A redução da maioridade penal, a intolerância social e a filosofia do brasileiro.

Há um tempo não muito distante, o Brasil enfrentava umas das discussões mais calorosas já pautadas em território nacional: a redução da maioridade penal.

O projeto de lei foi criado pelo ex-deputado Benedito Domingos, cujo defendia em seu texto que, conforme o passar do anos, o acesso à informação, a liberdade de imprensa e expressão se tornaram mais liberais, de maneira que jovens não necessariamente maiores de 18 anos já teriam consciência de discernir o que se dá como crime ou não, se tornando assim, responsável pelos seus próprios atos.

O assunto, além da Câmara, foi tema de inúmeros debates em redes sociais, programas de TV, bares de esquina e até mesmo alvo de especulações do que seria o tema da redação de inúmeros vestibulares. Portanto, sabemos que qualquer brasileiro frequentador dos ambientes citados acima sabem do que estou falando.

Ok, agora vamos voltar um pouco a história.

Não precisamos entrar em fatos históricos para saber que a estrutura socioespacial brasileira é sustentada por falhas. O sistema educacional público é falho: não existem professores o suficiente em sala de aula; muito menos substitutos. A comida é cortada, uma colherada a cada dia, fazendo com que as merendeiras operem o milagre de fazer o feijão da semana letiva durar os três turnos. A grade escolar? A cada ano fica menor. Uma matéria enxugada ali, outra aqui, que de acordo com o Estado (e às vezes o próprio professor) “não são tão importantes”. Papel higiênico no banheiro? Esquece. Traz o seu de casa. Se tiver.

Agora vamos somar isso a um jovem de classe baixa. Morador de comunidade carente. Que cresceu sem estrutura familiar adequada, muito provavelmente cercado pela criminalidade. Que talvez sim — seja incentivado a frequentar a escola, mas que compreende desde cedo que trazer comida pra dentro de casa é mais importante.

Logo, os caminhos se estreitam. A escola se torna um ambiente chato (isso se não foi desde o início). Os professores não estão em sala. Quando estão, as aulas não são nem um pouco dinâmicas. Os colegas de classe estão tão interessados quanto você — salvo àqueles que tentam arduamente entender o que foi aquela palavra que o professor rabiscou no quadro e se não entender, pesquisar a matéria em casa e tentar aprender sozinho.

Ah sim, os alunos esforçados. Chegaremos neles mais tarde.

À essa altura, o jovem pouco se importa com a escola e a frequenta literalmente para merendar. Sendo um ambiente pouco atrativo, o mesmo se torna entediado, volátil, pronto para novas experiências, de preferência mais excitantes.

Talvez seja nesse momento ou mais tarde que o crime lhe apeteça como uma solução.

Somos seres humanos. E nas condições apropriadas, nosso caráter pode ser moldado de acordo com aquilo que o ambiente externo deseja. Seja sob pressão ou influência de outras pessoas — você acaba se deixando levar justamente porque não sabe o que está fazendo e quais são as consequências daquilo. E talvez saiba, mas ainda sim faz, porque precisa.

O caráter de um homem é formado pelas pessoas que ele escolheu conviver.”

Em alguns casos, essa escolha não é tão prática.

E então, encontramos os elementos da fórmula de um brasileiro moldado às margens da pobreza e da criminalidade. Mas como sabemos (talvez nem todos), algumas equações têm sua exceção. E é nela que vamos chegar agora.

Não é todo jovem pobre que acaba sendo submetido pelo crime ou pelo simples desinteresse educacional. Porque mesmo partindo do mesmo ponto, algumas famílias mantém a premissa ideológica de que estudar é o que leva o ser humano a crescer na vida. E fazem com que seus filhos creiam nisso veementemente, mesmo tendo poucas condições financeiras ou sociais de fazê-lo.

E como sabemos que esses jovens existem?

Primeiramente porque, dependendo do seu ciclo social, você tenha amigos assim. Colegas bolsistas de faculdade. Cotistas. Pessoas que vieram do nada, batalharam, passaram noites em claro pra chegar onde você chegou.

E segundo, pela mídia.

