Fragmento da capa do livro "Michelangelo, uma vida épica", de Martin Gayford, editado pela Cosac Naify

Mea maxima culpa

Tudo assusta hoje no país, mas o que mais me impressiona é a incapacidade que temos de fazer um diagnóstico preciso, isento e, acima de tudo, lógico.

Não me preocupo tanto com a posição de alguns, mas com a falta de sentido nos argumentos. Tenho a sensação de que levamos às últimas consequências o uso dos oxímoros, dos paradoxos, do autoengano, da “contradição em termos” (ou “nos termos”, como preferem os linguistas).

Esta semana dei de cara com esse video do Charles Cosac, um dos donos da editora mais admirável do país. Aquela que acabou no ano passado para tristeza de muita gente.

A história da Cosac Naify é, para mim, a representação do Brasil neste século. A sua excelência combinava com a ideia de uma nação ascendente, tal qual um Cristo Redentor decolando na capa da The Economist. A manutenção da editora por 19 anos e o seu fim melancólico no ano passado coincidem com a nossa cronologia recente (por favor, não sejamos literais nas contas, ok?).

A ilusão até que durou muito tempo, mas era insustentável. Os motivos e culpados eu não sei apontar, mas preste atenção no video e nas justificativas de Cosac. Ele nos conta como a editora era tocada de forma artesanal — considerando-se o que isso tem de bom e de ruim.

"A manutenção da editora por 19 anos e o seu fim melancólico no ano passado coincidem com a nossa cronologia recente"

A Cosac Naify era o espelho do seu dono, um esteta que assume a proscratinação, o desinteresse pela vida concreta e pelas coisas aborrecidas que somos obrigados a administrar. "A riqueza me infantiliza", explica ele na entrevista a revista Piauí de abril, após ser apresentado como herdeiro de uma família que enriqueceu com a mineração.

Não espero coerência de uma pessoa que acaba de sofrer um tremendo baque, nem ignoro que se trata de um video editado. Mas, num determinado momento, Cosac diz que a culpa é dos leitores que não tinham interesse e não compravam os seus livros. Se não fosse por isso a editora teria sobrevivido, segundo a sua avaliação.

"A minha sensação hoje é de que estamos perdidos porque não conseguimos mais fazer uma análise sóbria e uma autocrítica sincera"

Acho curioso que ele se coloque como vítima e busque um culpado externo, enquanto revela a pouca preocupação que tinham com o custo das obras, o longo tempo que levavam para elaborar uma única capa, o prejuízo que os seus livros davam pela falta de cálculos objetivos e a perda de autores importantes, que ficaram fora do seu catálogo por puro descuido.

Não acho que ele esteja sendo desonesto. Penso que ele acredita nas duas coisas: nos seus erros e no nosso desleixo como consumidores, que “deixamos a editora chegar ao fim”. Claro que essa parte do diagnóstico é equivocada e imatura. Só fico preocupado que diagnósticos assim partam de pessoas que admiro.

No final do ano passado encontrei o Charles Cosac sentado numa mesa da pizzaria que eu frequento com a minha mulher. Pedi pra ela ir lá e dizer a ele que o acontecimento mais lamentável — entre tantos ocorridos em 2015 — foi a notícia sobre a Cosac Naify. Ele foi gentil e agradeceu a nossa solidariedade. Também fiquei triste ao vê-lo numa entrevista em que ele chorava ao concluir que o seu legado "é o amor pelo Brasil".

Nem tínhamos uma ideia clara do que estava para acontecer este ano com o país, mas a minha sensação hoje é de que estamos perdidos porque não conseguimos mais fazer uma análise sóbria e uma autocrítica sincera. Fico perturbado ao perceber que para muita gente, não importam os fatos, o culpado será sempre o outro.

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