Era dia 20

a própria navalha
Aug 31, 2018 · 2 min read

Se passaram dois dias do dia vinte, eu queria ter dito ou escrito algo nessa data tão dolorosa que nunca passará despercebida enquanto eu viver.

Eu juro que queria ter escrito alguma coisa pra você, mas eu só consegui sentir. Senti um buraco no meu peito, foi como se você tivesse colocando a sua mão ali.
No dia 20 eu acordei, peguei meu celular e vi as horas e a data.

Confesso que não liguei os pontos na hora, estava distraída.
Estava deitada com minha namorada fazendo nada, quando franzi a testa e a perguntei;

-hoje é dia 20?

Algo em mim já sabia, mas eu precisava da confirmação pra me permitir sofrer corretamente.

Era dia 20, e eu não pude impedir que mais uma lágrima rolasse pela dor que nesse dia completou 3 anos.

Recebi a notícia na semana que antecedia o acampamento da igreja que nós supostamente nos encontraríamos.

Me lembro da dor de ir à essa viagem e não ter você pra me receber, como fez por tantos anos.

Depois que você partiu eu me submeti à 4 temporadas de acampamento, e talvez eu consiga relatar o quão difícil foram essas semanas.

Olhar pra um ambiente que era o palco da nossa amizade e perceber que você não estava ali, e que você não iria voltar, foi uma das realidades mais duras que já enfrentei.

Na hora de organizar os quartos uma cama sobrou, alguém estava faltando na panelinha.

A madrugada não fazia muito sentido sem você ali comigo. Fiquei acordada por horas pensando no que te contaria da minha vida, e sobre o que voce me contaria da sua.

Me perguntei se você reagiria bem à minha sexualidade visto que passamos tantos anos paquerando e falando sobre meninos.

Todos os dias acordei com dores fortes no corpo, e um intenso peso na minha testa me empurrando pra dentro do colchão. Meu corpo todo sentiu a sua ausência.

Gostaria de dizer que sinto sua ausência só no acampamento, mas algo em mim não te deixa ir.

Durante esses 3 anos sem você, eu fantasiei a sua presença inconscientemente enquanto dormia, sonhar com você se tornou uma tortura que parte de mim gosta de sofrer. Pelo menos assim vejo seu rosto novamente.

Eu não sonho que você morreu, eu sonho que você desapareceu e foi dada como morta, acho que essa foi a maneira do meu cérebro amenizar a perda.

Mas o fato é que eu te perdi pra sempre, você não foi embora, você está morta. Eu vou dormir e acordar e esperar que essa dor um dia suma.

a própria navalha

Written by

Mineira, 18 anos e bissexual. Sobretudo relatos pessoais.

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