Por que evito equações nas minhas palestras?

O mito da memória de trabalho super humana

Traduzido por Thomas Chi do original de Cassie Kozyrkov

Ensino matemática e estatística a mais de uma década e hoje me pedem freqüentemente para falar sobre assuntos técnicos em conferências. Embora eu venha de um campo que ama equações e detalhes técnicos práticos, você não encontrará quase nenhum deles em minhas palestras. Eu também os evito em curso de estatística. Aqui o porquê.

O mito da memória de trabalho super humana

Antes de fazer mestrado em estatística matemática, eu era uma aluna de PhD em neurociência e psicologia. Eu tive sorte de fazer pesquisa experimental no tópico de atenção humana e memória, que me trouxe uma percepção hilária.

Qualquer um que afirma seguir uma aula baseada em equações matemáticas está provavelmente fingindo.

Para resumir ciência cognitiva a um ponto no qual qualquer um que afirma acompanhar uma aula baseada em equações ou técnica cheia de detalhes está provavelmente fingindo. Há uma exceção: aqueles que já aprenderam a maior parte do material. Matemáticos são apenas humanos como qualquer um e a capacidade da memória de trabalho deles funciona de forma similar também. Acontece que que as aulas padrões sobrecarregam a memória de trabalho dos estudantes ao definir muitos símbolos novos e equações, mesmo para os estudantes mais brilhantes acompanharem o que é o que.

Matemáticos não são super humanos e eles não possuem memória de trabalho super humana.

Você se acha especial? Leia isto uma vez, feche seus olhos e repita para mim:

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Psicólogos sugerirão que AHGJBSK é sobre quanto você deveria esperar dos limites dos humanos. Toda vez que um palestrante adiciona um novo símbolo à sua fala, a audiência tem que dedicar capacidade da memória de trabalho para acompanhar o significado do símbolo e como ele se ajusta com as outras coisas novas. Essa é a mesma memória de trabalho necessária para lembrar do slide anterior e seguir o argumento lógico. AHGJBSK realça apenas quão pouca capacidade está disponível.

Antes de apresentar equações e jargão, faça isso

Professores e palestrantes técnicos, não acredite cegamente no que digo, tente você mesmo:

  1. Escolha um alfabeto que você não consegue identificar as letras. Caractere chineses são as minhas favoritas quando pratico. 熟能生巧
  2. Considere sua audiência. Pense cuidadosamente sobre quem estará na sala e o que eles sabem.
  3. Pergunte a si mesmo quais jargões ou símbolos nas suas equações ou detalhes técnicos práticos em seus slides podem não serem familiares para sua audiência. Se você tem certeza que cada humano na sala entende que x̄ é ‘média da amostra’ sem pensar (uma suposição decente se sua audiência é de professores de estatística), então você pode excluir x̄ desta lista. Use-o livremente. Caso contrário, siga com x̄ e seus colegas para a próxima etapa.
  4. Substitua cada uma daqueles com um caractere aleatório do alfabeto que você escolheu.
  5. Para melhores resultados, tenha um amigo para refazer seus slides para que as coisas se desloquem um pouco em termos visuais.
  6. Tente dar sua aula/palestra.

Se você falhar, você também terá perdido sua audiência neste ponto. Se a carga cognitiva para lembrar o que todos aqueles novos símbolos significam é muito para você (o expert!) então é definitivamente muito para a sua pobre audiência.

Uma vez que você perdeu sua audiência, tudo o que eles absorverão serão sumários e explicações que você der em linguagem simples. Por isso que é especialmente importante salpicar qualquer palestra técnica com sumários em linguagem mais simples.

Evite promover a síndrome do impostor

Se você perdeu sua audiência e eles são educados a ponto de não sair da sua palestra (ou se eles são uma audiência cativa de jovens estudantes impressionáveis), você raramente encontrará ouvintes bravos o suficiente para dizer que o rei está sem roupas. Normalmente, ninguém apontará, “nós não entendemos uma palavra do que você falou nos últimos 30 minutos.” Alguns indivíduos são contidos pelos bons modos, alguns sentem que corrigir sua incompetência não vale o tempo gasto, alguns são intimidados por perguntas inteligentes de um grupo seleto de pessoas que são especialistas na maior parte do assunto antes de você ter falado e alguns se questionam se eles são os únicos estúpidos demais para entender o que você está falando.

Quando sua apresentação não considera a memória de trabalho humana, você perde sua audiência. O resto da sua fala parece o canto dos pássaros para eles e é apenas chato.

Esta última categoria pode tomar toda a sua palestra (já que pode ser o canto dos pássaros) agonizando se eles pertencem ou não à sala. Eles podem começar a acreditar que eles são impostores. Sua palestra/aula, focada em impressionar um grupo restrito de experts na sala, completamente perde o resto da audiência, que contribui para um ambiente tóxico abundante com a síndrome do impostor. (Aqui temos um link para minhas reflexões sobre a síndrome de impostor e o que professores e estudantes podem fazer sobre isso.)

Mudanças culturais começam com você

Eu sei que em muitas disciplinas acadêmicas, incluindo a minha, apresentar desta forma horrível é parte da cultura. Nós podemos ter uma cultura que é aquém da ideal, mas não devemos nos prender a isso. Nós podemos escolher liderar a mudança através do exemplo.

No Google, eu inicialmente recebi muitas críticas de colegas com a mentalidade tradicional quando anunciei que iria ensinar estatística e aprendizado de máquina para todos funcionários… sem equações. Esses cursos rapidamente se tornaram os mais populares dentre os treinamentos internos técnicos com comentários como “Eu aprendi mais em um dia do que em um semestre no mestrado de estatística”. Isso pode ser feito.

Comece aqui

A coisa mais difícil que você terá que fazer é criar coragem de parar de tentar provar que você sabe como usar equações (nós acreditamos em você) e começar a pensar sobre o que é útil de verdade e interessante para sua audiência, tenha em mente as limitações da memória de trabalho humana. Deixe-me ajudar você a começar.

Vá devagar: não inclua mais do que 7 coisas novas (símbolos, teoremas, conceitos, equações, etc) na memória de trabalho. Esse número cai quando os ouvintes estão menos motivados. Quando eu digo que almejo entre 3 a 5, isso não significa apenas 5 coisas aprendidas durante a aula. Isso significa apenas 5 coisas carregadas na memória de trabalho de cada vez. Se sua audiência está vendo algo pela primeira vez, encerre com isso agora (e diga para sua audiência quando você acabou com o assunto para que ela possa removê-lo da memória de trabalho) ou você arcará com isso. Não dependa disso mais tarde a não ser que você manteve a memória de trabalho da sua audiência livre de bagunça.

Se você é honesto consigo mesmo, você verá que muitos poucos detalhes que parecem tão bonitos ajudam de fato a sua audiência. Não desperdice o tempo deles com equações ou detalhes técnicos práticos que eles não absorverão de imediato. Ao invés disso, diga a eles como usar aquela equação quando eles estiverem com a mão na massa com caneta e papel. Diga-lhes porque eles deveriam estar animados sobre ela e como os detalhes se encaixam no contexto maior. Diga-lhe porque foi difícil derivar/descobrir e qual foi o ponto principal que resultou naquela descoberta. Direcione sua audiência para quaisquer equações ou detalhes que eles precisarão depois indicando onde olhar e o que eles terão vontade de usar. Diga-lhes porque eles devem se importar! Deixe eles animados ou eles pensarão que o seu assunto é chato ou pior, que eles são ruim nisso.

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