Da Deusa ao Feminino

Como forças cósmicas se tornaram características psicológicas

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Hoje, quando nos referimos ao feminino e queremos lhe dar um sentido sagrado, falamos da deusa e recorremos aos registros antigos. Mas quando falamos hoje da deusa, será que temos a mesma experiência que nossos ancestrais dos primórdios, daqueles tempos que se perdem no tempo anterior à contagem do tempo moderno? Será possível termos uma compreensão precisa do que nossas ancestrais sentiam e como experimentavam seu ambiente, suas experiências, a própria vida?

Quando recorremos a registros antigos, já nos encontramos em um universo simbólico regido pelo pensamento racional. Para além do registro histórico de aproximadamente 5 mil anos, que abordam o mundo de uma perspectiva racional, masculina, a tradição dita pagã recua a 10, 20, 30 anos antes do tempo comum. E mesmo estas sociedades e suas tradições já são resultado de outras tantas décadas de cultura humana, cuja realidade apenas podemos deduzir a partir de alguns poucos elementos conservados pela natureza.

A história documentada dos últimos 5 mil anos nos fornece registros escritos que, por isto mesmo, permanecem os mesmos ao longo dos tempos. Mas será que isto é absolutamente verdadeiro? Será que os registros bíblicos, por exemplo, nos transmitem aquilo que lemos neles hoje? Porque, então, o mesmo registro produz tantas vertentes diferentes?

Quem nunca teve a experiência de ler um livro e ao relê-lo tempos mais tarde compreende algo completamente diferente? Ou em mais profundidade? Ou aspectos diferentes?

E se isto acontece com os registros escritos, o que acontece com a transmissão oral? Vocês devem conhecer aquela brincadeira de passar uma mensagem entre pessoas sentadas em um círculo. Quando ela completa o círculo e retorna à pessoa que primeiro a passou, já é outra mensagem.

Todas as tradições se referem a um tempo anterior ao tempo em que são relatadas. E suas histórias, lendas, mitos, são modos de explicar o mundo em que viviam esses grupos e como o compreendiam, utilizando os recursos linguísticos e emocionais vigentes então. Elas nos transmitem o estado de espírito desses nossos ancestrais e revelam as forças sociais, culturais e políticas que formaram a própria tradição.

Na cosmologia de muitos povos encontramos o relato de como o universo e os fenômenos naturais e fundamentais da vida surgiram. O seguinte verso da tradição babilônica fala do começo anterior ao começo:

Quando os céus acima ainda não tinham nome,
Nem a terra abaixo era pronunciada pelo nome,
havia apenas duas divindades:
Apsu — as águas primordiais abaixo da terra (água doce)
Tiamat — a personificação do mar (água salgada)

E é importante lembrar que, se a realidade de 6 mil anos atrás parece arcaico para nós, é provável que estes registros já se referissem a um saber que era arcaico então, tendo sido passado de geração a geração por meio da tradição oral.

A tradição pagã

Uma tradição pagã é caracterizada por um universo composto de várias divindades. Na nossa tradição ocidental, o derradeiro panteão pagão é o Olimpo Grego. Depois dele veio a filosofia e a ciência como modo de explicar o mundo, trazendo consigo a separação entre o mundo cotidiano e o mundo divino.

Mas se podemos descrever o mundo cotidiano a partir de nossa percepção e da razão lógica, o divino só pode ser acessado por meio da percepção sutil e expresso de forma metafórica, uma tentativa de tornar o mundo divino concebível em termos humanos.

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O que caracteriza o panteão olímpico é que suas divindades são por demais humanas. Cada divindade está inserida em uma genealogia familiar e se configura como uma persona psicológica. Isto facilita sua utilização como modelo para papéis que desempenhamos em um mundo estruturado de acordo com os valores fixados pelo patriarcado. Mas elas mesmo assim apontam para origens outras, suas histórias e mitos nos oferecendo brechas pelas quais podemos chegar mais perto de suas características iniciais.

