As Rosas Não Falam, os Museus Sim

Já era noite escura na Quinta da Boa Vista quando as chamas mancharam o breu do céu. Não muito depois, as nuvens de vapor e pó tomaram conta do horizonte como um clarão apocalíptico. Dessa vez, era o Museu Nacional.
Ironicamente simbólica, uma piada de mau gosto foi a tragédia de ontem. Temer lamenta, desavergonhado e inutilmente — lágrima de crocodilo não apaga fogo nenhum. Os números, ao contrário dos tiranos, não mentem — - o orçamento para a conservação do Museu Nacional despencou de 530 mil em 2013 para 54 mil em 2018.
O Brasil fica cada vez mais velho e, ironicamente, parece que tem cada vez menos história. É cada vez menos memória nos corredores dos museus, mas também nos corredores da cabeça do povo. Ora, veja bem. O governo fascista queima livros. O governo neoliberal deixa que eles peguem fogo. Deixa a instituição científica mais antiga do país a mercê de fios desencapados. Há mais de um jeito de queimar um livro, já dizia Ray Bradbury, e a austeridade é um fósforo aceso. Apontar isso não é oportunismo, é emergente. Entender as relações causais entre políticas de desenvestimento e a ruína — entre os acidentes, entre o despreparo. Por deus, até água faltou!
Nessas horas, o consolo vem na cantoria de desolação compartilhada da Cartola. Ele me canta que as rosas não falam. Lamento por elas, até pensar que talvez assim estejam seguras. Rosas não falam, mas museus sim. Museus falam muito. Museus gritam. Cultura é assim, boca grande. Tá sempre repetindo coisas que muita gente não quer ouvir. E acaba calada.
O som segue rolando e agora é hora de lembrar que, assim como o incêndio, muitas tragédias são anunciadas, fazer o quê? O mundo é um moinho. Um moinho em chamas, por vezes, controlado pelos mesquinhos e reduzindo a pó muito mais que apenas ilusões, mas também vidas e futuros. Mas preste atenção, querida. Não chore agora, quando apoias um Estado cada vez mais mínimo e uma ilusão cada vez mais máxima. Afinal, nisso aí, também cabem as palavras de Cartola: “quando notares estás a beira do abismo, abismo que cavaste com teus pés”.