Todorov, Greenblatt e a conquista da América

Kleber Souza
Nov 6 · 8 min read

Quando falamos em achamento da América o primeiro nome que vem à cabeça é o de Cristóvão Colombo, figura construída na literatura como o herói genovês que desbravou os mares em nome da Coroa em busca de uma nova rota para as Índias. Sendo assim podemos dissertar mais sobre essa viagem a partir das leituras de Tzvetan Todorov, Thereza Baumann e Stephen Greenblatt, autores que em suas obras colocam as atitudes e os relatos de Colombo em cheque e demonstram seus paradoxos e hipocrisias durante a conquista da América e sua relação com o imaginário da época em que vivia, fosse ele um produto de seu tempo ou apenas utilizado nos relatos para agradar os leitores da literatura de viagem. —

Segundo Tzvetan as cartas de Colombo podem sugerir que Colombo estava em busca de riqueza e ouro, mas o principal motivo de sua jornada era fortalecer a fé cristã, que precisava manter suas cruzadas vivas e salvar Jerusalém dos mouros. Dessa forma podemos perceber que a verdadeira intenção de Colombo nessa viagem era buscar novos cristãos para que, além de aumentar os números de fiéis e assim conseguir um bom olhar no juízo final buscar também recurso financeiro como ouro ou prata para continuar suas guerras de religião.

Diferentemente do pensamento comum da época Colombo recusava em sua narrativa aceitar qualquer fator que pudesse o contrariar em suas convicções e mantinha-se sempre confiante mesmo antes de experienciar o novo, o conquistador usa das palavras não apenas para justificar sua conquista, mas também para aumentar seu mérito quando retornasse ao velho continente. Em sua retórica Colombo, ao falar da natureza do novo mundo, possuía três olhares diferentes, o primeiro deles era um olhar eficaz e lógico quando se tratava de navegação, o segundo era a interpretação de que toda nova forma era um sinal divino que confirmava suas expectativas ou seja um olhar baseado em crença nas escrituras e o último é o olhar de negação da realidade, da rejeição em aceitar o outro e trata-lo de acordo com o imaginário Europeu bestializado. Para Thereza Baumann essa atitude pode ser lida como:

“Para o conquistador, a existência do indígena só é possível a partir de um tempo mítico situado no “maravilhoso” que pode ser definido como o Paraíso Terreal ou como o retorno à Idade do Ouro. Dessa maneira, o encontro entre os dois nos coloca em uma situação em que os limites são os limites da imaginação do conquistador.”

A partir desse trecho é possível debater outro ponto presente não apenas na obra de Todorov, mas também na de Greenblatt que é a crítica feita em torno da nomeação do novo mundo. Pouco se buscava saber sobre a hierarquia indígena e seus signos, o que faziam tratar as novas terras de acordo com a cultura espanhola e o pensamento cristão, verifica-se esse fato na atitude de Colombo iniciar a nomeação dos achamentos assim como foi feito no paraíso cristão por Adão e Eva. É possível assim notar o autoritarismo em relação à linguagem por parte não de Colombo, mas da cultura europeia se imaginava que a distinção feita pelos signos europeus era o estado natural das coisas e não uma convenção da sociedade.

Colombo possui duas faces quando se trata da linguagem, a primeira delas é aceitar o fato de que é um novo idioma e ao mesmo tempo recusar sua diferença em relação à língua vernácula e a segunda face é negar que se trata de uma língua que possui signos e cultura próprias. Pela interpretação das palavras que Colombo retrata na América os homens não possuem um local reservado e ficam sobrepostos pela terra e as riquezas que podem ser encontradas, dessa forma podem ser facilmente descartáveis em favor de seus objetivos anteriores.

Ao falar dos homens em seus relatos o dominador de forma alguma dá a eles preferência ou qualquer distinção, são citados em alguns trechos juntamente da natureza do Novo Mundo. Em suas palavras uma das mais encontradas é “maravilloso”, que em espanhol significa algo que não é possível explicar pelas leis naturais, ou seja, bestializado, e assim é possível perceber como o imaginário da época influenciava na percepção e na escrita dos conquistadores. Em um momento que a Espanha iniciava o processo de se tornar a maior nação cristã da Europa a visão cristã estava presente em todos os momentos, quando encontraram os indígenas sem roupas logo trataram de negar a igualdade em relação a estes, visto que as roupas, para os cristãos, começaram a ser utilizadas a partir do momento em que Adão e Eva foram expulsos do paraíso após cometerem o pecado inicial.

Mais um ponto importante da conquista é dissertar sobre a forma como ela ocorreu, em primeiro lugar é necessário entender que a lei medieval de conquista de terras era de acordo com achamento, como é postulado por Greenblatt: “De acordo com os conceitos medievais de lei natural, territórios desabitados tornam-se possessão de quem primeiro os descobre.” É necessário destacar ainda que caso o território seja habitado a posse torna-se anulada caso haja contestação, detalhe importante na análise visto que, nos relatos de Colombo o mesmo deixa claro que: “…os nativos não me contradisseram” e ainda, anteriormente: “…não fui contradito” Essa suposta não negação dos indígenas ao conquistador se deve simplesmente ao fato de que eles foram ignorados, Colombo não entendia sua língua e a recíproca era verdadeira mas, os prejuízos foram só de um lado a partir do momento que ao negar a língua e a identidade indígena o Europeu não apenas desumanizou mas também animalizou os nativos. Greenblatt ainda continua:

“Poderíamos dizer que o formalismo de colombo tenta tornar as novas terras desabitadas pelo esvaziamento da categoria do outro. O outro existe apenas como um sinal vazio, um zero. Daí, não pode haver contradição à proclamação da parte de ninguém das ilhas, porque somente a competência linguística, a habilidade de entender e falar, possibilitaria alguém a preencher o sinal.”

