A criança abandonada e a mãe-lua

Em tempos revoltos, é comum emergir do nosso âmago a criança abandonada, trazendo a sensação de não saber o que fazer da vida. Nossas crenças, habilidades, conhecimento, parecem não funcionar mais e ficamos sem rumo.

Para vocês que estão se sentido assim, quero contar aqui uma das histórias de Pinkola Estés, uma maravilhosa contadora de histórias para a alma.

Ela nos lembra que a luz interna não se apaga jamais. E se colapsamos sob o efeito da raiva, ocultando nossos sentimentos de desvalor, desproteção, desamparo, ela nos ensina que precisamos estar dispostos a cuidar de nós mesmos, sermos nossa própria mãe. Mas não basta esta mãe interna nos amar, é preciso que ela nos guie por meio da intuição, da consciência, do senso comum.

“Eis a história, que se passa em uma vila, onde tudo andava bem, exceto por um pequeno detalhe: a vila era circundada por um pântano negro, onde sempre era escuro e que exalava um cheiro mal, pois tudo nele apodrecia. A escuridão deste pântano fazia com que as pessoas necessitassem da luz da lua, para guiá-los à noite.
Mas, nas noites em que a lua não aparecia, os charcos eram traiçoeiros. E lá viviam muitas coisas ruins, assim como coisas ruins também vivem nos cantos mais escuros da mente humana e que surgem à noite, para conduzirem os viajantes aos pesadelos, onde os afundam.
Quando a mãe lua soube que, em pouco tempo, muitas pessoas haviam morrido, ela ficou muito entristecida, pois ela se preocupava com os humanos. Então decidiu vir à terra e ver por ela mesma o que estava acontecendo. E quando chegou a escuridão do mês, ela pisou em uma estrela cadente e aterrou na beira do pântano, vestida com um manto preto, para que nenhuma luz pudesse escapar.
E até onde ela pode ver, os charcos eram como espelhos negros, com alguns salgueiros aqui e ali. Ela sentiu o cheiro do musgo e viu, ao redor de seu manto, um brilho que a fez tremer de frio e medo, como todos nós. E envolveu-se mais ainda em seu manto.
Mas ela amava tanto os seres humanos, que começou a investigar, conduzida pela luz dourada que escapava de sua cabeça e iluminava tênue seus belos pés brancos. Encontrou um caminho pela grama, mas quando pensou ter chegado à terra firme, sentiu algo se mover entre seus pés. Caiu para frente e buscou apoio em um pequeno galho, para se dar conta que outros se enrolavam em seus tornozelos e braços, prendendo-a, até ela se encontrar na mais negra escuridão.
Enquanto lutava para se desvencilhar, ouviu uma voz ao longe chamando: “Me ajude, por favor!” Enquanto ouvia, o chamado chegava mais perto, até ela vislumbrar alguém tropeçando. Finalmente viu, à tênue luz das estrelas, um rosto amedrontado, com olhos assustados, e soube imediatamente que era uma pobre alma que havia se perdido, atraída pela sua luz, e sentiu muita tristeza por haver atraído a alma à sua morte.
Na tentativa de avisá-la, adverti-la, ela lutou até que sua capa caiu completamente e seus cabelos imersos nas águas negras emitiram uma luz tão brilhante, como se fosse dia. Neste momento, o viajante viu os maus recuarem para seus buracos. Mas a lua continuava sua luta para se livrar dos galhos, que a seguravam cada vez mais apertado.
Feliz por estar salvo, o viajante não se deu conta deste fato mais maravilhoso que acabava de acontecer. E a mãe lua finalmente afundou exaurida no lodo, até seu cabelo e tudo em volta ficar novamente no escuro.
E os seres que gostavam da escuridão voltaram. Não havia mais luz à noite e muitas pessoas se perderam, deixando crianças órfãos. Então as pessoas do vilarejo decidiram descobrir o que tinha acontecido com a lua e, levando tochas, penetraram no charco. Andaram e cavaram, até encontrar um ser muito belo, com os olhos cheios de amor pela humanidade. Liberta, a lua se ergueu até chegar ao céu, onde, na maioria das noites, viaja com sua luz, iluminando a terra. E nas poucas noites previsíveis em que ela se cobre e não brilha, os viajantes aprenderam a ficar em casa e esperar, até ela lhes mostrar novamente o caminho.

Moral da história?

Em tempos revoltos, quando tudo à nossa volta parece mergulhar na escuridão, precisamos nos recolher, acender nossas tochas internas e vasculhar a escuridão que nos envolve, até encontrar e revelar a luz e a beleza.

Para isto precisamos ter fé na vida, no amor e, principalmente, em nossa criança interna.

Monika von Koss