Conto Pelas tramas de M. LÚCIA — PAIVA, Karolline. 2013.

CAPÍTULO III
Das divagações

Júlia não era muito fã de livros. Como qualquer adulto que viu seus sonhos serem desmistificados pela sociedade avassaladoramente materialista, ler romances e seus variantes era o mesmo que provar de uma nuvem feita de algodão-doce — temos ideia de como deve ser a aparência e a sensação do gosto, mas sabemos que é inefável e de cunho conotativo.
Mesmo não sendo muito dada às letras, Júlia conseguia ler o rosto da filha como ninguém, pelo menos ainda, poderia fazer. M. Lúcia também não colaborava. Ficar pensativo e aéreo pode ser considerado um dos maiores defeitos ou qualidades de qualquer escritor. Você acaba por se desligar das pessoas e dos momentos a sua volta, teme que o dia passou e você não passou por ele. Tudo em troca de se deixar algo para a posteridade, toda uma espécie de egoísmo ou de solidariedade para com as futuras almas desconsoláveis, que ficarão a se perguntar: que autor virá agora me socorrer e me fazer companhia nessa noite fria e solitária? Os personagens — aqueles que pedem voz, sobre os quais tratei no início desse romance — também necessitam do autor. Seriam eles egoístas ou solícitos? Seriam eles, estrelas competindo pelo papel da protagonista em um filme de sucesso ou meras pessoas fictícias que querem ser documentadas, porque foi essa a função que lhes couberam desde sempre?
Confundo-me. Estou eu dissertando sobre um triângulo amoroso entre leitor, autor e personagem ou… Prosopopeias: é isso que as vozes dos personagens pedem que eu ocupe sua mente, leitor. Estou sendo sincera agora. A questão é que temos um trato, o meu eu-autor e o meu ele-personagem: quando o meu-ele estiver cansado de narrar-se, quiser fazer uma pausa para ir ao banheiro ou para tomar partido de outras prosas, ele requer que eu encha a sua paciência com uma profusão de figuras de linguagem. Estamos em um vale-tudo da língua: desde metáforas a sinédoque, desde palavras novas que farão o leitor curioso abandonar de forma temporária o livro e pesquisar — ou não — o sentido desse novo termo.
Enquanto meus personagens descansam, o meu-eu vem desabafar algo totalmente válido e que, ao que me consta, já se sucedeu a outras pessoas também: palavras novas nos perseguem. Quem nunca deixou de verificar o sentido de algo como “inexorável” e, ficando a palavrinha com um orgulho danado porque você não lhe deu a atenção devida, inicia a atrevida todo um processo de aparecimento em todos os meios de comunicação possíveis e deixando-lhe intrigado? Ora, se você fosse uma palavra, você entenderia o quão complicado é encher-se de prefixos, sufixos e latinismos e, no final, quando você espera ser desvendado… Ninguém vem contemplar. A mesma coisa que acontece com um ator que decora uma Ilíada para apresentar no palco e, ao lá tomar sua marcação, não há expectadores no anfiteatro. Pois bem, talvez o meu-eu retome esse tipo de divagações, mas agora que meus personagens já tiveram sua pausa — e a escritora, tendenciosamente, aumentou seus parágrafos -, podemos redirecionar-nos à narrativa de M. Lúcia.
- Você está estranha, Maria. — pronunciou-se Júlia, já na sala de estar da casa das duas. — Aconteceu alguma coisa?
Como responder se nem M. Lúcia saberia informar o que tinha acontecido? Que ela estava estranha, disso M. Lúcia já tinha consciência. Mas o que aconteceu?
- Vai ficar calada aí? — insistiu a mãe.
M. Lúcia entende que não dar uma resposta iria piorar a situação já complicada entre Júlia e si mesma àquela noite. Resolveu, então, falar algo não muito convincente a nada falar:
- Estou com raiva da minha colega…
- Não faz sentido você não querer pisar na biblioteca, a isso é que estou me referindo.
M. Lúcia, trêmula, tentou embasar melhor, seus argumentos:
- Tenho prova na semana que vem, se eu ficar lendo muito, posso acabar não estudando o que é mesmo da matéria…
Júlia ainda erguia uma sobrancelha desconfiada:
- Maria, você não pisou na biblioteca. Você sempre fez isso em qualquer período, tanto em provas quanto sem. Arranje outra desculpa.
M. Lúcia via a teimosia de Júlia imperar. A garota engoliu em seco e continuou — no intento de não dar margem a mais brigas se outra versão da história contasse:
- É realmente isso que quero fazer, não é uma desculpa…
O semblante de Júlia toma forma daquilo que toda mãe domina e que quer dizer “não acredito que você vai mentir para mim, mas depois eu vou te pegar desprevenido e descobrir tudo o que você quis me esconder”. Afinal, os pais conhecem verdadeiramente os seus filhos. Parece até que aqueles são graduados em uma faculdade de detecção de mentiras antes de conceber estes.
Ademais, uma mentira faz o tom de voz mudar, o ritmo e o cadenciar das palavras igualmente. É como se estivesse se realizando uma repetição progressiva daqueles momentos em que os adultos pedem para ficarmos quietos quando arrumados para visitar a casa da tia e prometemos que vamos cumprir o estabelecido. No entanto, basta que eles desviem a atenção, para nós corrermos para a liberdade feliz de se sujar e chegarmos todos descabelados no tal lugar — a velha máxima de que, quanto mais proibido, mais tentador e mais feliz a sua realização. Bem, não é uma velha máxima, é mais um pensamento meu que vive a assombrar determinados inocentes.
Mas M. Lúcia aproveita a deixa e retira-se para o seu quarto, a fim de evitar mais chances de questionamentos e interrogatórios. Júlia ainda cria a hipótese mental de deter a aspirante a rebelde juvenil, mas, em seu próprio âmago, sabe que nada mais poderia obter além de mais mentiras e desculpas infundadas.

