Lama de memória
Após oito meses do maior desastre socioambiental do país, moradores da pacata zona rural de Bento Rodrigues se misturam entre uma nova rotina, preconceitos e o desejo de voltar para aquilo que já não existe mais

O barro é pesado, com um odor estranho e uma aparência marrom brilhante muito diferente da textura que estamos acostumados a ver quando misturamos apenas terra e água. Uma substância que parece que gruda no corpo e não há esponja vegetal que limpe e tire tudo em apenas um banho, ou quem sabe até em várias lavadas. Essas foram as principais impressões ao pisar em Bento Rodrigues, distrito que fica a 35 km de Mariana, em Minas Gerais, após seis meses do rompimento da barragem do Fundão, da Mineradora Samarco.
No dia 5 de novembro de 2015, a onda de lama devastou todo o distrito construído no século 18 em apenas alguns minutos. O desastre matou 19 pessoas e deixou 1 desaparecido. Além de contaminar o rio Doce até a sua foz, no Estado do Espírito Santo. Uma pesquisa realizada pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) informa que o mar e os animais marinhos no litoral do Espírito Santos estão contaminados por metais pesados como arsênio, chumbo e cádmio.

O episódio é considerado o maior desastre socioambiental brasileiro, a barragem que atingiu 41 regiões apresentava cerca de 50 milhões de metros cúbicos com excrementos vindos da Samarco Mineração, mineradora fundada em 1977 e que é controlada pela brasileira Vale S.A e a anglo-australiana BHB Billiton.
Vida
Ao entrar em Bento Rodrigues é visível notar que o tsunami de lama levou tudo que existia nessas terras. Ao andar pelo subdistrito, que chegou a abrigar 600 pessoas, é possível encontrar pedaços de carros, casas, brinquedos e lembranças presas nos dejetos de lama. A lousa da única escola da comunidade ainda mostra recados para os alunos. Vez ou outra, o silêncio da região abandonada é quebrado com os zumbidos dos insetos que rodeiam cada passo dado no lamaral. No chão, panelas, retratos e roupas penduradas perto da pia do banheiro mostram que ninguém saiu prevenido, tudo foi deixado para trás.
Logo após o desastre, os moradores da pacata vila foram levados para morar em Mariana (MG). A expectativa era reconstruir a vida que a lama levou. Porém, o cenário encontrado foi bem diferente. A funcionária pública Dona Maria Quintão relembra o dia que estava na fila do banco e escutou uma senhora criticando as famílias vindas de Bento Rodrigues. O mesmo ocorreu com a vendedora Antónia Xisto.
As duas relatam que escutaram pessoas dizendo que “essas famílias são as culpadas pelo fim da Samarco”. A aparente raiva sem sentido vem de um contexto economico de um município que nasceu dependente de uma insituição, segundo o vereador Tenente de Freitas, presidente da Câmara de Mariana, a mineradora Samarco representava 90% da economia da cidade.

Com a crise econômica no país, a queda do preço do minério de ferro e após o desastre com a barragem do fundão, calcula-se que a arrecadação financeira de Mariana atingiu uma queda de R$ 4 milhões. Segundo a prefeitura da cidade, além da baixa de 20% do orçamento municipal, há um enfraquecimento na economia provocado pela incerteza de empregos na cidade. A Samarco gerava mais de 700 vagas diretas e outros 2.000 indiretos.
A auxiliar de odontologia, Mônica Santos, explica que chegou a retrucar uma coluna de opinião do jornal regional Ponto Final, no qual um morador escreveu livremente que as vítimas do desastre são “aproveitadoras” e que estão querendo “levar vantagem” com o dinheiro da Samarco, pois as casas em que estão morando atualmente são melhores do que as de antes. Ao ler a matéria, publicada na edição de janeiro deste ano, Mônica se sentiu no direito de resposta e disse: “Não somos mendigos pedintes e nem desonestos, somos pessoas que vivíamos em uma comunidade, trabalhamos para conquistar nossas coisas, éramos pobres, humildes, vivíamos em casas simples com pouca mobília, mas era tudo construído com muito sacrifício, com anos e anos de luta. Cada coisa nova que a gente tinha era uma vitória. Gostaria que, antes de nos julgar, se colocasse por um momento em nosso lugar. Imagine ter que sair da casa onde passou toda a sua vida e ter menos de 10 minutos para fugir da morte sem ter como e nem tempo para pegar suas economias da vida inteira, fotos de parentes, a roupa de que mais gostava, seu cachorro, seu passarinho na gaiola. Pense no nosso desespero. Nenhum dinheiro do mundo paga o que passamos, o que perdemos”.
Desde que tiveram que migrar para Mariana, as famílias de atingidos estão sendo assistidos por equipes de profissionais da mineradora Samarco. Cartões de benefícios, doações, aluguéis, médicos e até quantias de cerca de R$ 20 mil para alguns já foram disponibilizados. A promessa de um novo Bento Rodrigues também vem se concretizando, segundo a mineradora em maio deve-se decidir qual lugar será a nova Bento. Porém, o que é reconstruído nunca é igual ao original mesmo que o nome seja o mesmo. Pois, junto da lama, não se foram só casas, se foram memórias, e isso é notável em cada palavra que se troca com os moradores de Bento Rodrigues. “Eu perdi meu pai quando tinha sete anos. A única forma de eu lembrar dele era pelas fotos que a gente tinha. Quem vai me dar isso agora? ”, diz Mônica, filha de dona Maria Quintão, as duas nasceram e cresceram em Bento, ou como elas costumam chamar de forma carinhosa “Nosso Bento”.
Em meio a uma roda de amigos em frente a Câmara Municipal de Mariana está José Zeferino. Tonico, como prefere ser chamado, trabalhava com plantação e atualmente, em Mariana, encontra-se desempregado, pois segundo ele mesmo explica “esse lugar não dá roça”. Seu José descreve como era a antiga casa dele, cercada de árvores cheias de frutas e pequenos animais. Para ele, um dos grandes absurdos em ter que morar em uma cidade maior é ter que sair de casa e comprar limões, algo que antes ele tirava do próprio quintal. As pessoas não repartem os alimentos mesmo sabendo que você precisa, os vizinhos são desconhecidos e a casa já não tem o mesmo cheiro de antes, relembra Tonico.
Além da ponte
O desenho de Ana Clara, que levanta os três pequenos dedos ao perguntar a sua idade, ilustra uma casa sendo invadida por lama. Ana estava com a mãe Edivânia de Oliveira, o pai José Eduardo Filho e as duas irmãs quando os dejetos de minério começaram a entrar pela sua casa na madrugada do dia 6 de novembro. A maioria dos moradores de Barra Longa, há 60 km de Mariana, preferiram não dormir no dia do desastre, mesmo recebendo informações de que dificilmente a lama iria chegar no local. A informação estava errada. Por volta das 2h da madrugada já se escutava fortes barulhos de animais correndo, árvores sendo quebradas e um cheiro diferente do normal. A lama atravessou, quebrou pontes, invadiu casas e deixou Barra Longa com outros ares.

