Creusa

Ela partiu de uma ilha do Piauí para o Rio de Janeiro com onze anos. Sempre achou que a vida na ilha não era para ela. Trabalhou como empregada doméstica por anos e sempre teve a ambição de ter uma vida melhor do que as pessoas tinham na ilha. Seu futuro sempre foi maior.

No Rio de Janeiro se apaixonou, foi a praia, pulou carnaval, construiu um negócio com o amor de sua vida, ou pelo menos ela achava que era, teve seu primeiro filho e percebeu que seu amor não aguentaria muito mais. Quando engravidou da sua segunda filha, ela não queria, mas como não teve escolha partiu com os dois em suas asas para longe da confusão que era seu marido. Formou-se em técnica de enfermagem, comprou sua casa própria e quer cursar ensino superior.

Mamãe nunca me contou detalhadamente como se sentiu nesse processo todo, gosta de guardar as coisas que nem meu irmão, mas eu consigo desenterrar da memória o quanto ela sofreu. Às vezes, acho que herdei da mamãe, a garra. Outras, acho que não herdei nada, que sou um caso perdido.

Sempre a admirei. Sua habilidade de lidar com as pessoas, decifra-las, sua paciência, cuidado e solidariedade sempre me impressionam. Consegue lidar com o caos naturalmente.

Quando criança, eu queria comer tudo que ela comia, até cebola crua, porque eu queria ser que nem mamãe quando crescesse, sempre!

Dizem que sempre amei muito meu pai desde pequena, mas duvido que o tenha amado mais que ela. Porque nela eu via uma coragem, uma ousadia, que nunca enxerguei em papai.

Ela cunhou os melhores cheiros no cangote que eu já recebi nessa vida. Durante as terríveis manhãs que precediam minhas aulas na escola, eu despertava com um café com leite e com cheiros quentinhos. Depois que me vestia ela colocava meias limpinhas e branquinhas e amarrava meu tênis.

Eu sempre sonhei muito, desde terna idade, e muitas vezes ficava impressionada com os sonhos, mas sempre tinha mamis para deitar do meu lado, mesmo depois de um dia cansativo de trabalho, e me contar histórias e lendas da sua ilha natal.

Implorava durante a noite para ela contar mais uma história sobre “o morro que geme”. Dizem que um casal se amava secretamente naquelas dunas e que um dia dormiram e, embalados pela paixão, foram soterrados por areia e até hoje é possível ouvir seus gemidos. Visitei o lugar aos cinco e quinze anos e geme mesmo!

Meus amigos dizem que eu conto coisas demais para ela, mas não é para isso que servem as melhores amigas?

Raramente ela concorda comigo, mas sempre apoia minhas decisões, ainda que seja contra o que acredita. Respeita e tenta entender minhas posições.

Mamis me inspira todos os dias a ser uma pessoa melhor e mostra que o mundo é mais do que acreditamos. É a minha melhor amiga, mãe e mulher do mundo.