*

Quando o autor depara-se com um capítulo em que o nome deste deixa-lhe vulnerável a uma ampla gama de possibilidades e de comentários, eu concluo: não há o que falar. Porque o que é limitado, é definível. Já dissertar sobre algo como o amor, que é como a reta e não tem fim, torna-se quase impossível. Há, desse modo, o receio de que alguma característica fique no esquecimento e nossas proposições tornem-se paupérrimas aos olhos de alguns.
Alguém me ensinou, entretanto, que se deve esperar o melhor das pessoas. Penso a ajuda então do caro leitor, que me avise quando eu estiver gastando a paciência com esse meu estilo a que me atenho. Embora Jane Austen já entendesse que o autor falha quando não se apega ao próprio estilo…
Eis uma tentativa, por conseguinte, de descrever que imaginações circundavam a mente daquela criança linda chamada M. Lúcia.
Foi quando ela atirou-se em cima da cama, esta estando coberta por uma colcha de desenhos animados e deixando ressaltar o quão infantil ainda era a sua dona, que uma certeza incerta veio à tona:
- Estou amando.
Não parecia mais tão incerta, agora que declarada. Usemos, portanto, do método científico. Depois de identificarmos nosso objeto de estudo com o raciocínio dedutivo e fazer uma declaração geral, o próximo passo deve ser a declaração específica:
- Sinto amor pelo Gustavo, um garoto que acabei de conhecer.
Eis o momento em que minha tentativa de explicar talvez se torne torpe para alguns. Onde já se viu uma criança, na altura de seus doze anos, pensar em amar à primeira vista?
Amar à primeira vista envolve nada mais do que atrair-se fisicamente, diz o cético. Crianças não amam dessa forma, alega o moralista. Começa um burburinho entre os leitores presentes, os quais devem estar a indagar que espécie de autora quer influenciar as crianças, já tão “precoces” nesse sentido, a ter relacionamentos “de adulto” nos dias de hoje.
O sábio leitor, que curiosamente é o que menos se pronuncia em uma roda de debatedores, é aquele capaz de calar a todos com um ponto final em: “o amor, idade não tem”. Uma amiga da narradora, talvez uma das poucas mais sinceras dela, deixa a sua incrível observação: “de repente me senti em um barzinho com vários leitores falando sobre o amor… deu até pra imaginar como ele era; como um senhor de idade com roupas simples e muito sábio que ficou quietinho enquanto os outros falavam mais alto, só pra soltar essa lição de vida no final”.
Achei tão magnânima essa constatação, que quase passei o meu livro para as mãos dessa amiga a quem tanto carinho desvelo.
É com esse tipo de leitor que eu conto humildemente, como pede, com mais cultura e de forma ainda bem mais magnífica, Leonardo das Dores Castelo Branco em O Ímpio Confundido.