“Parecia que estavam moendo algo bem grande, era muito barulho, dava para escutar a lama descendo, quebrando os pés das frutas, tudo”, conta Edivânia ao relembrar a madrugada da tragédia. Enquanto a comerciante conversa, a pequena Ana Clara trança seus cabelos. A comerciante desabafa que ainda não entende por que ninguém avisou que a lama chegaria até a cidade. Já o marido, “seu” José, questiona por qual motivo a empresa não se responsabilizou por um monitoramento da lama para avisar as populações que poderiam ser afetadas. “Deviam ter colocado um helicóptero para supervisionar. A queda da barragem foi às 16h30 e até às 22h ainda não tinha chegado nada aqui. Foi tudo devagar, por isso achei que foi um erro da empresa não comunicar direito. Poderiam ter avisado para sairmos da parte baixa da cidade, para tirarmos nossas coisas”, diz José Eduardo.
Um laudo técnico elaborado a pedido do Ministério Público de Minas Gerais , em 2013, alertou sobre os riscos de rompimento da barragem do Fundão, em Mariana. A mineradora explica que a última fiscalização ocorreu em julho de 2015 e indicou que as barragens se encontravam em totais condições de segurança. Em nota, a Samarco explica que inspeções próprias, conforme Lei Federal de Segurança de Barragens, também eram realizadas com uma equipe de operação em turno de 24 horas para manutenção e identificação de forma imediata para qualquer anormalidade.
Renascendo da lama
Em questão de segundos, o tempo de esperar o filho colocar uma roupa depois do banho interrompido, Sônia relembra o momento que viu sua casa ser engolida por litros de lama. O muro que tentaram subir foi tombado com ela ainda em cima. Sônia afundou, e quando percebeu já estava sendo puxada por Junior, seu único filho. Quando subiu de novo para a superfície, viu o lugar que cresceu com outra aparência, um local, similar a um filme, daqueles a que ela não gostaria de assistir de novo. A trilha sonora eram os berros, gritos de pessoas pedindo por Deus para não morrerem.
Se nadar já exige força, imagina se rastejar no estilo “sapinho” em meio a uma terra batida e arenosa. Sônia conta que achou que não ia aguentar, e se não fosse o filho, provavelmente, por lá teria ficado. “Ele me dizia: ’Vamos, mãe, a senhora consegue’. Até hoje não sei como consegui”, conta dona Xistó.
Casada com Marcos António, durante a entrevista Sônia se levanta e pega algumas fotos que conseguiu resgatar. Os retratos manchados da umidade da lama e água mostram algumas figuras que dificilmente se dá para distinguir sem alguma explicação. A família conta que voltou para Bento várias vezes na esperança de achar alguma coisa que desse pra salvar, mas poucas foram as recordações que conseguiram retirar. “Eu estou bem. Mas há pessoas, principalmente aquelas mais velhas, que estão doente de saudade”, conta Sônia.

Segundo a Mineradora Samarco, o local para o novo distrito de Bento Rodrigues deve ser decidido em maio. Os próprios moradores vão poder participar da escolha do local que será a futura comununidade, assim como onde será construído praças e templos religosos. Na sequência, serão iniciadas obras de urbanização.
Ao ser questionada sobre as expectativas do novo Bento, Dona Maria Quintão mostra que em cima da cômoda guarda um porquinho verde de porcelana. “Quando o novo Bento ficar pronto eu vou pegar todo esse dinheiro, gritar e comprar muitos fogos de artifícios para comemorar”.
Agradeço o companherismo de apuração, trabalho e risadas do jornalista Guilherme Mendes que me aguentou por toda jornada em meio a muito barro e sol escaldante.