Rio de Setembro de 2018 (ou bando de filhos da puta)

Krishna
Krishna
Sep 3, 2018 · 6 min read

Saí pra trabalhar e só quando já estava trancando o portão lembrei que tinha esquecido o celular do bandido¹ na outra bolsa. Celular escondido na roupa, celular do bandido guardado na bolsa, hora de trabalhar.

É um pouco chato ter que fazer o caminho todo sem ouvir música, mas nunca se sabe quando o ônibus que a gente tá vai ser assaltado.

A Dona Miriam já tá acordada? Puta que pariu, como que pode a velha acordar cedo assim pra tomar conta da vida dos outros? Tinha era que tomar conta daquelas netas dela…

O bicheiro da esquina da minha rua agora aceita até cartão de débito.

— Bom dia, piloto.

Puta que me pariu, na pressa esqueci o bilhete único.

— Não tenho troco pra 20, pega comigo depois.

O ônibus inteiro foi pras janelas se informar de alguma confusão. Blitz policial, moto parada e dois moleques com a cara encostada na parede e um par de fuzis apontados nas cabeças.

Esse engarrafamento todo por causa disso? Antes tivessem dado uma oncinha na mão deles. Pra que arma essa hora da manhã? Aquele cana lá eu já vi fazendo segurança no BM. Tem que dar é tiro logo nesses filhos da puta. Se fossem bonzinhos tavam indo trabalhar, não iam estar de moto essa hora da manhã. Prezados passageiros, hoje estou trazendo pra vocês este incrível descascador de legumes! Ô Senhor, protege a gente…

Esqueci de pegar o troco.

A fila dos bilhetes do metrô tava enorme.

— Ô meu parceiro, passa aqui meu² riocard, ó. Quatro reais só!

Melhor que ficar na fila.

Só assento preferencial vazio, se chegar um velho eu levanto.

— Hoje o ambulante traz pra você este produto de primeira qualidade. Lá fora tá custando de quatro a cinco reais mas aqui na minha mão você vai pagar só TRÊS reais! Promoção válida enquanto o guarda não me pegar! Já aviso que esse produto não é roubado! É um produto im-por-ta-do. Importado diretamente do Morro do Chapadão!³

Risos gerais.

Dá a mochila pr’eu segurar. Que calor! Não tá funcionando esse ar não? Esse metrô rio quando tá frio a gente congela, aí no calor é esse descaso aí. Tá passando mal a moça aqui, puxa o freio de emergência alguém. Sai de casa sem comer de manhã, dá nisso. ALGUÉM PUXA O FREIO DE EMERGÊNCIA? Puxa nada não, manda ela descer na próxima.

Puta que pariu, entrou uma velha. Todo mundo fingindo que tá dormindo.

— Senta aqui, senhora.

Metrô parou de novo? Que caralho é esse agora?

— Prezados usuários, em virtude de forte tiroteios nos arredores da estação de Thomaz Coelho, esta composição ficará parada.

É todo dia isso de tiroteio! Ouvi dizer que tá em guerra, o Juramento e o Juramentinho. Será que é melhor a gente deitar no chão? Os caras lá tão só de AK47. Se eu atrasar hoje a patroa vai descontar. Ih, tem até helicóptero.

— Prezados usuários, o tráfego de trens na linha 2 encontra-se em processo de normalização.

Comemoração geral.

Nessa altura do campeonato minha roupa já tá toda suada.

— Next stop: Uruguaiana.

Hora de virar a mochila pra frente porque aqui no Centro vocês sabem como é: Deu bobeira com a mochila nas costas, vai chegar no trabalho de mochila vazia.

Imagem: Reprodução/O Globo

Celular mais barato aqui celular mais barato aqui celular mais barato aqui na minha mão! Compro ouro compro ouro compro ouro. Pipoca doce de Ovomaltine, não perca essa novidade! Vida de casado é boa só perde pra de solteiro ♪

Já tô sonhando com a quentinha de 10⁴ do almoço.

Arroz, feijão, macarrão, farofa e frango assado. Esse tempero tá bom demais. Com salada a gente não trabalha não porque estraga. Irmão, tá quanto esse biscoito aí? Passa pra cá que depois do almoço a boca pede um doce, não pede?

A doida falando no celular em pleno centro da cidade, tá pedindo pra ficar sem ele. Ontem mesmo eu vi uma gangue de sementinhas do mal arrancar o cordão de ouro do pescoço do cara. Cara grandão, quase que fica sem pescoço.

Os dias são todos iguais mas hoje baixei uma série boa pra assistir no metrô. La Casa de Papel. No metrô pode mexer no celular, quase nunca tem assalto. Aqui no Brasil ao invés de assaltar pobre eles deviam assaltar banco também.

