Para além da bipolaridade

Tenho ouvido cada vez com mais frequência alguém dizer que foi diagnosticado como bipolar. Bipolaridade é o nome moderno para a antiga psicose maníaco-depressiva, portanto, não é um distúrbio psiquiátrico novo. O que me parece novo é a frequência com que parece ocorrer nos dias de hoje.

Se deslocarmos nosso olhar do individual para o coletivo, facilmente podemos reconhecer os sintomas da bipolaridade no funcionamento da sociedade. Enquanto algumas pessoas trabalham excessivamente, outras não encontram ocupação. Enquanto em algumas partes do planeta há excesso de comida, em outras partes há escassez. Enquanto alguns só pensam em usufruir, outros mal sabem como sobreviver.

A sociedade de consumo é bipolar. Somos continuamente motivados a adquirir bens, serviços, informação, entretenimento, com a promessa de que isto nos deixará felizes, bonitos, famosos, admirados, valorizados, amados, atualizados. Buscamos a cada dia uma coisa nova, uma coisa excitante, a última novidade em informação, tecnologia, moda, passeio, apenas para descobrir, no fim do dia, que isto nos proporciona uma felicidade passageira, encobrindo um imenso vazio interior. E para preencher este vazio, partimos em busca de alguma coisa mais nova, mais excitante, mais…, mais…

Da excitação momentânea caímos no vazio, no tédio, na falta de sentido. E para sair desta obscuridade, deste vazio, desta depressão, vamos em busca da excitação, entramos em mania, apenas para cair novamente no vazio.

Mas, quer estejamos na mania, quer na depressão, o fato é que estamos sempre distantes de nós mesmos, distantes de algum significado que nossa vida possa ter, para além do consumo desenfreado de bens, na busca de preencher um vazio, este vazio que é a nossa ausência.

Entendida como uma doença, a bipolaridade se caracteriza por uma oscilação de humor. Mas todos nós temos altos e baixos, dias em que não temos disposição para fazer nada e dias de atividade intensa. Certamente todos nós oscilamos. E é bom que o façamos, pois a própria vida oscila.

A psique oscila entre dois polos; ela se volta para dentro, para se conectar com o espírito, e se volta para fora, para o mundo da forma. Podemos ser mais introspectivos ou mais extrovertidos, dependendo de nossa referência estar mais no mundo interno ou no mundo externo. Mas todos nos movimentamos em ambos os mundos. Somos bipolares.

E somos bipolares, porque toda a manifestação é dual. Tudo no mundo se manifesta por meio da dualidade. Luz e sombra, calor e frio, dia e noite. Nas formas mais elevadas de vida no planeta, há uma polaridade masculina e feminina.

A bipolaridade também está presente na nossa estrutura biológica. Temos dois hemisférios cerebrais, que nos possibilitam responder ao mundo de modo destro (masculino, yang) ou canhoto (feminino, yin). Mas nosso organismo é sofisticado o suficiente para conter e expressar ambas as polaridades, simultaneamente.

Como pessoas conscientes, temos nos empenhado em buscar a luz, em aceitar apenas aquilo que é bom em nós e nos outros, rejeitando tudo o mais.

Esta bipolaridade cerebral foi magistralmente relatada pela neurocientista americana Jill Taylor que, aos 37 anos de idade, sofreu um derrame hemorrágico que inundou seu hemisfério esquerdo, interrompendo seu funcionamento normal e deixando o hemisfério direito livre para uma experiência de maravilhamento e fluidez. Em seu livro A cientista que curou seu próprio cérebro, ela relata não apenas a experiência do derrame, mas também o longo caminho de recuperação.

Em muitos momentos ela ficou em dúvida se realmente queria voltar a funcionar nos padrões fixos dominados pelo hemisfério esquerdo, ou se preferia continuar fluída, em conexão com todo o universo, como descobriu quando seu hemisfério direito estava livre para se expressar.

Depois de 8 anos de trabalho intenso para refazer as conexões neurais na parte esquerda de seu cérebro e recuperar sua capacidade de raciocínio e linguagem, ela foi capaz de estabelecer uma nova condição mental, para além da dominância lateral. Ela descobriu que “o primeiro passo para sair desses grupos reverberantes de pensamento ou emoção negativa é reconhecer quando estou presa a eles.”

Há não muito tempo, tínhamos uma noção clara do que era certo e errado, de como devíamos nos comportar para sermos consideradas pessoas de bem, pessoas de sucesso. Nossa concepção de vida era impregnada e definida pela dualidade entre bem e mal.

Se, por um lado, isto limitava nossas possibilidades, prescrevendo-nos comportamentos e caminhos de vida, por outro lado, nos dava uma orientação precisa, que poderíamos seguir. O mundo era dividido em duas possibilidades e cada pessoa escolhia uma delas e se orientava por ela. Não precisávamos decidir a cada passo para onde íamos, o que iríamos fazer em seguida. Tudo era pré-estabelecido e a vida seguia seu curso. Podia não ser o melhor dos mundos, mas proporcionava certo conforto.

Como pessoas conscientes, temos nos empenhado em buscar a luz, em aceitar apenas aquilo que é bom em nós e nos outros, rejeitando tudo o mais. Temos optado por apenas um dos polos desta dualidade. Fica a pergunta: o que aconteceu com o outro polo? Para onde foi aquilo que rejeitamos? Hoje dizemos que uma pessoa é ‘do bem’ ou ‘do mal’, baseado em que, exatamente?

Há muito trabalho para fazer, até encontrarmos um novo equilíbrio que transcenda a dualidade. Um novo equilíbrio que abarca bem e mal, luz e sombra, em uma totalidade.

