Soberania — A Grande Deusa Celta

A verdadeira soberania é aquela que exercemos em nossa própria vida, honrando e respeitando nossos ciclos vitais. Assim, manifestaremos a Deusa em cada momento e em suas múltiplas formas.

O que uma mulher realmente deseja? Esta pergunta é o tema central de um texto do XV século, intitulado “O casamento de Sir Gawain e Dame Ragnell”, que aborda um dos aspectos centrais da tradição bretã. A história é relatada por Caitlin e John Matthews, em Ladies of the Lake e eu a reconto aqui.

Numa ocasião em que o rei Artur caçava na floresta de Inglewood distanciou-se de seus companheiros, em perseguição a um grande veado. Depois de abater o animal, um homem extraordinário aparece e ameaça matá-lo, em retaliação ao fato do rei ter dado suas terras a Sir Gawain. Mas concorda em poupá-lo, desde que Artur retorne ao mesmo lugar dali a um ano, com a resposta à pergunta: O que uma mulher realmente deseja?
Sem relatar o acontecido, Artur retorna ao convívio no castelo, mas seu estado de ânimo abatido chama a atenção de Sir Gawain e quando, questionado por este, revela seu encontro, eles percorrem juntos o mundo em busca da resposta. Depois de meses, retornam ao castelo com uma infinidade de respostas, mas nenhuma parece ser a correta.
Então Artur retorna para a floresta de Inglewood e no caminho depara com uma senhora cavalgando um belíssimo cavalo selado, com um alaúde atravessado nas costas, ela mesma tão horrorosa, que palavras não a podem descrever. Aproxima-se de Artur e lhe diz, sem subterfúgios, que as respostas que coletou são inúteis e que certamente morreria, a não ser que ele lhe prometesse casá-la com Sir Gawain e, em troca, ela lhe daria a resposta correta.
Artur então retorna ao castelo e consulta Gawain, que concorda sem hesitar, como o perfeito cavalheiro que é. Assim, Artur retorna para obter a resposta, de que ‘o que uma mulher mais quer é ter soberania ’, resposta que ele leva ao encontro com o misterioso homem e é dispensado. Em seu caminho de volta para o castelo, é acompanhado da Dame Ragnell, o nome desta Senhora Repugnante, para realizar o casamento.
Na noite de núpcias, Gawain se retira para os aposentos em companhia da Dame Ragnell e quando se aproxima para cumprir seu dever de marido, ele se vê diante da mais bela donzela. Surpreso, ela lhe dá a opção de tê-la feia durante o dia e bonita durante a noite, ou vice-versa. Refletindo um pouco, ele lhe diz que a escolha é dela. Feliz, ela lhe revela que, ao lhe conceder a soberania, ele quebrou o encantamento que tinha sido imposto a ela, de modo que ela seria bela o tempo todo.

O que uma mulher realmente deseja é soberania. Evidentemente, esta história já pertence a uma época em que as mulheres estavam perdendo sua verdadeira posição no contexto cultural bretão. Para compreendermos isto melhor, é necessário ampliar um pouco a perspectiva.

Como Mary Condren discorre extensamente em seu livro The Serpent and the Goddess, documentos escritos sob a influência das formas primitivas da consciência patriarcal ainda atestam que o rei participava anualmente do casamento sagrado com a Deusa como Soberania, para assegurar a fertilidade da terra para o ano vindouro.

Na mitologia patriarcal, contudo, seu encontro acontece com sua forma de velha feia, que se torna uma bela donzela por intermédio de seu abraço. Não mais as dádivas da fertilidade são concedidas ao povo pela Deusa como Soberania, mas é a ação do rei que provoca o despertar da terra invernal, causando sua transformação em terra primaveril.

A Deusa como Soberania é parte intrínseca do mundo celta. Ela não é um símbolo nem uma abstração, mas a própria terra abaixo dos nossos pés, o próprio poder soberano da vida, razão pela qual foi uma das imagens mais difíceis para a cultura ocidental erradicar, a visão de mundo patriarcal tornando-se possível apenas pelo desmembramento do ciclo natural de vida e morte.

Diferentemente das tribos semitas pastoris, que se organizaram em torno de um deus abstraído, distante do mundo concreto e criando um elo comum entre eles, as tribos celtas eram cultural e politicamente descentralizadas, cada clã tendo suas próprias divindades, todas elas representando o poder inerente à natureza, que podia ser sentido no solo, nas florestas, nos rios e lagos, sem formar uma hierarquia ou um panteão comum.

