Explosão de alegria e criatividade!

Foto de Fabio Rossi — 2011 — Agência O Globo

Diz a sabedoria popular brasileira que aqui o ano só começa depois do carnaval. Alguma verdade há de ter nisto, pois tudo possui certa dose de verdade. Seja como for, este ponto alto na vida social brasileira agrega todas as tribos e todas as classes em uma experiência singular.

Eu nunca desfilei em escola de samba, nem fiz parte de nenhum bloco, apesar de, na minha juventude, já ter participado de bailes de carnaval. Hoje escolho a tranquilidade da minha casa e aproveito o tempo para descansar e curtir o silêncio e o relativo vazio que se espraia por esta cidade, trazendo-me a lembrança de tempos menos barulhentos e caóticos.

Nem por isso deixo de apreciar o desfile das escolas de samba e apreciar a imensa capacidade de organização, além de toda a disciplina, dedicação e empenho que são necessários para apresentar ao mundo este espetáculo.

Mas, principalmente, fico maravilhada com a explosão de criatividade que desfila diante de meus olhos e com a expressão de pura alegria, de puro êxtase, estampada no rosto de todos os que desfilam e também daqueles que assistem.

Esta energia é divina e, por isso, contagiosa! Entusiasmo significa ser preenchido com a divindade e, na mitologia grega, esta é a essência dos ritos dionisíacos, entre os quais podemos arrolar o carnaval.

Em seu livro Ecstasy, Unterstanding the Psychology of Joy, Roberto A. Johnson afirma que esta energia dionisíaca

é o poder da vida que flui através de todos nós e nos une com o céu e a terra”.

Diferentemente de tantos espetáculos contemporâneos, em que a platéia é instada a expressar entusiasmo sob o comando de alguém outro, fazendo-o por meio de atitudes artificiais, ensaiadas, quando estamos preenchidos pela energia divina ela se expande para além de nós e contagia tudo e todos que se encontram presentes, estimulando a expressão própria de cada pessoa. E é esta energia que eu vejo fluir através daqueles que desfilam, contagiando e levando consigo todos aqueles que estão assistindo.

Eis que um pensamento brota na minha mente:

“E se todas as pessoas aplicassem estas mesmas habilidades de organização, disciplina e empenho em tudo que fazem na sua vida cotidiana, para criar beleza, organização e alegria todos os dias do ano? Como seriam nossas ruas, nossos parques, nosso espaço urbano, nosso convívio?”

Quando as câmeras focam as pessoas que se aglomeram nas ruas e seguem os blocos, vem uma resposta. Este espetáculo só é possível, porque uma imensa quantidade de pessoas agrega sua energia e a direciona para um único ponto, criando um campo energético muito potente.

O poder deste campo se deve ao fato de todos que o compõe terem o mesmo propósito, diferentemente da energia cotidiana, em que cada pessoa foca em um propósito pessoal, razão pela qual a energia se dispersa. Por isto, assim que termina o espetáculo e cada qual retorna para sua própria existência, seus próprios objetivos, a energia se dissipa e o poder individual murcha.

Mas o que nos impede de experimentar alegria e êxtase em nossas vidas cotidianas? Uma das razões mais profundas é nossa dificuldade de sustentar nosso próprio campo energético.

A maioria de nós tem um campo energético ‘perfurado’, ou seja, nossa energia esvai, pois não temos limites individuais firmes o suficiente para podermos conter nossa energia e direcioná-la para um propósito comum. Precisamos de um contexto que nos forneça a energia e o propósito necessário, sem o que não experimentamos esta alegria poderosa.

Aprender a sustentar o campo energético em consonância com o campo energético coletivo requer clareza de quem somos e o que queremos para nossa vida e, a partir deste centro, nos mover no coletivo em harmonia com os demais.

Quando nos encontramos em um espaço nutridor, nos alimentamos mutuamente da energia de todos os que estão presentes. Quando ficamos sozinhos, precisamos acessar a fonte divina por nós e em nós mesmos. E para nos conectarmos com o divino em nós, precisamos estar plenamente presentes em tudo que fazemos.

No epílogo de seu livro, Johnson diz que a alegria é um valor duradouro que nutre e sustenta o espírito bem como o corpo. Ela não induz a querermos mais, porque ela é suficiente. Mas, para sabermos o que é alegria, precisamos senti-la e descobrir sua verdadeira natureza em nós mesmos e por nós mesmos.

Evoé!!

Monika von Koss