Ensaio Sobre o Fim

No fim, não haverá nada.

Talvez um breve suspiro, um choro abafado e um abraço que não durou e não foi apertado o suficiente. Talvez apenas.

Porque o corpo foi dobrado e a mente entorpecida.

Eles venceram; não porque demos poder à eles, mas porque eles deram à si próprios todo poder que poderia ser dado. Eles são o martelo e o livro do julgamento. E a vida ou a história ou a política ou o mundo… é um moedor de carne. E a única certeza é que em algum momento nós passaremos pelas engrenagens. Porque tudo que existe, existe para acabar.

Olhe as vacas, tolas. Que nascem vida e viram carne que viram que vida que viram merda que viram carne morte e carne para os vermes. Destino, Samsara, ciclo. Você dura até seu bezerro ter autonomia para se tornar carne que se tornará vida (...).

As mãos se juntam - e ninguém solta - até que a fumaça suba e as chamas brilhem. Então: o medo. Eles cerceiam, nós recuamos. Eles avançam e nós nos curvamos; pela dor ou pelo horror e pelo sangue.

No fim haverá o fim. O silêncio e o fim. E o sangue derramado, o beijo não dado, o “obrigado” que morreu sufocado no fundo da garganta, o sentimento no meio do peito e a bile que subiu e se negou a voltar, o ódio incrustado e vergonha e o arrependimento.

Talvez a luta seja bonita. Talvez ela sequer exista. Talvez como as vacas, estejamos em condescendência esperando a lâmina. Porque o gado não reluta. O gado é gado. Que é passivo e é comida e é morte.

Nosso ciclo é despejar sementes e murchar porque não existe um deus e não existe tal fato irrefutável como destino e promessas ou missões na Terra. Tudo é cíclico e todo ciclo leva ao fim.

Nossas sementes não darão frutos e os vermes hão de se banquetear das cascas ocas.

E a terra engolirá nossos ossos e o pó do que um dia fora uma luta.

“Por hoje eu desisti.
Amanhã eu talvez desista de novo.
Desisti mais uma vez na quinta-feira.
E assim, quem sabe, eu desista de mim o resto da vida”
- Gabriel Gnnan.