Ampulheta

O tempo, este escorreu
Pelo gargalo, e o dedo meu
Então assim, a noite culmina pro fim
Fim da noite, e de nós, eis o estopim

Ali me vi, nos braços de Morpheus
E o que te deu, quem sabe? Nem Deus
De ritmo bom à descompasso ruim
Eu mogno, tu marfim

Meus olhos, um mar egeu
Teu rosto, filme europeu
Rompeu-se assim
Aquele velho nó, atado em mim

Partiste enfim
Pelos confins
Longes tu, cá eu
Minha ruína, teu apogeu

Do teu disparo de festim
Escorreu sim, de mim, este sangue carmesim
As areias que eram tu
Agora, despejadas em mim

Quebrou-se o vidro, rompeu, cedeu
Catei os cacos, rasgou, doeu
E aí que eu vi, não tinha cura
Essa ferida, só a areia da ampulheta sutura.