Quando o impossível acontece

Esse é o título do livro de Stanislav Grof com sub-titulo Aventuras em realidades não-ordinárias. A história real tem de fato um ingrediente extraordinário, mas é bem corriqueira, retratando nosso dia a dia em cidade grande.

Minha amiga Elsa comprou há alguns meses um carro novo, ou melhor semi-novo, e estava bem feliz por ser automático coisa e tal, pequeno, ideal para ir todos os dias ao trabalho, enfim um merecido bem para quem já fez quarenta anos e enfrenta engarrafamentos constantes. Há cerca de um mês, ela ficou afobada, preocupada e precisando resolver muitos assuntos burocráticos. Estava recebendo multas e mais multas. Uma multa na cidade dela em Campos (RJ), justo quando ela estava no Espírito Santo. Nem acreditei: clonaram a placa do carro dela! A gente ouve falar mas acha que não vai acontecer conosco. Clonam nossos cartões, já não é novidade…usamos cartões virtuais e SMS para prevenir, já é rotina.. Sim, minha cunhada Sara em Goiás, já comprou um carro clonado com chassi adulterado, um sufoco para desfazer o negócio..

Bom, a Elza olhou a multa na internet, um carro igualzinho, mesmo modelo, mesma cor! Aí ela começou a dar entrada para recorrer das multas, deu entrada em boletim de ocorrência, abriu inquérito. E as multas continuando a chegar, em lugares próximos a residência dela, mas que ela nunca dirigia lá. Mais recursos para as multas. Foi ao DETRAN, para fazer vistoria e confirmar que o carro dela era o dela mesmo..tudo certo. O que fazer agora? Nada, esperar para ver se acham o carro e enquanto isso, as multas podem chegar e ela deve fazer mais recursos… Frustrante, fato comprovado mas sem solução. Esperar.

Ontem avisei pelo WhatsApp meu filho Bernardo que mora em Torres, RS para tomar cuidado com as fraudes sobre cartões, telefonemas falsos de bancos estão acontecendo diariamente. Então ele me veio com a bombástica notícia de que a placa do carro dele havia sido clonada! Carro popular comprado zero há um ano em concessionária autorizada. Chegou notificação de uma multa, mas ele não estava em casa. Finalmente conseguiu a segunda via para pagar e qual não foi a surpresa: era uma moto!! E em Caxias do Sul, a muitos quilômetros de onde ele mora..

Bom a história não é do Bernardo, essa não terminou, e o desenrolar é o típico por enquanto. A história é a que Elsa me contou quando liguei para pedir uma orientação. Elsa me contou que depois dos trâmites todos, estava realmente esperando para ver o que ia acontecer, ou não. Enquanto isso, recebendo as multas e recorrendo..

Há duas semanas ela estava andando na cidade com o marido Marcos, quando fechou o sinal. E depois abriu. Os carros começaram a buzinar pois o segundo carro na frente deles estava parado, enguiçado. O carro logo à frente saiu e ela pode ver que o carro parado era igualzinho ao dela, ela olhou a placa e não acreditou, berrou para o marido, a placa era igualzinha a dela!!! O impossível acontece! E agora? O motorista encostou o carro enguiçado – e clonado - encima da calçada já que era uma rua movimentada. Ela ficou com medo de abordar o motorista. Marcos então resolveu ligar para 190 e chamar a polícia e explicou que tinham encontrado um carro idêntico ao de Elsa com a placa clonada, não iriam abordar o motorista antes da polícia chegar e ficaram rodando para observar a chegada da polícia.

Aos poucos começaram a ouvir os barulhos de sirenes da polícia. Depois de algum tempo, Marcos recebeu o telefonema de um policial dizendo que estavam no local e que a documentação do carro parado estava em ordem, pareceu que ele achou que era um trote. Marcos insistiu que eles também tinham a documentação em ordem e que o carro era igual e que eles então iriam ao local.

O local já estava uma confusão só com policiais e gente curiosa aglomerada. Elza, ficou com medo já queria desistir, mas agora tinham que ir em frente, afinal tirar a limpo o que estava acontecendo. Marcos, muito diplomatica e educadamente, explicou ao policial e ao motorista a situação das multas e da legalidade do carro de Elza. Pediu desculpas, mas eles queriam resolver a situação pois Elza acabaria perdendo a carteira com tantas multas. O motorista garantia que ele havia comprado o carro e que ele era policial. A certa altura admitiu que estava afastado da polícia e estava armado sem autorização e que uma eventual ocorrência poderia ser prejudicial para ele. Ele prometia abandonar o carro para ser achado pela policia e resolveria assim a situação do carro de Elza. Muito cuidadosamente Marcos tentava continuar sendo educado e diplomático e o casal chegou a pensar em aceitar a proposta com medo de retaliações.

Em certo momento o policial encarregado da ação recebeu um telefonema pedindo para não deixar ninguém sair do local pois o Capitão responsável estaria chegando ao local.

Com a chegada do Capitão a situação foi mais uma vez explicada e este solicitou que todos fossem a delegacia. O motorista-policial não queria entrar na viatura da polícia e foi ameaçado de ser algemado. Os policiais que estavam presentes no início da ação davam graças a Deus por não terem aceito a proposta do motorista-policial, mas de alguma forma conseguiram esconder a arma desse.

A essa altura vários carros da polícia saíram juntos e Elza e Marcos saíram mais atrás em direção a uma Delegacia especializada. Ao chegarem lá fizeram os depoimentos. Foram perguntados como o motorista havia reagido ao saber da clonagem. O casal disse inocentemente que sim ele teria se surpreendido, procuraram ser o mais gentil possível.

Elza e Marcos foram liberados mas o motorista-policial permaneceu preso, sabe-se lá porquê.

Elza ficou aterrorizada por mais de uma semana, não saia com seu carro, ia trabalhar de Uber.

Cerca de duas semanas depois, eles leram num jornal popular que uma quadrilha de assaltantes e falsificadores de documentos havia sido desarticulada e membros presos. Embora o nome do motorista-policial não tenha sido mencionado, a delegacia envolvida na desarticulação era a mesma que eles haviam ido resolver o caso da clonagem…

Klara Fernandes, baseada no depoimento de Elza.

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