O encontro de Psiquê com Gaia

No coração da vindoura revolução ambiental há uma mudança dos valores, que deriva da crescente apreciação de nossa dependência da natureza”, Lester R. Brown, do Worldwatch Institute.

Atualmente, o tema do meio-ambiente está na pauta do dia. Diariamente somos confrontados com recomendações de como lidar melhor com os recursos naturais, somos apresentados a produtos e empresas que se esforçam para obter o chamado selo verde, assegurando-nos sua preocupação em preservar nosso ambiente natural.

Todas as soluções concretas para lidar com a crescente crise ambiental são benvindas. Mas precisamos de mais. Escreve Fritjof Capra em A Teia da Vida que precisamos de uma mudança radical em nossas percepções, em nosso modo de pensar e nos valores que sustentamos, se quisermos reformular a visão de realidade que está na base da atual organização social e suas consequências.

O estudo que reúne a Ecologia com a Psicologia tem como hipótese básica a ideia de que a psiquê humana é do tamanho do planeta, afirmando que nós seres humanos temos um vínculo emocional com o ambiente natural do qual evoluímos e que, no nível mais profundo da psiquê, continuamos vinculados com a terra que nos trouxe à vida e nos alimenta.

Há tempos temos considerado o mundo natural como algo fora de nós. Ao nos separar da natureza, colocamo-nos acima dela e estabelecemos com ela uma relação de uso e exploração, que leva em consideração apenas as nossas necessidades pessoais, retornando nada ou muito pouco. Profissionais renomados de várias áreas do saber têm se debruçado sobre as consequências desta dicotomia entre natureza e cultura, entre o mundo humano e o não-humano, fazendo surgir uma variedade de abordagens interrelacionadas.

Enquanto a Ecologia se ocupa com o mundo físico e suas criaturas, animadas e inanimadas, cujas conexões formam o que se denomina de ecossistemas, estudiosos como Theodore Roszak têm refletido sobre a relação entre um planeta ecologicamente deteriorado, habitado por pessoas psicologicamente perturbadas, criando uma área de estudo denominada de Ecopsicologia.

O estudo que reúne a Ecologia com a Psicologia tem como hipótese básica a ideia de que a psiquê humana é do tamanho do planeta, afirmando que nós seres humanos temos um vínculo emocional com o ambiente natural do qual evoluímos e que, no nível mais profundo da psiquê, continuamos vinculados com a terra que nos trouxe à vida e nos alimenta. Roszak sugere um ‘inconsciente ecológico’, um passo além do inconsciente coletivo junguiano, onde o eu e o mundo natural se fundem. Um espaço-tempo onde Psiquê encontra Gaia.

Esta atitude inclusiva e relacional, que abarca a diversidade numa totalidade integrada, apresenta qualidades que convencionamos denominar de femininas. E o movimento ecológico é um dos canais pelo qual o princípio feminino se manifesta no planeta. O feminino está intimamente ligado ao relacional. Em lugar de estabelecer uma hierarquia de valores, busca as conexões entre as coisas, valorizando igualmente as grandes e pequenas e reconhecendo sua importância para o todo.

Quando o movimento feminino e o movimento ecológico se encontram, surge o Ecofeminismo, que busca uma nova visão de mundo, com ênfase nas transformações dinâmicas, nos processos cíclicos e na interrelação de todos os seres. A consciência de que tudo está relacionado, que nada existe isolado, está intimamente associada a uma espiritualidade feminina, que recupera o mundo natural como sagrado — matéria imbuída de espírito — revalorizando o corpo e suas funções, incluindo a sexualidade, o nascimento, o envelhecimento, a morte.

A espiritualidade feminina recupera a concepção da Deusa, que não deve ser confundida com a mulher. Ela não é uma entidade que está em algum lugar ‘aí fora’. Pelo contrário, ela está em todos nós — mulheres, homens, plantas, animais, minerais. Ela é o próprio mundo e o princípio de vida que pulsa em todo ser criado.

A confluência destes novos estudos no convida a desenvolver uma nova identidade humana, baseada em uma inteireza que inclua, além da racionalidade, da auto-confiança e do poder do intelecto, os aspectos intuitivos, compassivos e o potencial de autocura. Uma identidade humana consciente da natureza sagrada de todas as pessoas e de todos os seres na Terra, cada espécie tendo seu papel e seu lugar, nenhuma sendo inútil, todos contribuindo para que tudo se equilibre.

Precisamos nos conscientizar de que tudo está conectado, tudo está vivo. E que nós também somos feitos de terra, água, ar e fogo, os elementos que constituem toda manifestação e os interconecta em uma grande teia que chamamos de vida, um grande ecosistema do qual somos apenas uma parte.

Como você se relaciona com o meio-ambiente?

Monika von Koss