Não é possível que tá calor de novo nesse caralho desse metrô.

Confusão no vagão das mulheres.

Daqui fica difícil saber se foi briga de mulher com mulher ou se é mulher expulsando homem. Essas mulheres… Outro dia vi uma cortar o rabo de cavalo inteiro da outra porque tava arrastando na cara dela. Eu acho é uma palhaçada isso de vagão das mulheres. Isso é porque você é homem, cala a boca seu filho da puta.

E a mulherada vai ao delírio.

Já que esqueci o bilhete único mesmo, hoje vou pegar o que passar primeiro.

Opa, van com as listras marronzinhas é a que me leva pra onde eu preciso. No painel frontal um adesivo com as iniciais do maior miliciano aqui da área.

Nessa época de eleição aqui fica mais feio do que já é. Meu caminho foi todo decorado por gente balançando bandeiras de político. Setenta reais por dia, falei pra minha irmã ver se arruma vaga. O chão também fica todo coberto de santinhos. Qual o nome desse cara aí falando na caixa de som? Pesquisei rapidinho e já mandou matar um monte de gente e ainda assim é deputado estadual. É um bando de filho da puta mesmo. Mais filho da puta ainda é a gente, que atura isso calado.

O cheiro do churrasquinho do ponto de ônibus hoje tá tomando o quarteirão inteiro. Bem que eu queria um com um molhinho de alho mas essa coisa de esquecer o Bilhete Único me fodeu, melhor comer em casa mesmo.

A esquina da minha rua, aquela onde de manhã fica o bicheiro, de noite fica mais esquisita. Uns adolescentes que eu não vi crescer, e outros que eu vi, parados de boné e falando em um dialeto impossível de entender. Minha mãe diz que a esquina virou uma boca de fumo, eu prefiro acreditar que não. Eu gosto de prestar atenção no funk alto que sai dos smartphones deles, hoje era um tal de “Cai de boca no meu bucetão”. Quase que eu ri, mas mantive a postura.

Chego em casa e sinto o cheiro delicioso de comida. Mas é o que? Frango? Carne? Porco?

— É tudo, meu filho. O gás tá tão caro que compensa mais assar a carne da semana toda de uma vez. Mas diz o jornal que vai baixar!

Ainda na soleira tiro meu tênis da Adidas, sessenta reais lá na Pavuna. O pé dói um pouco mas tá todo mundo usando esse tênis.

O RJTV da noite não é tão legal, gosto mais do da hora do almoço que tem a Susana Naspolini⁵. Esse da noite é só notícia triste. Ainda tão falando do Museu que queimou? Queria levar minha sobrinha lá. Pelo menos a Quinta da Boa Vista ainda ficou pra levar a família no Domingo.

Rapaz, por falar em Quinta da Boa Vista… Hoje é quarta e tem jogo do Flamengo no Maracanã. Essa semana tá puxada, mas domingo a praia do Leme que me aguarde.

__

¹Aqui quase todo mundo tem um “celular do bandido”, que nada mais é que um celular velho a ser carregado na bolsa para casos de assalto. Contudo os assaltantes já conhecem a tática e hoje em dia não é de muita utilidade. Algumas pessoas — a autora inclusive — vez ou outra saem de casa com DOIS celulares do bandido, para casos de extremo azar.

²O Riocard é o bilhete de ônibus do Rio de Janeiro. É comum que em pontos de ônibus e de metrô pessoas se ofereçam para passar o Riocard em troca do dinheiro da passagem em espécie, geralmente por alguns centavos a menos. Esses riocards, sempre com as fotografias cobertas, são geralmente produto de roubos e furtos.

³Os índices de roubo de carga no Rio de Janeiro são elevadíssimos, sendo a maioria ocorrido nas Vias Expressas, sobretudo na Avenida Brasil no trecho próximo ao Complexo do Chapadão, destino para onde vai boa parte da carga roubada no estado e que depois é escoada em feiras ou no comércio ilegal no metrô.

⁴Com a crise que o estado do Rio de Janeiro vive e o aumento do desemprego, muitos trabalhadores viram no ramo da alimentação uma oportunidade de renda, e hoje em dias as quentinhas de 10 reais são praticamente onipresentes.

⁵Susana Naspolini é repórter de rua do RJTV e encarregada de cobrar das autoridades soluções para problemas relatados por moradores tais como ruas sem asfalto, falta de saneamento básico, praças abandonadas e etc. O bom humor da repórter e a maneira inusitada de fazer seus relatos fazem com que a repórter seja muito querida entre os habitantes do estado.

Krishna
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