Constelações pigmentadas

“Tu sabia que esses restos de conchas que tu vê são como estrelas?” Ele me disse. Olhei atônita de volta, nunca havia passado pela minha cabeça aquela ideia. Nós andávamos por Enseada de Brito, no litoral catarinense. Mas como eu não havia pensado naquilo antes? Eram constelações de conchas que saltavam aos meus olhos e que eu havia escolhido ignorar. Olhei de volta, como se aquilo fosse óbvio e eu não parecesse uma insensível e disse: “Claro que são constelações, acho que eu até consigo ver o Cruzeiro do Sul”, como quem tenta fazer uma piada no momento certo. Cruzeiro do sul era a única constelação que me veio à cabeça, talvez a única que eu conhecesse também, mas tinha que esgotar ao máximo meus conhecimentos interestelares naquele momento. Ele disse que nesse caso, o do mar, o céu seria a infinidade de areia e as estrelas todos aqueles restos de conchas que a gente podia ver, só que mais bonito, já que as cores possibilitavam um ar mais alegre. Nunca havia pensado na palidez das estrelas, mas elas de fato o são, em contraste com aquelas conchas tomadas de pigmentos uma estrela tão distante me pareceu bastante sem graça. Nós tocávamos nas conchas juntos, e nisso as ondas do mar que morriam aos nossos pés vinham sempre renovar o acúmulo de conchas, cada vez mais coloridas. Aquele turbilhão de informações, mesmo que me ditas em poucas frases, fizeram quase um tsunami na minha mente e por um momento eu pensei temer as ondas que morriam na gente. Depois de um tempo em silêncio, ele me disse que até achava que a formação de ambas eram muito parecidas, enquanto as estrelas eram resultado de uma nuvem de gases que se dividiam em milhares de partes, aqueles resquícios coloridos foram um dia uma grande concha que também se dividiu. Eu não respondia nada, queria aproveitar aquele momento em silêncio, queria congelar aquele segundo em que me senti profundamente feliz, mesmo que não fizesse a mínima ideia do que fazer com aquele novo conhecimento. Como eu nunca vi isso antes? Era a única coisa na qual eu conseguia pensar. A vida tem dessas obviedades que saltam aos nossos olhos e que a gente escolhe ignorar. Um céu aos meus pés, sendo este possivelmente tocável, e eu apenas concentrada no horizonte que o sol formava quando tocava na água, ou nas ondas quebrando, e essas coisas mais grandiosas que o mar proporciona aos nossos olhos. Mas pros pés? Ah, pra esses pouquíssimas vezes eu havia olhado. Cansamos de ver as ondas quebrarem e continuamos a nossa caminhada.

Fisicamente, eu não vi ele uma segunda vez, mas posso dizer que através de memórias ele sempre virá ao meu encontro, já que o seu olhar sobre as constelações de conchas mudou o meu de certa forma. Agora, toda vez que eu perceber aquele acúmulo de restos de cousas na areia vou lembrar desse seu olhar, e vou lembrar de olhar mais próximo, praquela brevidade de instantes e não tanto para horizontes. As constelações pigmentadas foram a minha vivência daquele dia, e por mais que eu nem saiba bem o que esse novo acontecer fez em mim, eu não tenho a ânsia de outrora em saber. Quem sabe essa nova vivência seja como as obras de arte, em que alguns sentidos só chegam depois que construirmos roupagem e adquirimos algumas camadas de significado ao longo da vida? Pelo menos eu sei que as constelações pigmentadas são eternas na minha memória.

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