da pista e perguntou o que tinha acontecido.
Unipautas: Nisso tu contou para alguém da equipe da casa noturna?
Vítima: Não, eu só queria ir embora.
Unipautas: Depois disso ele sumiu?
Vítima: Achei que o assunto tinha se encerrado até me avisarem que ele tava circulando fotos de marcas de arranhões e chupões dizendo que eu tinha feito nele, que eu tava afim mas tinha me arrependido e resolvi inventar que não queria, que eu era louca.
Unipautas: Foi nesse momento que tu decidiu denunciar? E porque a escolha das redes sociais como ferramenta?
Vítima: Sim. Na época a hashtag #MeuAmigoOculto tava sendo usada para denunciar machismo e eu resolvi usar pra denunciar ele no meu Twitter. Muitas meninas me apoiaram e chegou até ele, que começou a zoar a história e com os amigos, vários envolvidos na produção da casa acobertaram dizendo que eu era louca.
Unipautas: Como ele já estava ciente da tua denúncia, tu não teve receio dele tentar te procurar novamente?
Vítima: Não achei que ele teria coragem de sair tão cedo. Mas ele foi. Não lembro como que ele se aproximou de mim, mas lembro de dar um soco na cara dele e o segurança tentar me expulsar.
Unipautas: Nesse momento houve interferência da casa?
Vítima: Então, todas minhas amigas ficaram do meu lado e pedimos que o segurança chamasse o dono, porque ele certamente não permitiria um abusador na casa. E o segurança respondeu “Tu sabe quem é ele? Acho melhor tu ir embora, porque ele é amigo do dono. A gente joga futebol juntos, se eu chamar ele vai ser pior pra ti”.
Unipautas: Mas tu chegou a falar com o dono, certo? Era teu direito ter o apoio do local.
Vítima: Só conseguimos falar com o dono porque uma amiga já tinha ido atrás dele, nos conhecemos há anos. Quando o dono chegou ficou chocado com a história, disse que estava do meu lado. Me trouxe água, porque eu chorava e tremia, ele me ajudou e disse que eu não seria expulsa, mas ele sim, que eu podia me sentir segura lá dentro. Que ele ia conversar com o cara pra isso não se repetir, mas nisso ele já tinha fugido.
Unipautas: Depois disso tudo, tu teve alguma notícia do que havia acontecido com o rapaz?
Vítima: Sim. Passou um ano e o cara que me abusou continuou jogando futebol com o dono, frequentando a casa e graça e ganhando bebida. Parece que ser amigo do dono te dá liberdade de fazer o que quiser… (voz embargada) Todo mundo passou a mão na cabeça dele e abafou o caso.
Unipautas: Como a tua denúncia viralizou na internet, teve alguma menina que passou pelo mesmo caso e desabafou contigo?
Vítima: Algumas meninas vieram falar comigo sobre ele, uma ex namorada, uma outra menina que passou por algo semelhante e mais uma que acabou indo pra casa com ele e ele acabou fazendo ela sangrar no meio do sexo quando ela pediu pra parar. E todas repetiram que esses produtores das festas tinham conhecimento desses casos e que também nunca fizeram nada. Ou seja, não fui um caso isolado. Me pergunto quantos outros caras nao fazem o mesmo por serem amigos de produtores e saberem que nunca vai acontecer nada com eles…
Unipautas: Tu chegou a fazer algum acompanhamento psicológico?
Vítima: Eu fiquei quieta, bem abalada. Tive vários ataques de pânico Procurei ajuda com uma psicóloga que me encaminhou para um psiquiatra, comecei a me tratar com remédio para depressão, ansiedade insônia, tinha pesadelos constantes com o acontecimento.
Violência contra a mulher
Você sabe identificar um ato de violência contra a mulher? Existem diversos casos em que a violação do outro não é explícita, dificultando a identificação do crime. Por isso a Lei Maria da Penha (Lei nº 11.340/2006) classifica os tipos de abuso em três categorias: violência sexual, violência patrimonial, violência física, violência moral e violência psicológica.

Saiba como denunciar
A denúncia de violência contra a mulher pode ser feita em qualquer delegacia ou pelo telefone da Central de Atendimento à Mulher, 180. A ligação é gratuita, as linhas ficam disponíveis 24 horas por dia, em todo o país. Para preservar a identidade da vítima a denúncia pode ser feita de forma anônima.
