Sobre o meu vício e regulamentação das drogas

Com muita coragem venho aqui, publicamente, admitir o meu vício no consumo de substâncias que me fazem mal em troca de prazer. Faço o consumo delas quase que diariamente e muitas vezes eu exagero a ponto de ficar saturado e não aguentar mais. Isso está acabando com a minha vida e é bastante notório a modificação que essas substâncias fizeram no meu corpo ao longo de quase 20 anos de abusos. Qualquer exame médico revela o imenso prejuízo que esse hábito causou na minha saúde. Hoje, tais substâncias são muito acessíveis, estão a venda em qualquer esquina, em todo lugar por preços muito pequenos, apesar de sustentarem verdadeiros impérios. Quase posso dizer que já fiz consumo delas com todos os meus amigos.

Até aqui nenhuma novidade não é mesmo?

Só que outro dia estava andando na calçada, comendo uma coxinha e tomando uma Coca-Cola e uma viatura passou do meu lado. Nada aconteceu, seguiram reto. É impressionante o descaso do poder público frente ao meu problema. Eu ali me destruindo e ninguém faz nada… Opa… mas consumir açúcar e gordura não é ilegal né? Posso me entupir de catupiri até morrer que ninguém tem nada com isso. E mais, se eu quiser o estado arca com as consequências da reabilitação pelo meu abuso.

-Mas você precisa comer pra sobreviver…

Sim, mas eu não como!, eu como por prazer mesmo e prejudico minha saúde (o que é o contrário de sobreviver). Eu, há muito tempo, não como porque estou com fome, como porque tenho o hábito de comer quando eu acordo, quando são 12h e quando começa a noite.

Sobre gostos de cada um:

A gente não sabe se o azul que acontece na minha mente quando eu olho o céu é o mesmo azul que acontece na sua. A gente não sabe se alguém enxerga de cabeça pra baixo e por isso não tem como saber como cada indivíduo percebe cada coisa. Comer é o meu esporte, é uma das coisas que eu mais gosto na vida e, cara, já tentei gostar de muitas outras coisas. Eu não consigo ficar sem comer, é muito difícil pra mim fazer uma dieta ou me disciplinar pra fazer exercícios. Talvez pra você não seja (Parabéns) mas pra mim e para muita gente é.

Não da pra afirmar que cada indivíduo tem algo pra sí que seja igual comer é pra mim, mas meu palpite é que uma maioria esmagadora tem. Alguns são mais nocivos que outros, alguns são mais permitidos que outros.

Hábitos, gostos, disciplina, são culturalmente construídos? Eu acho que sim, mas não da pra negar fatores biológicos também. Me faz muito sentido acreditar que o meu paladar foi desenvolvido por seleção natural e que haja uma predisposição minha e de minha “linhagem” em não comer de forma moderada, eu só preciso do ambiente favorável pra isso acontecer, e eu tenho.

Em tempo, eu também gosto muito de vídeo-games e, apesar de crer em fatores culturais que tenham construído esse meu gosto, talvez alguns fatores biológicos também estejam relacionados, o problema é que eu não faço a mais puta ideia do que seriam esses fatores, já que meu gosto pelo entretenimento digital não tem uma relação tão obvia para sobrevivência e seleção quanto tem eu gostar de batatas.

Se você está começando a se colocar no lugar de um usuário de drogas ilícitas… ponto pra mim.

-É mas…ser gordo não causa problemas sociais tão graves quanto o consumo de crack, o consumo de maconha, nem mesmo o de álcool ou tabaco.

Agora um parenteses:

Então eu gostaria de dissertar sobre espectro e resistência.

Vamos pegar as 7 bilhões de pessoas no mundo e colocar em ordem pelo seu gosto (ou vontade de experimentar) cocaína. A gente vai colocar os mais desesperados no começo da fila e no final da fila vão estar as pessoas que tem repulsa e total ojeriza. No meio haverão pessoas indiferentes ao assunto.

Cocaína é uma substância de porte, consumo e venda não muito bem aceita na maioria dos países (acho). E é necessário um grande esforço pra chegar nela. No Brasil você vai precisar:

  1. Aceitar ser alguém que não é muito bem visto pela sociedade
  2. Encontrar alguém disposto a se arriscar desrespeitar a lei (ou morrer) pra te entregar o que você quer consumir
  3. Aceitar o medo de se condenar ao vício(que é o que a sociedade pinta)
  4. Algum dinheiro

Digamos que só os muito primeiros do espectro da fila vão romper essa resistência e chegar a consumir de fato essa droga. Teremos uma amostragem de usuários com sérios problemas de auto-controle, compulsão e toda a sorte de distúrbios mentais. Você vai ter um recorte de gente maluca que vai fazer todo tipo de merda pra conseguir dar um tirinho.

Agora vamos pegar e enfileirar a população da Terra pelo seu gosto e vontade de experimentar Coca-Cola.

Nem preciso te dizer que mais da metade dessa fila já tomou Coca-cola. Na frente da fila vão haver indivíduos que matariam por uma latinha, mas não precisam fazer isso, por que uma Coca-cola custa cerca de 1 dolar para a maioria das pessoas. Ninguém é estigmatizado necessariamente pelo consumo de refrigerantes em público e isso vende em qualquer lugar.

Vamos fazer a fila dos loucos pelo dinheiro então. Na frente da fila vai ter gente que já matou e fez coisa muito pior por dinheiro ou poder.

Tem muita gente que morre pelo abuso do consumo de açúcar. Tem gente que morre em função da miséria que a ganância provoca, mas você não pensa em eliminar e proibir Coca-cola ou o capitalismo, pensa? Você pensa, “Ok, tem gente que se ferra por que essas coisas existem, mas problema delas, muito mais gente é feliz e vive bem com isso”

Será que se Coca-ína fosse liberada e houvessem propagandas que influenciassem as pessoas crerem que consumidores de cocaína são felizes e virtuosos a nossa amostragem de consumidores não seria menos pior? Será que nossa percepção não está intrinsecamente e equivocadamente exagerada?

Eu não quero cinicamente afirmar aqui que consumir LSD é como tomar suco de laranja, mas talvez não seja tão longe assim de consumir cerveja.

Antes de me acusarem de estar cometendo a falácia do morro deslizante afirmo e concordo com você que se vendem toddynho não têm que distribuir seringas nas escolas, mas se o nosso objetivo é que as pessoas não consumam o que lhes façam mal, será que conscientizar não seria significativamente mais eficiente do que arbitrariamente proibir?

Por essas e outras sou a favor da regulamentação da circulação, comércio e consumo de entorpecentes. O estado não deve ter tamanha influência sobre a vida e liberdade de escolha de uma pessoa nem ser tão arbitrário na hora de definir quais produtos são liberados ou não.

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