LILA — o brincar criativo divino

Monika von Koss
Jul 31 · 5 min read

“Este mundo é uma morada de alegria; aqui posso comer, beber e divertir-me.” The Gospel of Sri Ramakrishna

Da tradição hindu nos vem a compreensão de que toda realidade, incluindo o cosmos, é resultante de LILA, o brincar criativo divino.

Diz o Bahgavad Gita que as nossas ações devem ser realizadas com a atitude de um ator no palco da vida, ou seja, toda realidade que se desenrola no palco pertence não ao Eu real do ator, mas à peça em si escrita pelo Eu divino.

Quando sustentamos uma atitude assim, podemos experimentar a vida e o universo como a revelação de uma força divina que, em seu brincar cósmico sem finalidade, precipita a dor e a alegria, mas transcende a ambos.

O que isto nos diz? Que a vida é um jogo.

Mas não é um jogo aleatório, criado pelo destino, e sim o brincar da nossa alma no palco humano. Podemos não estar muito conectados com nossa alma, mas ainda assim jogamos o jogo por ela proposto.

E por que fazemos isto? Qual é o propósito por trás do brincar?

Se formos buscar uma resposta a estas perguntas na nossa memória infantil, vamos descobrir que as atividades lúdicas eram motivadas pelo simples prazer que elas nos proporcionavam. O estado de brincar é quando a atenção está focada exclusivamente no prazer da atividade. Assim que uma criança esgota o prazer com uma brincadeira, ela vai brincar de outra coisa que lhe der mais prazer.

O brincar é voluntario, atraente, desprendido do tempo e impulsionado por um desejo contínuo de expressar nosso potencial para a improvisação.

Brincar nos permite ir a lugares em que ainda não estivemos, desempenhar papéis que ainda não nos definem. As brincadeiras infantis não seguem regras pré-estabelecidas, elas vão sendo criadas ao longo do brincar. Brincando aprendemos habilidades que vamos precisar no futuro.

Também é sabido que a memória de fixação está intimamente relacionada com a atenção e a recompensa emocional, razão pela qual aprendemos melhor, mais rápido e mais facilmente quando brincamos.

E tem mais, brincar envolve múltiplos centros de percepção e cognição por todo o cérebro, como bem o descreve Stuart Brown em seu livro intitulado Play: how it shapes the brain, opens the imagination, and invigorates the soul [Brincar: como formata o cérebro, abre a imaginação e revigora a alma]. Diz ele que “O genial do jogo é que, ao brincar, imaginativamente criamos novas combinações cognitivas e ao criar estas novas combinações, descobrimos o que funciona.”

Eis a importância do brincar!

Como seres dotados de imaginação, simulamos a vida e experimentamos como as coisas funcionam, antes de despender tempo e energia para realizá-las. Esta é a característica específica da inteligência humana.

A expressão primeira desta inteligência ocorre muito cedo na vida de cada um de nós, quando brincamos. Brincar é um catalisador, que nos possibilita descobrir como o mundo funciona. Quando brincamos, simulamos uma situação de vida e podemos avaliar suas consequências, sem que os resultados se imponham como fardo.

É um processo biológico profundo, razão pela qual as crianças não necessitam de instrução para brincar, elas apenas descobrem o que gostam de fazer e o fazem. A própria natureza nos configurou para brincar e pelo brincar configuramos nossa realidade.

Cada pessoa tem uma realidade distinta, que tem uma intima relação com a experiência do brincar. Evoluindo ao longo dos tempos com o intuito de promover a sobrevivência, pode-se dizer que a seleção natural escolheu aqueles seres que sabem brincar com mais habilidade.

O que acontece com nossa habilidade de brincar quando a vida demanda que nos dediquemos ao trabalho?

Qual é a diferença entre brincar e trabalhar?

A diferença está na emoção subjacente. Brincar e trabalhar são mutuamente apoiadores. Pode-se dizer que brincar é mais um estado de espírito do que uma atividade e quando trabalhamos com este espírito, tudo que fazemos tem a qualidade da criatividade.

Quando trabalhamos com o espírito de brincar, descobrimos nossas necessidades reais, especialmente aquelas que abandonamos ao entrar para a vida adulta do trabalho.

Algumas das nossas necessidades amadureceram para se tornar verdadeiras necessidades adultas. Elas vão se expressar como atividades/habilidades que caracterizam nossos propósitos e realizações.

Aquelas que ficaram perdidas ao longo do caminho podem ser recuperadas, quando incrementamos nossa capacidade de brincar, quando recuperamos o contato com nossa criança interior.

Como recuperamos nosso contato com a criança interior?

Um bom modo de conhecer nossa criança interior é brincar. Brincar nos ajuda a recuperar ou aumentar nosso sentimento de valor — nossa autoestima.

O senso comum diz que brincar é coisa de criança e quando um adulto brinca recomenda-se que cresça. Gosto muito mais da ideia expressa por Barbara Ann Brennan em seu livro Light Emerging. Afirma ela que “primariamente o espírito da criança interior precisa ser liberado para a liberdade. Ela precisa viver plenamente em nós. Nossa criança interior preenche nossa personalidade com uma sensação de maravilhamento e alegria de vida. Nos dá o simples prazer que nunca pode ser equiparado a atividades adultas.”

Somos seres criadores, criamos a nossa realidade por meio de nossas intenções. Pare e pense quais os objetivos de criança que continuam sendo importantes para você? O que você faria diferente com o que você sabe hoje? Qual sua atitude de espírito hoje?

Do mesmo modo que uma criança pequena estica os braços para que alguém a tire do berço, precisamos esticar nossa consciência, ampliar nosso espaço interior, para alcançar e incluir este algo mais que queremos. Uma intenção é o ato de ‘estender-se em direção a alguma coisa’.

Inicialmente um pensamento, uma ideia do que quero, uma intenção precisa estar associada a uma emoção. Quando tenho uma ideia que não mobiliza minha energia (e emoção é essencialmente a energia disponível para realizar minha intenção), não vou realizar os atos que levam à manifestação da minha intenção.

Convido você para brincar e encontrar suas próprias verdades essenciais, pois como afirma Stuart Brown: “somos projetados para encontrar realização e o crescimento criativo por meio do brincar”.

Monika von Koss

    Monika von Koss

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    Sou psicoterapeuta de abordagem energética transpessoal, com longa experiencia em atendimento clínico. A primeira Fractologista graduada da América Latina.

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