
Copan: onde o arquiteto e a metrópole vivem sob um mesmo teto
Publicado originalmente no blog do M:SP, em dezembro de 2012, após a morte do arquiteto Oscar Niemeyer em 5 de dezembro.
A Praça dos 3 Poderes dos paulistanos é o Copan. A Igreja da Pampulha de Sampa é o Copan. O nosso museu em forma de disco voador é o Copan. Oscar Niemeyer deixou em São Paulo o seu traço em diversos prédios, como o do Pavilhão da Bienal, o da Oca e o do Auditório do Ibirapuera, mas é no Copan que São Paulo pode se ver representada por Niemeyer. Está tudo lá: a grandiosidade, a diversidade, a decadência.
Projetado na década de 50 para funcionar como um conjunto residencial e um hotel com 600 apartamentos, o edifício transformou-se num ícone da cidade. É o morro do Pão de Açúcar dos postais turísticos de São Paulo. Um pop-up que salta aos nossos olhos para lembrar o clichê que nos persegue: vivemos numa “selva de pedra”. Nada mais justo para uma cidade que adotou o cinza e o concreto como suas marcas.
É tão Niemeyer que poderia estar em Brasília, com suas linhas sinuosas, o concreto armado e a escala monumental
O Copan é a metrópole e o arquiteto ao mesmo tempo. É tão Niemeyer que poderia estar em Brasília, com suas linhas sinuosas, o concreto armado e a escala monumental. Seu autor só é uma unanimidade positiva nos obituários dos jornais e revistas desta semana, mas as críticas a ele não foram poucas. Priorizou o cimento, a estética modernista e a originalidade no seu trabalho em detrimento da natureza, do conforto e da funcionalidade. Segundo seus críticos, ele não fazia casas e nem palácios para se morar, mas apenas para serem admirados como esculturas. Ele mesmo afirmava que você pode não gostar das suas obras mas nunca verá nada parecido com elas.
Niemeyer parece que não gostou muito do Copan — entregou sua execução ao diretor do seu escritório à época, Carlos Lemos — mas nunca veremos um edifício como esse. É o maior edifício residencial da América Latina, único no Brasil a ter um CEP próprio, possui 1.160 apartamentos, 2.038 moradores, 72 lojas, uma igreja evangélica, uma novíssima galeria de arte, alguns restaurantes — sendo um deles com chef estrelado. Existe algo mais São Paulo do que tudo isso reunido? Justamente uma obra desenhada por quem já teve rusgas com colegas locais e projetos rejeitados pelos políticos por não ser daqui.

Assim como o arquiteto carioca e a capital paulistana, o Copan também não é uma unanimidade. Seu conceito foi inspirado no Rockefeller Center, de Nova York, que misturava residências, escritórios e uma área de lazer. Acabou virando um cortiço vertical, como chegou a ser chamado no final dos anos 70, e vivia das suas histórias, do seu folclore e das suas estatísticas superlativas, mas de importância duvidosa.
Como em São Paulo sempre houve público e gosto para tudo, tem quem admire e cultue as “ondas” da sua fachada e, ao mesmo tempo, o seu interior decadente, habitado por jovens estilistas, travestis, fotógrafos, jornalistas, manicures, arquitetos, designers, garotas de programa, boêmios, escritores, modelos, artistas plásticos e aposentados. Gente que aproveitou cedo a chance de morar num monumento a preço de pré-moldado.
Graças a esses sobreviventes, estetas ou malucos, o Copan manteve a sua mística. Hoje, conseguir achar um apartamento lá pra morar já não é tão fácil, barato e transgressor. Um quitinete de uns 40 m2 pode custar mais de R$ 1.000,00 o aluguel. Até nessa supervalorização dos imóveis, o Copan mimetiza a cidade. Isso só confirma o óbvio. Não se trata apenas de um prédio com 35 andares e 115 metros de altura, mas de uma maquete viva de São Paulo assinada por um arquiteto que você nunca verá igual.
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