Carta aberta

Eu acho engraçado que até hoje a foto que você usa no whatsapp é uma que eu tirei de você no dia que você me machucou mais. Linda foto, como tudo que eu te fazia com tanto amor. Como o bilhete que eu deixei numa garrafinha do lado da sua cama e você por puro desinteresse não leu, como os e-mails que sempre te escrevi com tanto carinho, como aquele musical de Orgulho e Preconceito todo em músicas do Chitãozinho e Xororó que a gente viu junto e eu chorei.

E no dia que eu tirei essa sua foto eu também chorei. E no dia que veio antes, e em muitos que vieram antes e depois.

Sempre achei que determinados sofrimentos estavam reservados à pessoas inseguras, carentes ou que precisavam de outra pessoa pra se sentirem bem. Não era o caso, eu já me sentia ótima sem você mas foi uma grata surpresa quando te vi — um pouco mais alto que eu — usando uma jaqueta de couro, moldado pelas linhas da arquitetura singular do CCBB, um raio de sol batendo poeticamente num dos fios loiros do seu bigode.

Poeticamente. Desde o primeiro minuto que te vi, te interpretei com uma poesia. Eu gostava dos seus tropeços, das suas mudanças de ritmo e gostava também do drama, das emoções. Ter aquele romance completo era um prato cheio pra uma menina imaginativa como eu.

Achei graça quando você me desafiou a encontrar formatos fálicos em todos os quadros do Salvador Dalí e me beijou na chuva no meio da calçada de pedras portuguesas do centro da cidade.

Eu gostava de não saber como você ia agir no momento seguinte, de não saber exatamente como te agradar, gostava até de chorar. Sabia que o choro viria seguido de um pedido de desculpas seu e de momentos doces que eu gostava tanto. Até esquecia tudo de ruim que acontecia.

Na primeira vez você disse que ia se matar. Mas eu podia ficar tranquila, não era agora. Daqui a 5 anos. Porque sua vida era uma droga, seus genes eram ruins e você não queria passar adiante. Eu, ainda cheia de inocência, brinquei dizendo que seus cílios eram bonitos e que você teria filhos bonitos e inteligentes como você.

Na segunda vez, um ano depois, você disse que sempre quis fazer aquilo. Sorri satisfeita, porque era bom te satisfazer. Gostava de enrolar os fios de cabelo do seu peitoral e me aninhar ali pra fugir dos meus problemas, mas meu problema era você.

Na terceira vez você disse que não foi tão bom assim, eu disse que a culpa era sua porque eu era ótima e você disse que eu reclamava de tudo e que era por isso que você não me levava a sério.

Eu te levava a sério. Devotamente. Dedicava minhas horas aos seus projetos, me desdobrava pra cuidar de você. Escrevia, lia, revisava, agendava, motivava… Sempre preocupada em te ser uma mulher completa e madura.

Cozinhava pra você, e até disso você reclamou: “Eu gosto mais de usar meus fins de semana pra comer em restaurantes!”

Fui ficando triste, cada dia mais.

Cada dia que passava você me sugava, me usava, me manipulava e eu sempre sem perceber. “Você é tão madura pra sua idade!”.

E você tão imaturo pra sua, achava eu. A gente gostava das mesmas coisas, conversava de igual pra igual mesmo com a diferença de idade e de classe social, cantarolava as mesmas músicas e eu fiquei especialmente feliz naquele dia em que a gente foi da Barra ao Nova América com você dirigindo com uma mão só e segurando minha mão com a outra.

Mas às vezes você ficava bravo demais se eu ganhava de você no jogo de cartas que você me ensinou a jogar.

“A gente vai dar um jeito, é algo que a gente quer.” Eu tenho até hoje essas palavras ilustradas em um dos nossos muitos emails.

Algo que você queria. Ter alguém pra te endeusar, pra te botar pra cima, sem nunca pedir algo em troca. Eu não queria quase nada em troca, só queria seu amor.

Várias vezes você fingia que me amava. “Eu tenho amor por você”, “Isso que a gente tem é muito especial pra mim”, usava toda a sua habilidade — que, honestamente, não é tão grande assim — de escritor pra fazer jogos com as palavras e comigo.

A gente terminou muito mais que começou, e eu odiava isso.

Os dias em que decidia me afastar de você eram sempre os mais tristes. Mas você sempre voltava. Uma semana depois, um mês depois, um ano depois. E eu até gostava de carregar comigo essa certeza, você era ‘família’, como eu ingenuamente dizia.

Mas teve um dia que você voltou e eu não queria mais. Imagino o golpe que foi pro seu ego, você me acusou de muita coisa e ainda assim eu tive paciência de te explicar que tinha finalmente compreendido tudo que você fez comigo.

“Você tá certa. Da primeira vez já foi ruim, mas admito que dessa vez teve requintes de crueldade. Me desculpe.”

Como se alguém pudesse ser desculpado de algo tão ruim.

Esses dias fiquei sabendo que um livro seu foi premiado. Um livro com uma protagonista chamada Krishna. Espirituosa e que ama química. Lembro de ter chorado quando li o manuscrito porque via no enredo uma metáfora da sua visão pra nossa história, obviamente com um final triste pra mim, como de fato foi.

Nesse dia que soube do prêmio chorei de novo, quando achei que nunca mais iria chorar por isso. Não me parecia justo depois de tudo que você arrancou de mim que continuasse recebendo glórias às custas da minha personalidade, do meu jeito. Você só escreveu aquele livro porque eu te incentivei.

Depois eu parei de chorar e achei graça. Graça do homem horrível que você é. Graça de que você provavelmente tava recebendo aquele prêmio sozinho porque ninguém gosta de você, e você sabe. Graça de que hoje eu tô aqui, recomposta, rodeada de gente que eu amo e já tendo vivido um número sem-fim de amores muito melhores do que o nada que você tinha pra me oferecer.

Você pode até ter sido premiado, mas acredito que prêmio nenhum anule as inúmeras pílulas que você toma pra ter que lidar com o monstro que você é.

Graça porque por trás daquela foto iluminada, com a paleta de cores lindas e o ângulo perfeito que eu tirei no pôr do sol no terraço do Village Mall, eu sei como você se sente.

Graça porque sei que quando você fecha seus olhos — amarelados por causa da sua doença — antes de dormir, os demônios que você mesmo criou, não só comigo mas também com outras mulheres, te atormentam.

E me sinto melhor ainda comigo mesma por ser tão incrível que virei personagem de livro. Preferia que tivesse servido de inspiração pra um autor melhor, mas ainda tenho tempo.

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