Café da manhã com Bodhidharma

Quando morava em Dharamsala lembro de sempre encontrar, durante o café da manhã, um Tamil que estudava no Institute Of Buddhist Dialectics. Ele era meio maluco, talvez por isso era bom de conversar com ele, me lembrava as representações de Bodhidharma (que, de acordo com algumas fontes, também provinha do sul indiano) com a barba por fazer e seus olhos arregalados. Um dia me disse “Daniel, estou sem uma rúpia no bolso, me empresta para o café?”. Sem dúvida! Então começamos nossa conversa usual “Pois Atman… Anatman… Então Vasubhandu isso, Asanga aquilo, Chandrakirti aquele outro… bla bla bla” ele parou pensativo (ele tinha um tom grave aquele dia) e me disse: “Nós estamos nos matando Daniel, o mundo está pegando fogo, e nós aqui querendo dar nomes diferentes para uma mesma coisa”. Ficamos quietos, só se escutava o noticiário em hindi contando dos estupros coletivos na capital. Terminamos, nos despedimos, eu nunca mais vi o velho Tamil. Ele havia me pago o café de uma forma inesperada e eu tinha certeza que havia encontrado Bodhidharma.

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