As diversas lendas, contudo, tinham como tema subjacente o ciclo sazonal, com foco na manifestação ou ausência da força regenerativa, o poder único da Deusa como Soberania.

Possuindo qualidades excepcionais e interagindo com as mulheres e homens do mundo humano, as divindades habitavam o Outro Mundo Celta, quase uma supra-realidade sobreposta à paisagem comum, cujos limites com o mundo terreno são tão sutis, que é difícil às vezes perceber quando uma história se torna operacional em um mundo ou outro.

Uma das formas mais óbvias para ir ao Outro Mundo é seguir um animal totêmico. As passagens — geralmente outeiros, árvores ou cavernas — se abrem com mais facilidade por ocasião das festas do fogo, o ponto intermediário entre as quatro festas solares (solstícios e equinócios), ocasiões em que o tempo linear cruza com a atemporalidade do Outro Mundo: Samhain, Oimelc, Beltane e Lughnasad.

Uma das habilidades dos seres do Outro Mundo era a capacidade de mudar de forma em um piscar de olhos. As mulheres do Outro Mundo, representantes da Soberania, aparecem nas antigas lendas bretãs, galesas, irlandesas e escocesas, sob os mais variados disfarces.

Como uma bela donzela do Outro Mundo, assombra por sua beleza; como uma bela rainha, oferta as dádivas da terra ao povo; como a Escura Mulher do Conhecimento, é a Senhora Repugnante, que intimida com sua feiura, mas não por muito tempo, pois o aspecto escuro da Deusa é apenas o quarto minguante, que se transformará na lua nova em um piscar de olhos, para revelar a Princesa da Beleza, da Juventude e do Contentamento, do mesmo modo que a primavera invariavelmente substitui o inverno rigoroso.

Apesar das dádivas da Deusa se manifestarem em todos os níveis da existência, adverte Caitlin Matthews em Arthur and the Sovereignty of Britain, não devemos confundir estes níveis uns com os outros, nem impor modernos valores psicológicos ou feministas a estas histórias medievais. A Deusa como Soberania não é uma gentil terra-mãe, nem suas representantes são sempre pacificadoras. Os mistérios da Soberania são os da própria vida, e os seus ritos envolvem a troca de energia entre mulheres e homens, Soberania e rei, deusa e deus.

Na tradição bretã mais antiga, a representante da Grande Mãe é conhecida como Morgan, a grande deusa celta que pode se manifestar como um corvo em batalha ou uma velha lavando as roupas dos destinados a morrer lutando. Ela também é a Escura Senhora do Conhecimento, cujas habilidades de cura restauram o rei ferido, além de estar destinada a parir o novo rei.

Ela é o protótipo de Morgana, que aparece nos textos mais tardios, nas histórias que giram em torno da figura do rei Artur e a história do Graal, período em que a figura da Soberania já se encontra fragmentada em inúmeras donzelas ameaçadas, moças deserdadas e viúvas lamentosas.

Qual o significado da Soberania para as mulheres de hoje? O que é esta soberania que desejamos? Em seu sentido primeiro e essencial, soberania não significa exercer poder sobre outros. Significa ser soberana em sua própria vida, expressando plenamente sua verdade pessoal.

E se isto parece algo desejável, certamente não é fácil, porque para isto precisamos primeiro identificar e reconhecer os padrões sociais e culturais que moldam nossa percepção de quem somos ou de como deveríamos ser. Precisamos aprender a nos conhecer para além dos estereótipos que definem o que é ou não desejável em nós. Significa assumir, em certas situações, nosso aspecto repugnante, correndo o risco de desagradar, de ser rejeitada, de ser desaprovada, com a consciência de que, num piscar de olhos, podemos nos transformar novamente na bela donzela, para o que basta sermos aceitas pelo que somos verdadeiramente e não termos que nos deformar, para encaixar no formato que é esperado de nós pelos outros e pela cultura.

A verdadeira soberania é aquela que exercemos em nossa própria vida, honrando e respeitando nossos ciclos vitais. Assim, manifestaremos a Deusa em cada momento e em suas múltiplas formas.

Monika von Koss