Górgonas — as guardiãs do portal

Todo templo é um portal para a alma. Quando ultrapassamos o portal, adentramos a profunda escuridão do Ser, nossa essência atemporal. Isto apenas é possível, se estivermos dispostos a nos responsabilizar por cada pedaço da nossa personalidade, incluindo as partes de nós que tentamos - em vão - excluir, suprimir ou ignorar completamente.

Para entrar no templo e atravessar o portal, portanto, precisamos encarar as Górgonas, deusas primevas, pré-olímpicas, descritas como seres reptilianos, cobertas de escamas, serpentes sibilantes por cabelo, grandes dentes parecidos com os do javali, os dedos cobertos de cobre e o olhar fixo tão poderoso, que um único olhar podia petrificar o observador. Representando a face anciã da deusa lunar e simbolizando o instinto feminino puro, foram relegadas ao mundo subterrâneo, quando do advento do patriarcado.

Medusa de Bernini

Três irmãs que viviam além do oceano, Esteno (a forte) e Euríale (a que corre o mundo) eram imortais, mas a mais conhecida delas é a mortal Medusa (a astuta), finalmente decapitada por Perseu que evitou a petrificação pelo uso de um espelho em que Medusa era refletida, evitando assim olhar diretamente para ela.

Simbolizando o poder da antiga deusa, elas foram representadas pelos gregos em máscaras cerimoniais profiláticas, que eram utilizadas pelas sacerdotisas que guardavam a entrada para o templo. A função das máscaras era advertir os incautos, antes de entrarem no templo. Aqueles que não estivessem prontos a encarar os aspectos mais sombrios do próprio psiquismo ficavam paralisados pelo próprio medo, pois as Górgonas apenas refletem aquilo que cada pessoa traz consigo, quando entra na escuridão do próprio Ser.

Se você estiver pronto para um encontro consigo mesmo, nada tem a temer das Górgonas que, como todas as guardiãs, não impedem o acesso ao interior do Ser, apenas protegem aqueles que não estão prontos para encararem a si mesmos.

Monika von Koss