Malboro

Tenho que te dizer, rapaz, que eu sou como a cinza do cigarro que tu fumas, eu não pertenço a ninguém. Tu não me vês, mesmo que pense me ter, tu não me sente, mesmo que ache saber tudo sobre mim. Eu sou frívola como esses restos de tabaco queimado que tu acabas de bater no chão, eu existo, mas eu não estou lá. Eu me dissipo quando toco em algo sólido, eu só existo no vento, eu só existo para não ser. Quando algo se torna constante, eu me esparramo pelo chão como as centenas de partes que uma cinza possui, e fujo pro nada. Nem os garis me acham, isso que eles passam o dia inteiro procurando restos de coisas por aí. É que eu fujo sempre inteira, eu tenho essa mania. Eu não me esfarelo, eu me uno. Minhas partes se separam quando eu ainda estou no ar, mas quando eu toco o chão já sou uma só, aquela do início. Desculpe, rapaz, devia ter te alertado antes, mas sou a cinza sem nunca ter sido tabaco, e o teu querer se volta sempre pra esse cigarro caro e mentolado. Lamento, mas é demais pra mim. Tu tragas esse cigarro tão despretensiosamente que às vezes me pego querendo ser ele, a fumaça que sai da tua boca me chama pra perto dos teus lábios, mas meu destino é ser cinza, tem um chão à minha espera, tu não entendes? Desculpe, moço, mas sou cinza e tenho que ir.