SEGURE ESSE PINTO! — Caso “Valentina” e algumas reflexões

Um dos assuntos que, certamente, entrará na Retrospectiva 2015 de nossas vidas é a campanha viral do #primeiroassédio. Para quem foi parar umas férias em Miami e não sabe do que estou falando agora, essa campanha surgiu, primeiro, no Twitter. Tudo porque um grupo de caras com vontade de ser engraçadalhos (ou não), sendo um deles, conhecido meu de longa data, resolveu fazer piadinha com uma das participantes do programa MasterChef Júnior. A menina com seus 12 anos teria despertado o “desejo sexual” e promovido piadinhas pedófilas em grupos da esfera tuiteira.

Fonte Globo.com

A questão é: se a menina em questão tivesse um corpo desenvolvido no estilo “mulherão”, os machos de plantão ainda teriam como querer justificar (mesmo não fazendo sentido) que eles não conseguem controlar o próprio pinto ao ver uma criança cozinhando.

Mesmo que alguns tenham caído na onda só para não perder a piada (o cara que eu conhecia e que se meteu nisso veio até me pedir desculpas depois), percebemos que casos como estes demonstram o principal argumento injustificável para amenizar ou naturalizar a pedofilia - e demais tipos de violência a algum grupo vulnerável, como a violência de gênero e o racismo — de que a culpa estaria na vítima!

Ora, se a participante pueril do programa culinária não estava vestindo uma minissaia nem dançando sensualmente numa boate, por quê, ainda assim, você homem se sentiu no direito de agredi-la? Pois, sim, ainda que os pais da garota tenham falado que já esperavam esse assédio, não é normal esperar que um estranho tenha a permissão de falar sobre o seu corpo! Ainda mais, quando nem mesmo você ainda tenha “um corpo”. A culpa estaria onde então?

Se você falar que é pela sociedade machista e opressora, você é um “esquerdopata” que “adota bandidos”. Se você falar que é pela criação de cada família que, nãaao, imagina que todos os homens por aí serem abusadores e pedófilos, nunca conheci um! Como você pode afirmar que a culpa é da sua sociedade, seu vitimista! Imagina que a minha sociedade da qual você também faz parte vai ter esse tipo de impureza e imundície, jamais! Por isso, todos os presídios estão lotados, não é verdade?

Ou seja, as pessoas se perdem em suas próprias paixões políticas para desanuviar o entendimento que isso não deveria nem passar pela velha briga de velhinhos rancorosos que se chama direita x esquerda nesse Brasilzão de meu Deus. Tentam achar um culpado, em vez de pensar em soluções práticas para nem passarmos a ter esse tipo de discussão.

Esses dias, estava andando só no Centro da cidade e havia uma dupla de trabalhadores daquela obra do VLT Carioca. Havia bem poucas pessoas na rua por ser feriado. Eu estava com uma calça e um moletom bem conservadores. Não atendo ao padrão de mulher “gostosona” e “sarada” da academia. Nem mesmo, ao padrão “magro”. Mas adivinha só: vocês acham que iam deixar passar a chance de subjugar uma mulher? Foi só eu me aproximar com uma distância considerável deles, que um não hesitou em falar: Cuidado para não escorregar.

Havia um limo ali perto em razão da chuva que caía na cidade. Mas parece que ele imaginou que eu não seria capaz de perceber, né? Bom, ele esperou que eu desse as costas, para gritar para seu colega de trabalho: DEUS, TENHO TRABALHO, CASA PRÓPRIA E POR QUE NÃO TENHO UMA MULHER DESSA NA MINHA VIDA?

E continuou em seus lamúrios. Eu balancei a cabeça para passar um ar de segurança. Foi o que sempre fiz todos esses anos. Poderia ter desde os 13 aos atuais 23 anos, toda vez em que passava por um grupo de homens eu tinha receio desse tipo de agressão. É como se eu estivesse despida sem ter dado permissão, embora eu nunca tenha “pedido” nem dado “chance” para esse tipo de situação.

Então, pergunto a vocês: Por quê? Até quando?

Só sei que não quero ver minhas futuras filhas e netas tolhidas do seu direito de galgar um patamar alto na sociedade por que um bando de piadistas só têm a pretensão de satisfazer sua falta do que fazer com aquelas “estrelinhas” e “corações” pipocantes em seu tweet solitário.

Homem, isso não é post sobre feminismo, embora possa parecer a você. Mas se você chegou até aqui sem revirar seus olhos ou pensar em uma série de clichês para me replicar como um moleque teimoso e “da zoeira”, é com você que quero conversar e peço:

SEGURE ESSE PINTO. Se tantas mulheres passaram anos e anos privadas do direito de conhecer e exercitar sua sexualidade, porque você não pode, ao menos, guardar seus pensamentos abusadores só para você? Afinal, já somos todos iguais, não é mesmo? Nem precisamos do feminismo…