Janela indiscreta

(Não sou criativa, o nome é esse mesmo que vocês estão lendo.)

A janela é quase nosso recorte de mundo, é aquilo que o concreto te permite enxergar, e daí tu vê como faz o melhor proveito de tudo. Aquele prédio lá distante que eu vejo aqui da sala já é tão familiar que não consigo imaginar uma paisagem sem ele. Aquelas antenas do prédio ao lado já não são mais tão feias, quando olho pelas manhãs da janela da cozinha posso jurar que às vezes elas me dão bom dia. Os pessoas do prédio vizinho que sempre escutam Chico não sabem meu nome, mas eu posso afirmar que conheço o gosto musical deles como ninguém. Na sacada, as feições daquela idosa que sempre se senta tranquilamente pra contemplar o movimento me são bem íntimas, só não mais do que as rugas do rosto de minha avó, que comecei a observar ainda quando pequena. O roteiro que o vizinho do apartamento da frente faz quando sai pra passear com o cachorro pela noite eu poderia traçar em um papel das vezes em que pude vê-lo. Temos tanta intimidade com a porta de entrada, eu e esse vizinho (por todos dias em que já passamos por ela), que me sinto quase sua irmã. Formamos um família: eu, ele e a porta de entrada.

E eu sigo olhando pela janela, examinando os ruídos, percebendo o quão familiar são alguns e o quão inéditos são outros. Se não me chamassem de louca, até diria que essa paredes gritam histórias e me convidam a vivê-las, mas sei que é demais pro nosso entendimento racional de mundo. Agora o sol quase me violenta com sua luz por vezes tão incipiente, mas sei que não é, ele vem aqui tantas vezes, deveria se considerar de casa. A mais atrevida de todas é a chuva, essa não pede licença nunca, já até me conformei, revoltada que é. Quanto à lua, essa vai chegar mais tarde, e aquela tonalidade branca tão peculiar eu poderia descrever com muita clareza, não é simplesmente um branco, é um tom único. Mas a lua é contida, não ousa trocar palavras.

Às vezes, mesmo da janela, me sinto tão invadida pelo mundo que fecho-as, faço uma espécie de retiro espiritual pelos cômodos cerrados, me recupero e logo abro-as novamente. Daí, nos cumprimentamos como velhos amigos e logo tudo pra mim já é muito familiar. A paisagem me acolhe, e ao passo em que ganho profundidade de campo, me sinto mais e mais em casa. Hoje eu descobri uma antena nova, mais feia que as outras num primeiro momento, o que me tranquiliza é que em uma semana, se eu insistir em olhá-la, ela já vai ser bela. Mais que isso, vai ser mais uma das minhas amigas quinquilharias de mundo. Peço licença para ir, essa nova antena requer mais alguns instantes de observação, esse primeiro momento de descobrimento é um dos meus prediletos.