O feminicídio pelos olhos de Frida

Afinal, o que é ser mulher? O que faz de mim uma “dama”? A vulva? Os peitos? Os cabelos? A doçura? A delicadeza? Afinal, quem sou eu? Muitas construções perpassam a condição de ser mulher que construímos, muitos padrões são criados e assimilados como regras em um mundo que não dá margem para a liberdade individual de cada um ser quem se quer ser. Essas construções são perigosas, elas matam! Num sentido de gradação de violência, a consequência mais cruel às mulheres é a existência do feminicídio. Frida Kahlo criou muito sobre a condição de ser mulher, e já em seu tempo denunciava a violência descabida contra o sexo feminino. O quadro “Unos Cuantos Piquetitos” dói, e dói por estar tão atualizado.

Unos cuantos piquetitos (Frida Kahlo, 1935)

A existência de feminicídios tão cruéis, por mais que nos consideremos a civilização mais avançada de todos os tempos, é absurda. Mulheres morrem todos os dias pela simples condição de serem mulheres. Na intenção de servir de alerta, uma das abordagens do meu TCC foi justamente essa. Com a onda conservadora que anda a solta por aí, é muito comum que as pessoas neguem o feminismo, digam que ele não precisa mais existir, ou pior, que já alcançamos a igualdade de direitos. Mas quando eu me deparo com os dados de mulheres vítimas de atos feminicidas, tenho a mais absoluta certeza que o feminismo precisa existir sim e muito. Se qualquer pessoa sensata pensar nessa perspectiva vai concordar. Tomei a liberdade de resgatar alguns trechos do meu TCC para que os dados, pesquisas e informações sirvam de alerta pra todos.

Começando pelos dados de feminicídio, eles são alarmantes. Segundo o Mapa da Violência 2015: Homicídio de Mulheres no Brasil, elaborado pela Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais (Flacso), o Brasil é o 5º com maior taxa de homicídios de mulheres, com uma taxa de 4,8 assassinatos a cada 100 mil mulheres. Vocês tem noção da dimensão disso?

E sabe o que é mais bizarro ainda? Por mais que a mulher seja a vítima, parece que ela sempre é a culpada. A sociedade sempre vai em buscas de desculpas pra justificar a ação dos homens. Reproduzem uma ideia dogmática disseminada frequentemente de que cabe à mulher, independente do que aconteça, a culpa ou o silêncio, apenas. A origem do conceito é antiga, já na Bíblia, é Eva a culpada por Adão comer o fruto proibido, ela o teria induzido. A ideia de as mulheres serem pérfidas e insidiosas foi reproduzida, e ainda é, em todas as dimensões sociais. Cleópatra foi a rainha do Egito Antigo que usava sua beleza e sedução para manter-se no poder, Capitu, no romance Dom Casmurro, de Machado de Assis, tinha olhos de “cigana oblíqua e dissimulada”, fazendo o perfil de um alguém que não se pode confiar. Ou ainda Iara, a sereia dissimulada que levava os homens pro fundo do rio, personagem do folclore brasileiro. O caráter negativo sempre é conferido às mulheres e encontra respaldo na sociedade patriarcal.

Marcela Lagarde, antropóloga mexicana feminista, diz que os agressores muitas vezes são taxados de serial killers, doentes, loucos ou psicopatas, culpabilizando a possível “patologia” pelos seus atos hediondos, quando, na realidade, os únicos culpados pelos crimes são eles próprios, os assassinos. Ela ainda diz que esses indivíduos são parte de um sistema de comunicação e poder que estabelece formas de controle totalitários sobre corpos e territórios. Assim, o feminicídio ocorre em meio ao silêncio, à omissão e à negligência das autoridades encarregadas de prevenir e erradicar esses crimes, ou seja, até nos meios encarregados de defender as mulheres há a cegueira de gênero e preconceitos sexistas. Lagarde aponta que, quando o estado é parte estrutural do problema, com seu aspecto patriarcal e com a defesa da preservação dessa ordem, o atentado a mulheres passa a ser um crime de estado.

A desigualdade entre homens e mulheres, assim como a dominação dos homens sobre as mulheres, fazem da violência de gênero uma realidade, a qual torna-se causa e efeito. Ao mesmo tempo em que ela é consequência, é também um mecanismo de reprodução da opressão sobre as mulheres. Dessa forma, das condições estruturais surgem as condições culturais, como o ambiente ideológico e social do machismo e da misoginia e a naturalização da violência. Somado a tudo isso, existem pouquíssimas políticas governamentais voltadas ao combate do feminicídio, recentemente no Brasil que se instituiu a Lei que pune atos feminicidas, contudo, ainda é muito pouco tendo em vista a complexidade do problema. O reflexo direto é a impunidade, que acaba por ocasionar a insegurança das mulheres em todos os âmbitos sociais e, mais cruelmente, favorece o conjunto de atos violentos.

Essa obra da Frida “ Unos Cuantos Piquetitos” de 1935, é tão tocante, é tão cruel, e é cruel por ser perigosamente próxima da nossa realidade, ser a nossa própria realidade materializada por pigmentos de tinta. Que continuemos na luta, porque enquanto mulheres morrerem pelo simples fato de serem mulheres, o feminismo irá existir sim.