Esqueci de mim

Estou na pizzaria com alguns amigos. “Bom Dia” era o nome da marca do azeite. Uma banda estava no local gravando seu show acústico. Sentei-me na ponta da mesa, onde tinha plena vista de todos. É engraçado pensar em como um único lugar pode reunir tantas histórias. Para a banda, aquele dia significava alguma coisa, para um casal, poderia ser a noite em que o namorado pediu a namorada em casamento. Para os grupos de amigos, como o meu, poderia ser um reencontro depois de X anos. Mas o mais engraçado é como você fica perdido em relação a algumas situações.

Todo mundo em minha volta conversando sobre muitas coisas: faculdade, trabalho, relações, novidades, TV, filmes, cervejas, etc, e eu só conseguia pensar em uma coisa: “quando eu vou sair daqui?”. É aquele típico momento em que você está cercado de pessoas, mas, mesmo assim, se sente sozinho. Mas naquele momento não era um sozinho de solidão, era um sozinho como se eu tivesse sido esquecido. Mas meus amigos não tinham culpa por isso, porque quem tinha esquecido de mim não eram eles: era eu mesmo.

De tempos em tempos, mesmo sem perceber, nós mudamos quem somos. Isso se deve ao fato de conhecermos pessoas novas, lugares novos e adquirirmos experiências novas. O eu de 15 anos era diferente do eu de 20, que por vez será diferente de quando eu tiver 30. Essas mudanças, por mais que sejam sutis, provocam um choque dentro da gente, porque “mudar” não é um processo em que algo substitui e elimina o outro. O Victor de 10 anos ainda está dentro de mim, assim como o de 15 e também o de 20. E sabe como é fácil perceber isso? Através da brincadeira do “?? coisas que você falaria pra você mesmo com ?? anos”. A maioria das pessoas falaria “continue fazendo dança”, “continue desenhando”, “continue…”. Continue. Isso mostra que o eu interior ainda queria estar fazendo alguma coisa que por algum motivo foi interrompida.

Vivemos num mundo onde somos obrigados a agir de uma forma simplesmente por conta da nossa idade. Dizem o que é certo, o que devemos vestir, o que é ser bonito e o pior de tudo: nos fazem escolher o nosso futuro inteiro antes mesmo de chegarmos à nossa maioridade.

A nossa identidade deve ser construída de dentro para fora, e não o contrário. Uma pessoa autêntica é aquela que acredita e segue seus desejos e suas vontades. Hoje, está cada vez mais fácil dizer “eu queria ser” do que “eu sou”. Eu mesmo já coloquei como objetivo “ser como fulano” e comecei a agir pensando “se fosse o fulano, o que faria?”, mas aí eu percebi que o que eu faria não condiziria com o que eu era. E foi quando eu percebi que eu tinha esquecido quem eu era e o que vivi.

Eu estava sozinho na pizzaria porque eu idealizei as coisas demais e criei expectativa demais. Não para mim, para os outros. E então, tudo que eu fiz foi deixar que o tempo consertasse tudo. Sabendo que, desta vez, eu tinha um eterno Victor criança e adolescente dentro de mim.

Depois que você aprende a conversar consigo e a se entender melhor, o tempo e o destino se juntam para construir um futuro diferente

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