20 dias Olímpicos | Como foram minhas férias nos Jogos Rio 2016

Apesar de todo o “O que você vai ganhar com isso?”, “Trabalhar de graça?” e “Trabalhar nas férias?” Passei 20 dias trabalhando de voluntária nas Olimpíadas Rio 2016 e mesmo sem conseguir processar tudo ainda, vou tentar escrever um pouquinho como foi essa experiência…

Desde pequena sempre fui muito ligada a esportes, comecei a nadar com 5 anos e até os 17 não teve um tipo de quadra que não me aventurei: basquete, handebol, futebol e até tênis rs. Competi em muitos torneios oficiais de natação e judô.

Judoca

Como todo atleta, meu grande sonho sempre foi participar das Olimpíadas, porém a adolescência me levou para outros caminhos e acabei deixando o esporte para trás, sem nunca deixar de ser uma grande fã e acompanhar tudo. Lembro até hoje quando os Jogos foram anunciados no Brasil, meu primeiro pensamento foi: Tenho que ir!

Há dois anos vi, por acaso, o anúncio para ser voluntário dos Jogos Rio 2016, a princípio iria para torcer mas pensei: Por que não? Eu ia fazer parte do negócio!

Seria a chance de realizar um sonho, colaborar com um momento histórico do nosso país e do mundo, estar perto de atletas que sempre admirei e tinha certeza que seria uma experiência única.

Me inscrevi e de lá pra cá foram muitas etapas de seleção até que finalmente minha carta convite chegou. 
Todos os medos e ansiedades possíveis fizeram parte desse último ano, muitas incertezas também, afinal sabia que hospedagem, passagens e tudo mais não seriam fáceis. 
Seria minha primeira vez no Rio de Janeiro (cidade que também sempre sonhei conhecer), primeira vez que iria viajar de avião e o maior período que passaria longe da minha família. Por uma sorte muito grande que tenho na vida, o problema mais dificil foi resolvido, uma amiga me daria estadia durante os jogos e com isso vi meu sonho cada vez mais perto. (Nunca vou ter como te agradecer Erika e Regina! Obrigada! Obrigada! Sem vocês isso não seria possível!)

Eu e minha anfitriã ❤

Tudo foi se ajeitando para que eu conseguisse, tive muito apoio da minha familia, minha mãe, meu marido, meus filhos, amigos e até minha chefe! E isso com certeza foi definitivo (obrigada!) Todos estavam tão entusiasmados quanto eu rs. Então mesmo com toda demora para definição da escala, dos dias e todos os problemas possíveis… nada deu errado e lá estava eu, partindo de mala e cuia para o Rio. 
Como dizem por aí: Tudo vale a pena na realização de um sonho.
E como valeu! Foram 20 dias inesquecíveis.

Já na Cerimônia de Abertura mostramos a que viemos. Assisti a transmissão no Boulevard Olímpico e vi no telão, junto com uma multidão, o Brasil como sempre sonhamos ver: o Brasil que planeja, executa e encanta. O melhor do Brasil foi exibido para o mundo naquela cerimônia e eu não cabia de orgulho e emoção, explicando todos os detalhes para alguns voluntários estrangeiros que estavam conosco.

Vi a Marta no Maracanã

A primeira vez que pisei no Parque Olímpico fiquei sem ar. Mal podia acreditar no tamanho e na dimensão daquele evento, era muito melhor do que poderia imaginar: tudo era limpo, funcionava perfeitamente e o clima no ar era uma mistura de êxtase, satisfação e alegria. Esse clima se espalhava por toda cidade.

Nem os perrengues me fizeram desanimar. Apesar do cansaço, bolhas no pé, celular roubado, não podia deixar nada disso ser maior do que tudo aquilo que eu estava vivendo. Eu era uma gota d’água num oceano de pessoas determinadas a fazer aqueles jogos acontecer.

Amei conhecer o Rio de Janeiro, um pouco de suas belezas e peculiaridades, tive dois dias de folga e sei que tenho muito mais pra ver! Não vejo a hora de voltar para conhecer mais e mais. Parecia uma criança descobrindo um mundo novo.

Entardecer no Pão de Açúcar

Eu estava na Disneyworld dos Esportes

Quase todos os 20 dias que passei lá trabalhei na Arena do Futuro, na quadra, cuidando para que os jogos de handebol fossem perfeitos para os atletas e para os torcedores. E com muito orgulho posso dizer que tudo correu perfeitamente como tinha que ser.

Assisti mais de 60 jogos de handebol, conversei com atletas, juízes, dirigentes, treinadores, brasileiros de todos os cantos do país e pessoas do mundo todo. Ouvi a torcida gritar “Eu sou Angolano com muito orgulho, com muito amor”, vi o melhor do mundo, Hansen, da Dinamarca, em quadra provando porque merece esse título, vi um cubano pedindo para um presidente que ele tirasse uma foto dele, vi argentinos irritados com provocações brasileiras e brasileiros irritados com provocações alemãs, vibrei com as coreanas que se salvaram em um jogo impossível, chorei com as Norueguesas eliminadas, senti meu coração explodir ao ouvir o hino nacional segurando a bandeira do Brasil no protocolo antes do jogo. Vi o esporte que sempre amei ser jogado com perfeição.

Eu segurando a bandeira do Brasil antes do jogo durante o hino Nacional

Mas nada disso supera aquele que acredito foi o maior trunfo das Olimpíadas: as pessoas. Sempre sonhei com um mundo de união, gentileza e solidariedade que lá pude ver acontecendo, mesmo que por poucos dias. Me fez acreditar que podemos ter um mundo melhor e mais generoso.

A energia era mágica: pessoas dançavam, cantavam, andavam fantasiadas, eram prestativas e alegres. Algumas, mesmo após 16, 18 horas de trabalho, exaustos, estavam sorrindo e sendo solidários. A sensação de conquista, de estar fazendo acontecer, supria tudo. Fiz amigos e conheci pessoas que vou levar no meu coração para sempre.

Equipe de voluntários da Arena do Futuro

Tudo que é bom dura pouco e no fim, a sensação mista de tristeza (por ter acabado), saudades (de casa, do trabalho e da Olimpíada) e de dever cumprido foi indescritível. Chorei igual criança ao me despedir de toda equipe e da Arena onde meu sonho se realizou.

Queria muito poder estar na Paraolímpiada.. infelizmente a vida real não deixa rs Mas com certeza vou estar acompanhando tudo!

No Parque Olímpico

Ser voluntário é sobre doar sem esperar nada em troca e ganhei muito mais do que poderia imaginar. Hoje, ainda não consigo dimensionar, mas sei que essa experiência me transformou em uma pessoa diferente: agora tenho certeza que meu otimismo (que às vezes até incomoda as pessoas) não é em vão. Podemos e conseguimos fazer um mundo e um Brasil melhor porque temos aqui um monte de pessoas incríveis, dedicadas, solidárias, gentis e dispostas.

Além disso acredito mais e mais que sonhos são possíveis. Desejei por 20 anos estar na Olimpíada, viajar de avião, conhecer o Rio e consegui. O Brasil fez uma Olimpíada perfeita, mesmo com todos os problemas e más expectativas do mundo todo.

Na Vila Olimpica #eufui #eutava

Tudo é possível, basta acreditar, ir lá e realizar. 
Essas certezas são o meu legado Olímpico.