O emocionar-se e a cultura

Penso que a história da humanidade seguiu e segue um curso determinado pelas emoções”, escreve Humberto Maturana em Amar e Brincar. Preexistindo à linguagem como “modos distintos de mover-se na relação”, as emoções não apenas definem nossas ações, mas estão na base da cultura biológica, definida por Maturana como “uma rede fechada de conversações que constitui e define uma maneira de convivência humana como uma rede de coordenações de emoções e ações.”

O que diferencia a cultura humana é a convivência em um ambiente linguístico. Os grupos humanos convivem em um ambiente definido pelas conversas cotidianas, as palavras estando em íntima conexão com a emoção que as evoca e que elas expressam. Toda ação humana traduz uma emoção que a motiva. Mesmo as ações mais automáticas ou repetitivas são oriundas de um estado emocional que as define.

O entrelaçamento do emocionar-se com o linguajear inicia-se com nossa primeira respiração, com a primeira palavra dirigida a nós quando chegamos ao mundo. O recém-nascido não compreende o significado da palavra, mas a emoção subjacente é impressa em suas células. Por isto, nossas emoções e as palavras que usamos para expressá-las têm raízes profundas na cultura familiar em que crescemos. E à medida que ampliamos nosso convívio cultural para além da família original e aprendemos novas palavras, ou novos significados para as mesmas palavras, nosso emocionar também se modifica. E ao modificarmos nosso emocionar, modificamos, ampliamos e multiplicamos nossos universos culturais.

Quais são as palavras que mais frequentemente pronuncio durante o dia? Quais são as palavras que utilizo para definir a mim mesma, para me referir a outras pessoas, ao mundo, à vida? Qual é a emoção que elas expressam, transmitem e reforçam?

Como seres conscientes e capazes de criar cultura, também podemos modificar nossa cultura diária, escolhendo criteriosamente as palavras que melhor expressam a emoção que queremos sentir, em vez de reproduzir continuamente as palavras e as emoções que nos são lançadas incessantemente pela mídia, pela propaganda, por nossos conviventes.

Tente pensar em uma palavra que expresse o mundo que você gostaria de criar e inclua esta palavra nas suas conversas cotidianas. E quando você verbalizar esta palavra, visualize a realidade desta palavra já concretizada para você e as pessoas com quem você está falando.

Observe as mudanças que ocorrem no seu emocionar-se e na reação emocional de seus interlocutores. E não desista, se no primeiro dia não surgirem mudanças visíveis. Às vezes, as mudanças que criamos em dimensões mais sutis necessitam de algum tempo para se materializarem na dimensão terrena.

Este é um convite para criarmos um mundo mais em consonância com aquilo que realmente queremos para nós e para todos, do mais profundo do nosso coração.

Monika von Koss