O que eu aprendi com a minha “mãe francesa”

Foram três meses de convivência intensa. Cheguei achando que eu ia me arrepender de não ter contratado uma estadia com refeição. Afinal, ela me recebeu com uma torta incrível de alho-poró e salada e a sobremesa foi uma compota de maçã de comer de joelho. Mas bastou uma segunda noite para eu entender que o tinha lido nos livros sobre como ser uma francesa e os hábitos dos franceses não eram completamente verdade.

Todas as noites, a minha madame d’accueil jantava sopa de caixinha comprada no mercado que se vendia como bio. Todas as suas refeições eram acompanhadas do apresentador do telejornal. Enquanto eu jantava sozinha na cozinha. Confesso que tinha um pouco pavor daquela rotina: sopa de caixinha + a companhia da TV.

Mas de negativo só tenho essa observação. Todos os dias ela acordava às 7h e fazia uma hora de saudação do sol – um movimento bem complexo e importante do ioga. Depois, ela tomava uma café da manhã reforçado com frutas, café preto e amêndoas. Todo o lixo da casa era reciclado. E ai de mim se colocasse um papel na lixeira errada. Os produtos de limpeza da casa eram todos com selo de que não fazia mal ao meio ambiente. Suas roupas eram compradas no brechó e todos os legumes, pães, vinhos e queijo da casa vinham de pequenos produtores na feira bio no centro da cidade.

Uma vez tive o prazer de acompanhá-la em um dia de compras. Eu achei tudo cool — ou chouette, como dizem os franceses — até que ela me advertiu: você viu como você pode comprar produtos melhores e menos caros quando você compra direto das pessoas que os fabricam? E assim você ajuda a economia local e não o dono do supermercado a ficar mais rico.

Aquilo me veio como um tapa com luva de pelica. E de repente tudo fez sentido na minha vida e nas minhas compras semanais no mercado da cidade. E passei a entender por que ela achava todos os vinhos e queijos que eu comprava no mercado ruins. Realmente, por que eu não poderia trocar o mercado pela feira? Por que não usar o meu dinheiro como uma forma de ajudar as pessoas e me beneficiar?

Nos finais de semana em que eu ficava em casa, ela sempre me propunha passeios por lugares perto da cidade. Uma praia de nudismo, um lago afastado de tudo ou qualquer outro lugar de natureza “selvagem”. E sempre ela passava minutos longos observando horizonte, tocando a terra, colhendo conchas, cheirando flores. Até que em momento me disse: “acredito que o maior problema dos homens é a falta de contato com a natureza. Tocar na terra, sentir ar puro. Se eles tivesse esse contato não destruiria tanto o planeta. Não haveria tanto desequilíbrio”.

Nas eleições, ela me deu mais uma lição de democracia e consciência. O diálogo foi mais ou menos assim:

– não consigo entender porque os jovens que votaram no Melenchon não vão votar no Macron. É uma atitude muito radical. Porque isso aumenta a chance da Lepen ganhar.

– mas a juventude é radical.

– …

– mas eu vou fazer esse sacrifício pelos jovens. Porque eu sei o perigo de deixar a extrema direita ganhar.

Justo ela que tinha voltado no candidato de extrema esquerda e tinha horror do Macron. E eu fui com ela no dia do seu ato cívico.

Todos os dias ela me ensinava algo sobre a solidariedade preocupação com o mundo e que a gente faz parte de um todo em um universo maior. Que a nossa parte não pode ser um ato egoísta. E tudo é um reflexo.

Aos 60 anos, ela limpava sua casa sozinha, caminhava firme, passava horas lendo em uma poltrona na sala, atendia ligações com um fone bluetooth e conversava com os amigos andando pela sala, se informava por diferentes veículos de impressa – do jornal nacional francês, rádio aos sites de jornalistas independentes –, amava Frida Kahlo, amava dirigir e cuidar das suas plantas no terraço. Uma vez por mês seus filhos vinha jantar com ela. E uma vez por semana ela dormia com a mãe de 90 anos. Às vezes, ela parecia um pouco mal-humorada. Mas acho que fazia parte do charme francês. Detestava vinhos que não sejam tintos. Mesmo no verão.

Agora ela iria se aposentar e tinha um pouco de medo de não saber o que fazer com tempo livre. Seu primeiro projeto erapintar sozinha todo seu apartamento alugado.

E eu espero que um dia ela visite o Brasil para comer banana nanica que ela dizia amar tanto e conhecer as nossas praias e os nossos parques no planalto central e quem sabe a Amazônia. E quem saiba eu possa contribuir um pouquinho de tudo que aprendi. 💕