Quantas matérias já não vimos sobre estudantes provindos de comunidades carentes, que estudando por conta própria, com o auxílio mínimo do governo, colocaram o corpo, mente e coração trabalhando de maneira integral naquilo que queriam — e se tornaram a manchete do jornal após as classificações do Sisu? Jovem morador de comunidade X tira 1000 na redação do ENEM.

E são essas pessoas quem ovacionamos. Esses jovens, que se pararmos para ter uma visão geral do ensino público brasileiro, sabemos que são a minoria, são as pessoas nas quais o governo se sustenta quando são pressionados por alguém insatisfeito. “Como assim o nosso sistema de ensino é ruim? Olha aí, a moça que nem tinha computador em casa, ia pra biblioteca estudar sozinha, tirava boas notas na escola, passou na faculdade! Nosso ensino não é ruim — são os jovens de hoje em dia que não querem aprender.”

Essa frase. Quantas vezes já não ouvimos essa frase?

Como, em um universo paralelo tangível, essas são condições agradáveis de se estudar e conseguir passar para uma faculdade?

Como alguém pode achar que se submeter à essas condições deploráveis de estudo e vivência são algo digno?

Isso tá errado.

Vivemos em uma realidade completamente distorcida, onde o governo põe casos extraordinários como esses em um pedestal e nos ensinam que “se fulano pode, você também pode”. E nós engolimos isso, sendo os primeiros a usar esse argumento como uma pedra contra o rapaz da Central que fica de olho no seu celular.

Nós, brasileiros, somos criados à base da cultura do “se vira”. Acostumados desde cedo a nos contentar com pouco, fazemos da tripas coração com aquilo que nos é oferecido. Eis um exemplo real e vivido por mim, dois anos atrás:

Fui aluna do Pronatec — Programa Nacional de Acesso ao Ensino Técnico e Emprego — e fiz um curso de Comunicação Visual durante um ano e meio. Pra início de conversa, logo quando entrei, soube que meu curso tinha sido cortado literalmente pela metade. Um curso que no ano anterior tinha a carga horária de 1600 horas, tinha caído para 800. A passagem sim, recebíamos — uma pra ir e uma pra voltar. Você precisa pegar dois ônibus pra chegar a instituição? Bom, o curso só oferece duas passagens. Compra uma bicicleta, sei lá. Se vira.

E o que dizer do cartão-alimentação? Tínhamos aulas de 4 horas diárias, com um intervalo de 15 minutos entre elas. Nesse intervalo, era suposto que pausaríamos justamente para fazer um lanche. Mas quem é que consegue comer alguma coisa com R$3 diários? Meses mais tarde, o preço da cantina dentro da instituição onde eu estudava aumentou. Um salgado com refresco passou a ser R$4,50. Mas a culpa não era da instituição, pois era particular e nada tinha a ver com o governo, apenas oferecia o espaço e o ensino (que apesar dos perrengues citados acima, era de excelente qualidade).

Mas afinal, quem sou eu pra reclamar? Uma estudante de colégio estadual que teve a oportunidade de concluir um técnico, fazer reclamações de que não podia comprar um lanche? Minha filha, faz uma marmita e leva. Se. Vira.

Percebem o quão tudo isso está absolutamente errado?

Aristóteles dizia que não podemos tratar com injustiça àquele que foi injustiçado. E como podemos apontar dedos pro “pivete” de rua se ele não foi concebido em um ambiente familiar estruturado? Em um convívio social amigável? Se não frequentou uma escola boa, não experimentou um ensino de qualidade? Como podemos culpá-lo se sabemos que suas condições são estritamente desfavoráveis para o “bom caminho”? Não podemos dizer que ele teve opção só porque existem escolas públicas onde o ingresso é gratuito. Estudei em colégio público a minha vida inteira e perdi as contas de quantas vezes cogitei em parar de estudar. Não é atrativo, não é amigável. E não, não podemos mais dizer que o que o governo nos oferece “está de bom tamanho”. É por conta dessa filosofia do “se vira” que continuamos apontando dedos para pessoas que, pra início de conversa, são tão vítimas quanto nós.

Se for pra apontar, aponte para cima. Os verdadeiros culpados nos olham de lá.

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