Há outra bipolaridade, que tem sido amplamente discutida e sobre a qual eu mesma escrevi extensamente em Feminino+Masculino. Uma nova coreografia para a eterna dança das polaridades. Refiro-me ao feminino e ao masculino, como princípios energéticos presentes em tudo que é manifesto. Quando predomina a polaridade feminina, o movimento é para dentro, receptivo. Quando predomina a polaridade masculina, o movimento é para fora, ativo. Mas uma única polaridade não se mantém para sempre. A alternância é que mantém o equilíbrio.

Quando esta dualidade do feminino e masculino se expressa como gênero, define os papéis sociais que mulher e homem supostamente devem desempenhar. Há algumas décadas, esta polaridade de gênero vem sendo questionada com bastante veemência e temos sido capazes de modificar sua aplicação na realidade social.

O resultado disto é que não sabemos mais como expressar nosso ser no mundo. As mulheres são repreendidas por terem aberto mão da feminilidade em sua forma social e convencionalmente prescrita, os homens são questionados em sua masculinidade, quando flexibilizam o modelo machão de ser.

Todos nós oscilamos entre estas duas polaridades, sem encontrarmos um equilíbrio. E a perda do equilíbrio individual se expressa no desequilíbrio social que, por sua vez, se reproduz e expressa no aumento da bipolaridade como manifestação psicológica.

Algo inerente à nossa condição humana fez com que deixássemos a zona de conforto, de sabermos o que esperar da vida e o que a vida espera de nós. Estamos à deriva, cada pessoa tendo que decidir por si mesma qual rumo tomar, neste mar de infinitas possibilidades que estão disponíveis a cada momento.

Neste nosso caminho evolutivo, nos encontramos presentemente em uma zona de desconforto, disto não resta dúvida. Temos olhado para a vida de uma perspectiva linear, com o bem em uma das extremidades e o mal em outra.

Mas, ao ampliarmos nosso olhar e nossa perspectiva, nos demos conta que a linha era apenas uma pequena parte de um círculo e que o bem e o mal são apenas dois pontos de uma mesma circunferência, de um mesmo ciclo, presentes sempre, em cada manifestação. Se aprendermos a nos movimentar no circulo, nunca teremos que nos fixar em uma das polaridades, excluindo a outra, podemos simplesmente nos deslocar entre elas.

Desequilibrados e indecisos como estamos, contudo, oscilamos de um lado para o outro, às vezes excitados com nossa expansão, outras vezes desanimados por termos que acolher nossa sombra, assustados por termos que encarar tudo aquilo que rejeitamos em nós e nos outros. Há muito trabalho para fazer, até encontrarmos um novo equilíbrio que transcenda a dualidade. Um novo equilíbrio que abarca bem e mal, luz e sombra, em uma totalidade.

E não precisamos ter um derrame para isto! Podemos trabalhar com nossas crenças e emoções, desenvolvendo o hábito cotidiano de enxergar, em cada situação, os aspectos que consideramos negativos e positivos.

Normalmente tendemos a definir uma situação como positiva ou negativa, dependendo de como ela nos faz sentir. Quando nos sentimos bem, nos fixamos nos aspectos positivos e desconsideramos os negativos. Quando nos sentimos mal, fazemos o contrário.

Se cada vez que nos depararmos com uma situação desagradável procurarmos pelo aspecto positivo desta situação, que pode ser o simples fato de nos ensinar algo valioso para nossa vida, ela deixa de ser totalmente negativa e se desloca um pouco mais para o centro. Quando me encontro em uma situação agradável, posso acolher algum aspecto negativo, que certamente também estará presente, como algo a ser transformado ou assimilado.

A cada vez que fazemos isto, nos deslocamos das extremidades para o centro, até encontrarmos o ponto em que ambos se tocam e relacionam. Deslocar as situações para um estado de equilíbrio não significa transformar tudo em um copo meio cheio e meio vazio, pois isto ainda é linear. O equilíbrio não está necessariamente na metade. O equilíbrio é algo dinâmico, algo que oscila, como a gangorra em que brincávamos quando crianças. Quem ficava no alto precisava do peso de quem ficava em baixo, e vice-versa. A brincadeira só dava prazer quando havia a alternância.

Quando somos capazes de acolher e incluir os aspectos positivos e negativos de cada situação, podemos nos movimentar com mais confiança e clareza na vida, nossas ações se tornam mais conscientes, mais eficazes. Desconsiderar os aspectos negativos não os elimina, apenas os coloca na sombra, de onde virão para demandar nossa atenção.

Mas considerar apenas os aspectos negativos nos lança em uma visão desmotivada e desanimada — sem alma — da vida e do mundo. Passamos a desconfiar de nossos semelhantes, a desacreditar em nossa própria capacidade de influenciar os acontecimentos de uma forma positiva. Desacreditamos de nós mesmos e vamos em busca de algo fora de nós, para preencher o vazio que sentimos.

Para modificar as condições atuais de desequilíbrio, podemos começar em nossa própria vida, aprendendo a reconhecer os aspectos de luz e sombra presentes em cada momento de consciência, em cada pensamento, em cada sentimento, em cada situação. Quando assim o fazemos, podemos começar a escolher a resposta que queremos dar frente a qualquer situação. Ao escolher minha resposta, torno-me responsável, torno-me hábil em responder. E assim, respondendo de um modo novo, vamos obter resultados diferentes.

Quando acolhemos a bipolaridade como algo inerente à manifestação e englobamos os aspectos duais em uma totalidade abrangente, começamos a utilizar nosso cérebro em sua capacidade holográfica, e desenvolvemos uma percepção holográfica do mundo e da vida.

Vamos para além da bipolaridade.

Monika von Koss