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A “gourmetização do sofrimento” — o que o filme “Divertida Mente” pode nos fazer refletir sobre o tratamento dado à tristeza

Essa deve ser a primeira vez em que inicio um texto pelo título desde que eu soube que não se faz redação se iniciando pelo título. Mas demorei a amadurecer essa ideia de como nos relacionamos com o sofrer nos dias atuais.

Para quem assistiu o incrível filme “Divertida Mente” recentemente, sabe que a tristeza (Sadness) tem um papel importante na evolução da pequena menininha, da qual esqueci o nome agora. Algo tipo Belly, Chelly… Enfim. A questão é que, agora te prevenindo de alguns spoilers, a menina era toda plena de Alegria (Joyness). Pouquíssimas vezes, a tranquilidade de um choro ocupava os comandos centrais do cérebro da jovem protagonista do enredo.

Não errou quem disse que essa animação da Pixar cá aludida se tratava de um “desenho para adultos”. Lembro estar na sala do cinema percebendo que a criançada não era a maioria que ria e se emocionava com o filme. Eram os adultos que mais se identificavam. Algumas horas, tive até que engolir o choro para não envergonhar o meu namorado, que estava assistindo o filme comigo (e se sensibilizou igualmente, embora não seja lá uma pessoa muito emotiva).

Afinal, quem são os monstros que tentamos ignorar em nosso subconsciente, como mostra o filme numa determinada parte? Para a protagonista, era um palhaço de uma festa de infância. Mas, e para nós?

Bom, se eu for tirar por mim, posso elencar vários: meus monstros internos têm a ver com ser frustada na vida; decididamente, tenho que conseguir o emprego dos sonhos, o relacionamento dos sonhos e, por alguns momentos, também penso que a família dos sonhos.

E de onde vem isso? Cheguei à conclusão, nada embasada teórica, mas sim intuitivamente, que as pessoas da modernidade destinam sua “parcela de sensibilidade” a filmes, músicas e demais segmentos de artes. Mas, na vida cotidiana mesmo, ignoram isso.

Ninguém quer deixar de ir naquela reunião importante de trabalho por que tem um amigo passando mal e precisando ser levado ao hospital. Afinal, o que vão pensar de mim? Podem me ignorar na próxima reunião. E aquela chance de promoção? Ah, vai ladeira abaixo…

Ficamos engessados para o sentir, isso que não percebemos. Admiramos a frieza de um japonês para os setores da vida e queremos ser dessa mesma forma, mas, curiosamente, esquecemos as elevadas taxas de suicídio pelas quais o Oriente é notado. Queremos a determinação de um norte-americano para os esportes olímpicos, mas ignoramos os malucos que entram numa sala de cinema e metralham inocentes sem titubear, depois tirando a própria vida.

Pensei cá comigo e tive a necessidade de externalizar que: falta mais intimidade com o sofrimento. Tanto que conheço gente que até hoje não vai a cemitério, por medo, pelo mistério envolvido. Muitos não sabem segurar, superar a própria tristeza.

Quanto a mim, posso dizer que tenho um contato íntimo com ela. Chego a chorar muitas vezes numa mesma semana. Choro pelo comercial que te faz criar uma conta bancária, choro pelas baleias que morrem num outro lado do mundo e choro, sobretudo, pelo sofrimento humano de quem não tem como escolher se sofre ou não: os pobres, famintos e deixados à margem da sociedade.

Lembrei, também, o caso de um conhecido meu. O cara é bonito, interessante, engraçado, “viajado”, tem boas condições financeiras (porque o pai é militar), gosta de Harry Potter e pode ter qualquer mulher a seus pés. Mas, numa das vezes em que esbarrei com o rapaz, ele foi dar uma mexida na própria bolsa e despejou uma grande quantidade de remédios psiquiátricos numa mesa… Quem diria? Como que o cara que tinha tudo para ser bem resolvido não o é? Ora, não demorou muito para ele trancar a faculdade e fazer a dita “viagem de auto-conhecimento”, mais conhecida como “ir sofrer em Paris”.

Não é culpa da geração que nos precedeu, mas fomos criados para ignorar sentimentos. Ao mesmo tempo, como me ensinou uma amiga muito astuta, o brasileiro foi feito para ser “cordial”, algo que vem do latim e significando “que vem do coração”. Ficamos embolados, perdidos nesse paradoxo, entre fazer o que quisermos da vida e temos vocação versus estudar para um concurso público e conseguir o emprego que dá estabilidade. Entre a aventura amorosa que empolga e não dá sossego versus o relacionamento sem sal que só serve para justificar que você não está sozinho e é desejado por alguém. Somos uma confusão toda e não sossegamos quieto, caindo de paradoxo em paradoxo.

Por quê isso? Ficamos que nem a garotinha do filme, só que em vertentes diferentes: revoltadinhos de Internet, irônicos sobre futebol e debochados sobre os defeitos alheios. Isso por acreditar que somos bons demais para nos entregar à tristeza e não merecemos isso. Somos apreciadores da tristeza gourmet.

O que eu não consigo deixar de pensar é: parece que somos todos tão obsessivos pelo controle que ficamos sujeitos, submissos a ele! Não nos deixamos perder mais hoje em dia: para tudo tem GPS. Ou melhor, quase tudo. Talvez tenhamos excluído a localização da Sadness em nosso Google Maps.

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