Vamos tomar como exemplo a deusa grega Deméter. A camada mais superficial desta deusa é sua função mãe, aquela cujo único objetivo é nutrir seus filhos. E como tal serve de modelo para as mulheres exercerem sua função materna. Ela termina sua trajetória mitológica como mãe de Triptolemo, seu filho com Zeus. Mas a maioria de seus mitos mais antigos a relacionam sempre com sua filha Core. E se continuamos a retroceder no tempo, encontramos mitos ainda mais antigos que a retratam como a terra violentada pelo mar, uma experiência direta dos habitantes das ilhas gregas. E como terra, seu símbolo maior é a espiga de trigo, representativa do poder nutridor da terra.

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Mas a terra não é apenas nutridora. Ela também é criativa. Antes dos olímpicos, a terra era Gaia, a primeira criatura a emergir do caos primordial, junto com o mundo profundo, a escuridão da noite, e Eros, o espírito do amor gerador. Assim, de acordo com a genealogia de Hesíodo, Gaia é ancestral, a avó de Deméter e das demais divindades olímpicas.

Em Gaia não reconhecemos uma mãe baseada num modelo humano, mas uma maternidade cósmica, ampla, primordial. Sagrada, no sentido daquilo que não pode ser explicado diretamente pela razão humana e pela percepção sensorial, mesmo que pareça existir.

Gaia, assim como suas contemporâneas de outras tradições, não é uma divindade no sentido moderno: uma entidade transcendente, distante. Ela é uma força imanente, entendida como um poder que se manifesta a partir da sua própria essência e que faz com que algo seja e floresça. Na imanência, o nome, a forma e o próprio fenômeno são vividos como a mesma coisa.

Forças cósmicas

E como todo fenômeno cósmico, a grande deusa e todas as deusas e deuses são forças autônomas, independentes dos desejos humanos. Não são boas nem más, não tem a intenção de punir ou beneficiar. Elas simplesmente são e se manifestam.

A magia consiste em nos associarmos a elas e agirmos em harmonia com o universo. Pois a determinação humana é uma destas forças e, portanto, capaz de exercer influência. Mas influência se exerce fluindo para dentro, participando da dança cósmica, não exercendo controle e domínio.

Em princípio, podemos percorrer o trajeto que fizemos com Deméter para qualquer outra deusa que tenha chegado a nós como uma persona, com nome próprio, nome este que, na origem, deve ter descrito a ação de uma força cósmica.

E isto vale para qualquer tradição. Ao fazê-lo, vamos encontrar a força essencial de cada uma, aquilo que ela realmente expressa como um poder pessoal, o que nos possibilita escapar dos enquadramentos estereotipados a que foram submetidas as deusas, as mulheres e o feminino.

Nos registros antigos, o título comum para todas as forças cósmicas era algo que corresponde ao nosso Senhor/a, reconhecendo sua supremacia, regência ou domínio. Cada uma destas forças recebeu uma denominação, um nome que passou a designar, com o passar do tempo, uma personalidade fixa e inserida em uma rede de relações familiares, baseada no modelo humano.

Mas o nome, o substantivo, é a última categoria gramatical que se formou nas línguas modernas. As línguas antigas não possuíam substantivos, visto que o mundo e a vida eram entendidos como forças cósmicas em ação, provocando mudanças, causando efeitos, que podiam ser tanto benéficos quanto danosos para os seres humanos. Na descrição do mundo, prevaleciam os verbos, as ações, os movimentos. Por isto, quando traduzimos os escritos antigos para nossas línguas modernas, substantivando estas ações e atribuindo-lhes gênero, intencionalmente ou não acabamos distorcendo seu significado original.

Para termos uma compreensão mais acurada do que sejam as diferentes forças que chamamos de deus/as, precisamos entrar em contato íntimo e direto com a vibração energética que expressam, honrando-as como forças cósmicas que existem em direito próprio e não apenas como características psicológicas que se expressam através dos seres humanos. Precisamos sentir sua força em ação no nosso corpo e em nossa vida.

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Para isto sugiro que, da próxima vez que você estiver em algum lugar na natureza, experimente aquietar-se e ser a água que brota da terra, o leito por onde corre o rio, a chuva que cai, o vento que move as folhas, a onda que quebra na praia, a grama que cresce em direção ao sol, a árvore que se verga ou resiste ao vento. E se quiser, partilhe sua experiência conosco.

Monika von Koss