O lado B da volta às aulas

Eu já devo ter contado mas talvez você não lembre: eu sou mãe.

Hoje foi o primeiro dia de aula do meu filho no ensino fundamental e, quem é pai e mãe sabe, existe toda uma ansiedade típica dos pais para o período de alfabetização, o que em mim toma proporções de hecatombe porque na faculdade estudei aprendizagem, desenvolvimento infantil, aquisição de linguagem enfim, sou de Humanas. Repassem.

A coisa acontece mais ou menos assim: se seu filho troca algum fonema durante a leitura ou alguma letra ao escrever, você imagina que ele ainda não se apropriou dos sons ou da grafia do alfabeto, meu irmão também era assim, demorou com esse negócio de escrever porque só queria saber de jogar river raid, já já o moleque aprende, cada criança tem seu tempo, será que preciso levar guarda-chuva? o dia tá lindo mas esse tempo de Brasília é tão louco… Na minha cabeça eu penso que pode ser dislexia, algum sintoma de alimento neurotóxico que o menino ingeriu ou brincadeiras com restos de material radioativo ou algum atraso cognitivo grave, tudo minha culpa sou muito desligada, eu devia ter desconfiado, como foi que eu não percebi? de que adiantou estudar aquele tanto de teórico adicto se acontece debaixo do meu nariz e eu não tenho competência pra notar? Bela espécime de mãe, essa que eu sou… O fato é que, para enfrentar esse tipo de situação eu venho adotando uma fórmula científica utilizada no mundo todo, com resultados comprovados e publicados nas revistas internacionalmente conceituadas a respeito do tema que é: tomar florais de bach, acender incensos da autoconfiança e paz interior, realizar o banho de sais com flores brancas para centramento e mentalizando a luz azul do balanceamento dos chacras e equilibro energético.

Mas, olha, vou te contar que das poucas certezas que eu tenho na vida, uma delas é que hoje eu deveria ter trocado o floral por vodca, já que ao chegar em casa me deparei com isso:

Dia ensolarado num jardim florido e arborizado"

Trata-se de um desenho feito por uma garotinha de 6 anos com o verso do papel repleto de corações e dedicatórias para o meu filho, naquela linguagem que só quem jogava muito river raid em vez de exercitar a escrita iria entender.

Agora veja: é ótimo ter um filho querido pelos amigos, popular e extrovertido, com facilidades para estabelecer laços e cultivar o carinho das pessoas. Pensar que o filho será bonitão quando crescer e que tomara que ele seja um garoto legal com as namoradas - porque eu não crio filho pra ser babaca nem com garotas, nem com garotos, nem com nada nem com ninguém - é até natural, perceber que ele faz sucesso inclusive com os pais dos coleguinhas me dá orgulho, sim! Mas para uma pessoa com a minha história pessoal, olhar pra esse desenho provoca imediatamente pergunta do tipo:

em que momento da minha vida eu parei de exercitar o desenho, deixei de lado o traço e perdi a vontade de desenhar sol, árvores, flores, borboletas e declarações de amor, a ponto de ter certeza - daquelas tão absolutas que chega a desequilibrar os chacras tudinho - de que nunca conseguirei pintar um dia ensolarado e jardim florido que chegue aos pés do dessa garotinha de 6 anos?

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Todo castigo pra adulto é pouco.

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