BELEZA — Uma qualidade indispensável à vida

“Que a beleza que amamos seja aquilo que fazemos.” Rumi

Deve existir uma boa razão para a que a beleza seja um atributo indispensável ao mundo natural, considerando que a natureza não desperdiça energia à toa.

Beleza é uma expressão de amor e constitui o antídoto do medo. Quando somos cotidianamente confrontados com situações de medo, elas apenas nos mostram a face feia do mundo e ficamos assustados. Mas quando entramos em contato com a beleza de um objeto, um gesto, um lugar, um ambiente natural, nosso coração se abre para o amor.

Beleza é uma qualidade que me afeta fortemente, assim como também sua ausência. Claro que me afetam de modo distinto. Enquanto a presença da beleza expande meu espaço cardíaco e me alegra, ao me deparar com uma situação em que a beleza está ausente sinto um profundo sentimento de tristeza.

Com o passar dos anos, aprendi a focar mais na beleza que encontro do que em sua ausência. Isto se tornou uma escolha que preciso fazer sempre de novo, diante da atual realidade humana. Mas é uma atitude de responsabilidade pessoal, criando a vida que escolho viver.

A palavra ‘beleza’ deriva do latim bellus, designando aquilo que é bom, bonito, elegante, charmoso e harmonioso. O termo grego para beleza é kálon, significando aquilo que é agradável, causa admiração, atrai o olhar, geralmente associado com a qualidade de estar ’em sua hora ou no seu momento’.

Dizer que algo ou alguém está em sua hora ou no seu momento corresponde a dizer que está em sua integridade, expressando sua essência.

Em essência tudo é belo, porque é harmonioso. E quando algo ou alguém está fora de sua essência, desconectado ou distorcido em sua verdadeira natureza ou integridade, deixa de ser belo.

Mas quando me refiro à beleza, não estou falando de estética ou padrão estabelecido por qualquer classificação ou época, falo da beleza como uma qualidade em si mesma, um valor. Como diz o filósofo grego Platão: “é pela beleza em si que as coisas belas são belas”.

Quando vejo imagens deste belo planeta que habitamos, sempre me encanto. Recentemente estive no Rio de Janeiro após décadas e olhando pela janela do avião para o panorama, fiquei profundamente tocada. Quanta energia há nesta natureza brasileira! E quanta beleza!

Igualmente belo é o Museu do Amanhã, seja na sua estrutura, seja no seu conteúdo. Mas é necessário um esforço para enxergar a beleza dos prédios antigos no centro do Rio, por trás do abandono a que se encontram.

Há beleza em todo lugar, às vezes precisamos apenas ajustar o olhar, focando por exemplo mais na bela árvore em flor do que na calçada esburacada em torno dela. Ou mais no arbusto florido do que no lixo depositado a pé da árvore.

Mas a beleza que mais me afeta é a beleza do gesto, da gentileza, do respeito. São aquelas atitudes que expressam uma qualidade humana que não está no exterior, na forma física, na imagem. É a beleza interior que se exterioriza em nossos atos mais cotidianos.

É a beleza da atitude de respeito às regras que organizam o convívio ao dar passagem a quem precisa, considerando que em uma cidade densamente habitada como a nossa, todos os moradores precisam se deslocar, seja a pé, de carro ou de bicicleta. Se aprendemos a considerar o espaço público como pertencendo a todos igualmente, nos movimentaremos de uma forma que possibilita a todos usufruírem de uma cidade mais bela.

Igualmente me afeta a beleza do gesto que passa segurança a uma criança, comunicando-lhe que ela não está sozinha, que há alguém que está disponível para ela, alguém que se importa e que vai ajudá-la a se orientar pela vida.

Há beleza no gesto sensível de alguém que transmite apreciação; uma presença que não se impõe, mas que se faz presente de modo sensível e amoroso. Que nos possibilita experienciar intimidade sem dominação, mas com respeito.

Também há beleza na gentileza demonstrada no trato entre diferentes gerações, momentos em que pode ocorrer a partilha de saberes distintos, possibilitando a todos ensinarem e aprenderem uns com os outros, reconhecendo que todos temos algo a aprender e igualmente a ensinar.

Há beleza nos momentos em que podemos experienciar a irmandade e o pertencimento, sem que sejam necessárias palavras, apenas uma proximidade física amorosa e cuidadosa.

Para o psicólogo Robert Sardello, a beleza é a consciência do coração. Em seu livro Love and the Soul, ele escreve:

“A ação sintetizadora do coração continuamente cria uma união entre o mundo interior e o mundo exterior. Momentos em que percebemos esta unidade são os momentos da experiência da beleza”.

Assim, para percebermos a beleza, precisamos nos dar conta de que todas as coisas se relacionam entre si, uma sensação interna que precisa ser ativada por meio da criação de imagens que refletem esta sensação de unidade.

Tendo a qualidade que convida à absorção e à contemplação, escreve Thomas Moore em Care of the Soul, a beleza nutre a alma como o alimento nutre o corpo, não sendo necessariamente prazerosa de forma:

“Uma apreciação da beleza é simplesmente uma abertura ao poder das coisas ativarem a alma. Se podemos ser afetados pela beleza, então a alma está viva e bem em nós, porque o grande talento da alma é ser afetada. A palavra ‘paixão’ significa basicamente ser afetado e a paixão é a energia essencial da alma”.

Qual é a marca que você deixa no mundo? Qual é a informação que você passa aos demais a seu respeito? Você cria beleza enquanto se expressa ou espalha o medo que impede o surgimento da beleza?

Crie beleza à sua volta, não aquela prescrita por tendências e modismos que são passageiros e mutantes, mas aquela que é perene e eterna, porque é a expressão de nossa verdadeira natureza, como seres existindo em harmonia com o mundo em que queremos viver.

Monika von Koss