
O morro gemedor
Mamãe dizia que na Ilha onde morava tinham muitas dunas. Com o tempo e vento era impossível encontrar uma igual. A areia assentava num morro e logo voava para formar outro.
Exceto um. Porque era encantado. Sua voz mudava o timbre deixando um mistério no ar. Enquanto eu arregalava os olhos na minha beliche. Depois de uma longa pausa pedia para fecha-los ou não terminaria de contar. Relutante, cerrava as pálpebras para imaginar os montes de areia que tinham perto da casa do vovô.
Há muito tempo em Ilha Grande um pescador vendia peixe para um fazendeiro riquíssimo. Toda manhã o rapaz passava oferecendo seus frutos do mar frescos.
A única filha do latifundiário adorava os peixes e mariscos recém pescados. O encontro matinal iluminava seus dias solitários no casarão. O cheiro do mar inundava sua cozinha enquanto as histórias sobre o Rio e o Delta do Parnaíba eram contadas pelo pescador. Em outros alvoreceres eram os dias na tribo do rapaz que a encantavam.
A moça observava a pele avermelhada, os cabelos escuros que caiam como uma cortina na testa, as pinturas em vermelho e preto na extensão dos braços e pernas másculos. Seus olhares tímidos se cruzavam e brilhavam.
Numa manhã seu pai percebeu. Os olhos gritavam de paixão. Ele não podia permitir que isso acontecesse. Determinou, então, que ele mesmo compraria os frutos do mar e baniu a entrada de pescadores em suas terras.
Os jovens já apaixonados planejaram um encontro. Quando a lua cheia iluminasse a noite escura permitindo que caminhassem para longe da fazenda eles se veriam. E assim o fizeram.
Numa dessas noites ela decidiu que fugiria para a sua tribo. Na próxima lua cheia, ele disse .
Na noite seguinte o índio conversou com sua tribo. Explicou seu amor pela mulher branca. Seus irmãos, todavia, não aceitaram. Era proibido pelos deuses das terras amar quem as destruía. Os brancos eram os destruidores e não eram bem vindos.
Iluminados pelo luar os apaixonados se deitam nas areias geladas. Olham para as estrelas e choram juntos, pois nunca poderão viver seu o amor. Adormeceram com as bochechas úmidas de lágrimas.
Os ventos carregavam areia de uma duna para outra e formavam novas. Os dois, sentiam seus corpos afundando, encobertos, mas nada faziam. Pelo menos assim poderiam se amar, para sempre.
O morro gemedor é o único da Ilha Grande que não se move. É possível encontra-lo por seu tamanho e suas areias mais alvas que as demais.Quando se passeia por lá é possível ouvir um gemido, no sopé onde o casal adormeceu. É uníssono de um casal apaixonado.
Mamãe me beijava e dizia: “Boa noite, filha, dorme com deus.”
**Eu já fui duas vezes no morro gemedor, quando tinha cinco e quinze anos. O som do gemido existe.