A partir desse parágrafo de Stephen podemos entender a relação que colombo possuía com os signos e sua instrumentalização deles em seu favor. Ainda que não seja possível negar o fato de uma iniciativa cristã na conquista, mesmo com os diversos paradoxos criados entre as atitudes e as escrituras, fica evidente a situação de “ironia” em relação ao que era feito, Colombo falava em escravizar os indígenas para que eles se libertassem aderindo a fé cristã, também defendia que trocar o ouro por quinquilharias era uma atitude que levaria a um bem maior, de toda forma é possível imputar que os indígenas deveriam perder tudo o que tinham para assim ganhar tudo — neste caso “tudo” está em relação à fé cristã que Cristóvão buscava empreender na colônia — . Colombo ainda justificava suas atitudes entendendo que as novas terras eram um presente de deus pela expulsão dos mouros da península ibérica, era em nome de deus que fazia as barbaridades e ainda pelo nome de deus que recebeu o direito de cometê-las. Para Todorov, Colombo descobriu a américa, mas não os americanos.

Stephen Greenblatt ainda disserta o conceito de imperialismo cristão, que ocorreu nas américas durante o período colonizador, baseado em conversão forçada dos indígenas para a religião cristã. Esse conceito, apesar de não ter sido utilizado pelos europeus da época fica evidente em suas ações e ainda mais quando são observados os constantes paradoxos- que fazem parte da retórica cristã- em relação as escrituras e suas atitudes. Para exemplificar a questão paradoxal Greenblatt utiliza um poema da Renascença inglesa de John Donne:

“Que eu possa me levantar e ficar de pé, ou jogar-me por terra e dobrar

Tua força, para quebrar-me, apagar-me, queimar-me e fazer-me novo…

Toma-me para ti, aprisiona-me, porque eu,

A menos que me escravizes, jamais serei livre,

Nem jamais serei casto, a menos que me possuas.”

Estes versos demonstram diversas atitudes paradoxais dos conquistadores na américa, tendo como primeira observação a escravidão, que era justificada como liberdade para os indígenas que praticavam o canibalismo e eram considerados maus. Já, em segundo lugar, temos a conversão forçada dos nativos. Fala-se em esquecer quem são eles (os nativos) e renascer (arquétipo de cristo) na nova religião salvando-se dos pecados. É defendido que os americanos sejam escravizados para serem libertados de sua própria bestialidade, assim mais uma vez tratando-os de forma animalesca e negativa.

De forma como foi postulado anteriormente, os Europeus e principalmente os espanhóis, a quem Colombo representava a coroa, estavam inflamados com as novas conquistas e possivelmente ocorreu adulteração nos documentos de acordo com a intenção do discurso que fosse do interesse deles produzir. A exemplo disso temos Cortez que prendeu Montezuma assim que chegou ao México e executou-o iniciando uma guerra feroz que foi vencida pelos espanhóis utilizando-se de conflitos internos para fortalecer seu lado. Cortez ainda utilizava de uma atitude que aparece em “O príncipe” de Nicolau Maquiavel que é de apagar a memória dos povos conquistados para que não se rebelem no futuro. Para exemplificar é possível citar a imposição de um novo ciclo de tempo interrompendo aquele já existente na mentalidade do povo nativo, dificultando as noções e aos poucos apagando a cultura material e imaterial da população. O fato de apagar a memória do povo conquistado se assemelha com o método asteca que faz o mesmo se apegando na religiosidade, assim como os cristãos que justificam as atitudes abraçados às escrituras. Outra visão maquiavélica presente na atitude de Cortez é usar da religiosidade nativa para justificar-se no poder, ele utilizava do mito da volta de Quetzalcoatl para pacificar os conquistados em torno de seu comando, o que demonstra uma atitude não religiosa, mas política abraçada à religião.

Um importante ponto a ser destacado e que já foi tratado anteriormente é sobre o imaginário coletivo da sociedade que foi ainda mais retratado nos relatos de Colombo, que utiliza do maravilhoso ao mesmo tempo que para acariciar a leitura de seus diários de navegação e ao mesmo tempo para justificar a violência e abusos cometidos na conquista daquele povo citando o irreal e imaginário coletivo da época como ciclopes e canibais. Descrevendo inclusive em sua primeira carta que em Cuba foram encontrados índios com caudas. Falava também sobre sereias na região costeira do Haiti e criticava os ícones nativos como se tivessem uma aparência não humana. Dessa forma as intenções de Colombo de assombrar os europeus em seus escritos para justificar sua reivindicação e não dar espaço a pensarem que se foi finalmente alcançado o reino perdido de ouro dos cristãos ficam evidentes.

Após os debates propostos pelos três autores em suas obras, nota-se que não existem muitas diferenças em relação à leitura feita por eles que relatam com propriedade o momento da conquista espanhola das américas, com uma perspectiva excelente em relação à historicidade e crítica em alguns momentos. Todorov possui uma análise de alto nível em relação aos signos não apenas em relação ao conquistador mas também ao conquistado e abrange também relações religiosas mas todas ligadas aos signos. Baumann narra uma perspectiva sobre a religião no velho continente e a visão do imaginário coletivo europeu da época. Já Greenblatt faz uma grande analise do cristianismo e seus usos durante a conquista utilizando-se de citações de um poema inglês que ficou conhecido por relatar os paradoxos cristãos.

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