Pré-carnaval 

Tentando entender o carnaval carioca


Após anos de namoro, recentemente me ví solteiro e no Rio. Estar no Rio era algo que eu poderia prever, afinal sempre morei aqui. Foda seria se eu tivesse em Barretos.

Mas por obra do destino (e de várias decisões que eu tomei deliberadamente, no qual o destino não tem nada a ver com isso) a última vez que eu tinha pulado carnaval solteiro eu era muito novo e bobo. Hoje, com o passar do tempo, eu não sou mais tão novo. As outras situações eu estava namorando. Pular carnaval namorando, é que nem querer comer um bolo de chocolate, mas o bolo não tem chocolate e tem um cara te estuprando enquanto você assisti sua casa pegando fogo — com seus familiares dentro.

Mas então, esse vai ser o meu primeiro carnaval no qual poderei entender o espirito do folião e ter uma história carnavalesca. Pode parecer bobo, mas eu sempre quis ter uma história de carnaval. Daquelas que no meio de uma conversa eu olho para cima dou um meio sorriso (um sorriso meio Richard Gere) e falo "ahhhh aquele carnaval de 2014…". Só queria isso.

Com esse foco, comecei a me preparar e frequentei juntos com uns amigos o que chamam de "pré-carnaval".

O pré festejo já foi o suficiente pra chegar a uma conclusão: eu não entendo muito bem carnaval.


Eu não vou entrar naquele discurso chato de "bla bla só putaria", porque eu não acredito nisso. Escuto muito esse discurso de que a promiscuidade no mundo está em níveis alarmantes. Isso pode até ser verdade se pautando no que passa na televisão. Mas em questão de vida, eu, pelo menos, não estou transando tanto assim. Uma galera que eu conheço também não está transando tanto assim. E pelo comportamento de muitas pessoas (incluindo as que reclamam da promiscuidade) dá pra ver que também não estão transando tanto assim. Talvez essas filmagens de baile funks, e do trios elétricos de Salvador sejam produzida numa ala secreta no projac encenadas por atores recusado de malhação. Mas na vida, o que está fora da televisão (e não tem nenhuma semelhança com o que tem lá dentro), não vejo esse desrespeito aos valores do bom costume além de eventualmente uma saia um pouco mais curta que o normal.

Também não vou naquele discurso de "3 dias que ninguém trabalha", porque gosto de pensar na minha pessoa sendo uma que não é insuportável.

O que não entendo em si do carnaval, é como de um mês para o outro tanta coisa muda. No mês de Janeiro contava com uma habilidade no qual sempre considerei muito útil: eu conseguia distinguir com facilidade entre algo que era humano e algo que não era. Conseguia apontar rapidamente para algo e dizer "isso é uma pessoa", ou em outros casos "isso não é uma pessoa, isso é um cinzeiro". O meu grande segredo, era que me pautava em algo chamado anatomia. Tipo, homem vitruviano, e tal.


(Não que eu seja um exemplo de homem que segue o padrões de beleza simétricos grego-romano. Pelo contrário, não sigo esse padrões deliberadamente por pura rebeldia com o sistema. Corrijo todos que me chamam de feio, prefiro o termo “anarco-belo”. Nada mais justo para um experiente guerrilheiro na “organização de libertação da beleza”.)


Levava a risca, que majoritariamente uma pessoa tem dois braços, duas pernas, uma cabeça e um tronco.

As pessoas tão tomando muita bomba! Isso fica muito tão acentuado no carnaval, que tenho que rever todos meus conceitos de anatomia. Tem uns caras, que não sei se é para economizar dinheiro, ou má aplicação da droga, que parece que apenas desenvolve os seios. Mas não é o caso de ficarem com seios maiores, mas sim dois calos que parecem mais o nascimento de uma nova cabeça no tronco. Algumas vezes, no carnaval, você tem a impressão que ninguém estaria mais apto a filmar aquilo do que Cronenberg. Com isso, toda aquela habilidade se torna inútil, e me vejo pensando "isso é uma pessoa, ou uma porta chapéu kitsch".

Em relação a esse negócio de bomba, eu tenho um amigo que faz parte de todo esse estilo de vida que permeia os frequentadores mais assíduos da academia. Segundo ele, realmente a galera que toma esse tipo de droga tem um consumo maior nessa época do ano. Eu nunca fui muito de academia, isso é visivel. Tanto fisicamente, quanto pelo cuidado que demonstro quando sento em cadeiras de plástico. Mas fico imaginando, se na bodytech tem uma masmorra ou um calabouço, com bombados jogado em meio a seringas e mulheres se prostituindo por uma cheirada de whey protein.


Como aquele melzinho é legalizado? Acredito que a receita seja mel, corante, e alguma substância que destrói famílias e sonhos.


Depois eu continuo esse tema. Sono.