*

De qualquer forma, era isso que M. Lúcia sentia, queira o leitor moralista ou não. Não havia palavra que completasse mais perfeitamente a sensação de pés que não tocam o chão, de andar-se como em pulos serelepes, de rostos da pessoa endeusada que vemos em desconhecidos trafegando pelas ruas, de lembranças bobas em canções nunca antes com tanto sentido, do que o que compõe o significado de amor.
Se esse amor queria ser consumado, aí já são outros quinhentos. M. Lúcia nunca havia interpretado o ato de amor selado com alguém: o beijo. Um pouco do saber jurídico que tenho faz-me ver até isso como um acordo de vontades entre as partes. Deixo a faculdade do agir, porém, mostrar seu subjetivismo, pois nem sempre é um acordo com as mesmas intenções. Nem sempre o amor de um amante vem na mesma intensidade que o do outro.
Fica aqui uma parte divertida da história. Deixo Gustavo enamorar-se de M. Lúcia e enviesar minha narrativa para o típico “felizes para sempre”? Ou dou ouvidos para a personagem Júlia, que bate o pé para que isso não aconteça; que M. Lúcia e Gustavo são muito jovens e tudo o mais… Protecionismo materno, eu sei. Ou até falso moralismo impregnado em seus códigos internos de conduta.
Não é por querer deixar Júlia contente, mas acho que mais águas devem rolar até Gustavo, o neto do velho excêntrico, realmente gostar de M. Lúcia. Ou não passa de mero temor meu em narrar um tabu que a sociedade ainda não tratou de cuidar? Do amor entre duas crianças?
É nessa parte do romance é que tudo pode acontecer. O autor torna-se ou malvado ou bonzinho demais. Não deixa de ser tal como o destino, que às vezes traz alguns males, para depois entendermos que estes vêm o bem. Deixa-se então a escritora imitar de maneira descarada o destino?
Já foram tantos que reclamaram desse eterno depositário de memórias, o destino… Constata-se que não possui a escritora que vos fala, uma auto-estima tão elevada ao ponto de saber lidar com críticas, se determinados rumos a sua obra tomar.
Deve ser tal qual o momento em que os pais vêm seus filhos traçando o próprio caminho a certa idade. Deixa-os trilharem com seus passos o que deve ser trilhado e, inevitavelmente, topar com seus obstáculos sem interferir. Só que há o receio de que os outros adultos critiquem essa liberdade dada.
Afinal, como alguém poderá saber enfrentar essas coisas difíceis da vida, quem acabou de lhe sair da barra da saia? Como saberá detectar em que pessoas deve-se confiar, alguém que há pouco se encontrava aprisionado em uma bola de cristal?
Ainda mais: que tipo de precauções e soluções, se necessárias, usará como recursos à autodefesa alguém que ainda se permite escutar bandas de rock e acreditar no que se escreve em livros?
Tantas hipóteses, tantas divagações… Acho melhor encerrar esse capítulo, antes que o caro leitor se aborreça com os meus receios juvenis e desista de saber o que acontecerá com esse enredo.
Chame-me covarde, se assim for de sua preferência e se, assim me chamando, continuarem a dar uma chance para que eu conclua acerca dos ditos das vozes. “Interesseira”, o caro leitor completa.
Dou uma risada e prossigo.

*
*Continua…

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