Mas é que estamos nessa fila do ônibus e, já que ele demora a chegar, que tal a gente conversar um pouco? Se você não tivesse um jeitão de que não daria papo para uma estranha de manhã cedo e não colocasse esses fones de ouvido para fingir estar desconectado da realidade, até que poderia rolar algo entre a gente.
Enxaqueca existencial
S. Paiva
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E esse é o sentimento (GIPHY).

TRÊS MESES DEPOIS DESSE TEXTO, O “ESTRANHO DO ÔNIBUS” VEIO FALAR COMIGO!!!!!

Basicamente, ele perguntou se eu podia ajudá-lo.

Foi assim: eu estava despretensiosamente parada ao meu ponto de ônibus como de habitual. Quando eu avisto ele: aquele jovem o qual me deparo quase todos os dias (ou seja, quando não perco a hora) no mesmo ônibus e não tenho coragem de dar “bom dia”… Até hoje.

O mais louco é: ele precisava de ajuda e havia duas pessoas para ele falar.

ELE VEIO FALAR COMIGO!

E, sim, a outra pessoa também era uma mulher aproximadamente da minha idade, que também usava óculos. A única diferença, olha só, é que ela estava com fones de ouvido e eu, não.

Pois bem: eu fui a escolhida — rá, rá, vida!

Ele veio perguntar se eu poderia passar o cartão no ônibus para ele, pelo que ele retornaria o preço da passagem em dinheiro, pois o ônibus que pegamos só aceita cartão (coisas de Curitiba).

Ok, beleza. O problema é que eu SÓ TINHA CRÉDITOS PARA UMA PASSAGEM DE ÔNIBUS. E tive que falar isso, imagine o constrangimento. TANTOS DIAS EM QUE ENFIEI TRINTA REAIS NAQUELA MISÉRIA DE CARTÃO PARA ELE, O CARA ESTRANHO DO ÔNIBUS, VIR ME PEDIR AJUDA JUSTO NO DIA EM QUE NÃO TENHO COMO AJUDÁ-LO COM ISSO.

(GIPHY)

Mas, enfim, vamos continuar com calma sobre o assunto:

Eu disse que não dava, mas sugeri um ônibus que fazia quase o mesmo trajeto. Daí ele perguntou que trajeto especificamente e eu joguei o charmoso e infalível “desculpa, eu não sei direito, pois não sou daqui” (imagine isso lido num autêntico sotaque carioca e um brilho no meu olhar como luzes de Copacabana à noite).

Ele deu um sorriso lindo e genuíno.

(GIPHY)

Acabar que ele não moveu um passo para pegar o tal ônibus que eu indiquei — SINAL DE QUE ELE NÃO PARECIA ESTAR REALMENTE PRECISANDO DO QUE ME DISSE E, PROVAVELMENTE, SÓ QUIS PUXAR PAPO COMIGO.

Mas eu, solícita, sugeri que a moça do lado o ajudasse. Ela o ajudou com “a questão do cartão”.

(GIPHY)

Sorri para ele antes de subir no ônibus e disse “problema resolvido”. O mais louco é que, enquanto eu ajudava ele com as coordenadas, eu cheguei a perguntar até onde ele trabalhava, mas não o nome dele.

Fica não resolvido, então, o mistério do nome d’o Estranho do Ônibus. Por ora. Pode ser Leovegildo ainda, ok. Mas depois que ouvi a voz dele, acho que ele tem mais cara de Antônio ou de Márcio. E algo me diz que ele vai estar sussurrando um dia esse nome pra mim. Quem sabe, um dia.